Sexta-feira, 8 de Agosto de 2008

Biografia - Olga Alexandrovna

 

A Grã-Duquesa Olga Alexandrovna da Rússia nasceu no dia 13 de Junho de 1882 e foi a última Grã-Duquesa da Rússia Imperial durante o reinado do seu irmão mais velho, Nicolau II. O seu pai era o Czar Alexandre III da Rússia e a sua mãe era filha do rei Cristiano IX da Dinamarca, Maria Feodorovna. Criada no Palácio de Gatchina nos arredores de São Petersburgo, a jovem Grã-Duquesa era mais próxima do seu irmão “Misha”, o Grão-Duque Miguel Alexandrovich. Era uma talentosa pintora e criou mais de 2000 quadros.

 

Olga (no colo da mãe) com os irmãos

 

Nascida no dia 13 de Junho de 1882 no Palácio de Peterhof, Olga era a filha mais nova de Alexandre III e a única a nascer durante o seu reinado. A sua mãe, seguindo o conselho da sua irmã, a futura rainha Alexandra do Reino Unido, decidiu contratar uma governanta inglesa e então Elizabeth Franklin chegou à Rússia. Sobre ela, Olga disse mais tarde:


“A Nana foi a minha protectora e conselheira durante a infância e a minha leal companheira nos anos que se seguiram. Não faço ideia do que teria feito sem ela. Tudo o que ela fez por mim permitiu-me sobreviver durante o caos dos anos de revolução. Ela era eficaz, corajosa e perspicaz; estava lá para ser a minha ama, mas a sua influência chegou até aos meus irmãos e irmã.”

 

Olga durante a infância

 

A Grã-Duquesa foi criada longe do perigo de São Petersburgo, no Palácio de Gatchina e sempre se referiu aos seus tempos de infância como os melhores da sua vida. Contudo, Olga Alexandrovna e os seus irmãos não estavam habituados a um estilo de vida demasiado sumptuoso durante os seus anos de infância e juventude, uma vez que os seus pais, governantes e tutores lhes exigiam disciplina e rigidez.

 

Olga disse sobre Gatchina:

 

“Como nos divertimos lá! A Galeria Chinesa era perfeita para jogar às escondidas! Bastava encolher-nos atrás de um vaso chinês enorme qualquer. Havia tantos, alguns que tinham o dobro do nosso tamanho. Suponho que valiam imenso, mas não me lembro de algum de nós alguma vez os estragar.”

 

A avó paterna das crianças, Maria de Hesse e do Reno, tinha introduzido costumes ingleses na corte russa. Olga comentou:

 

“Crescemos todos com uma dieta rigorosa. Para o lanche tinhamos geleia no pão e manteiga e bolhachas inglesss – bolo era servido muito raramente. Gostávamos da forma como a nossa papa-de-aveia era cozinhada – a Nana deve-os ter ensinado a fazê-la. O nosso jantar de marca parecia ser bife com ervilhas e batatas assadas, ou então costeletas, mas nem a Nana me conseguiu fazer gostar delas, principalmente quando estavam demasiado assadas!

 

Havia pequeno-almoço, almoço, lanche, jantar e ceia – todos servidos de acordo com as normas rigorosas do palácio e algumas nem sequer tinham mudado desde os tempos de Catarina, a Grande, como os pequenos bolos de manteiga suecos que eram servidos todas as noites durante a ceia. Eram do mesmo tipo daqueles servidos em 1788."


Olga Alexandrovna

Olga na Galeria Chinesa

 

O sistema educacional pelo qual a Grã-Duquesa e os seus irmãos foram educados era de grande exigência. Os tutores imperiais ensinavam as disciplinas principais como Russo, Literatura, Matemática, História e Línguas com grande profundidade. Embora todos os irmãos tivessem as suas aulas na mesma sala, a “sala das crianças”, o irmão mais velho de Olga, Nicolau, estava a ser ensinado a um nível superior. Nicolau estava a aprender outras disciplinas e matérias que lhe seriam mais úteis como futuro Czar. As actividades físicas como as equestres também começavam a ser ensinadas cedo, o que, eventualmente, tornou os jovens Romanov em cavaleiros experientes.


A jovem Grã-Duquesa passava as férias em Olgino, uma propriedade na província de Voronezh no Sudoeste da Rússia. Aí ela praticava e exemplificava a sua fé, a Igreja Ortodoxa Russa, criando ícones religiosos e abençoando os habitantes e edifícios da aldeia. Foi aí que ela pintou e desenhou muitos dos seus trabalhos originais que, mais tarde, vendeu aos seus amigos e vizinhos em Ontário no Canadá. Outras das actividades preferidas em Oligno eram cavalgar, montar e nadar. A Grã-Duquesa tinha uma forte relação com os habitantes da aldeia, mas essa relação foi-se tornando mais amarga à medida que aumentavam os descontentamentos que levaram à Revolução Russa.

 

Olga com os irmãos Jorge e Miguel durante as férias em Olgino

 

A Grã-Duquesa foi descrita como sendo muito simples e indiferente a pedras preciosas e jóias caras que continuam a ser consideradas uma imagem de marca dos Romanov. Mesmo assim, durante a sua vida, a mais jovem irmã do Czar acumulou uma colecção de pedras preciosas inestimável que foi, na sua maioria confiscada pelos revolucionários russos.

 

A sua infância foi muito feliz. O seu pai, Alexandre III, apoiava-se muito nela e no seu irmão Miguel que eram os mais novos dos cinco filhos e os que passavam mais tempo em casa devido às suas idades. Eles costumavam dar grandes passeios nas florestas que cercavam o Palácio de Gatchina nos quais Alexandre ensinou Olga e Miguel a fazer fogueiras e a escolher cogumelos. Estas caminhadas davam a Alexandre uma rara pausa nas suas responsabilidades como Imperador da Rússia e criaram uma ligação especial entre os três. Os dois irmãos guardaram boas recordações destes passeios que ambos preservaram durante as suas vidas e Olga sempre se referiu a estes momentos como os mais felizes da sua vida.

 

“O meu pai era tudo para mim. Mesmo quando estava imerso no seu trabalho, ele tirava sempre meia-hora do dia para estar connosco. Quando cresci, os meus privilégios aumentaram. Lembro-me do primeiro dia em que me deixou colocar o selo imperial num dos muitos envelopes que se espalhavam pela secretária dele. Era um selo pesado de ouro e cristal, mas senti-me muito orgulhosa e feliz nessa manhã. Eu ficava espantada com a quantidade de trabalho que o meu pai tinha todos os dias. Acho que o Czar era o homem que mais trabalhava na Terra. Para além das audiências e funções de estado, todos os dias ele tinha de analisar montanhas de editoriais, decretos de lei e relatórios que, depois, tinha de assinar. Muitas vezes o meu pai escrevia os seus comentários furiosos nas margens dos documentos: “Idiotas! Lerdos! Que besta que este é!…” Uma vez mostrou-me um album velho cheio de projectos de uma cidade imaginária chamada Mopsopolis, habitada por cães. Mostrou-me isto em segredo e eu fiquei encantada por ele ter partilhado o seu segredo de infância comigo.

 

(…)

 

O meu pai tinha a força de Hércules, mas nunca a mostrava quando outras pessoas estavam presentes. Costumava dizer-nos que conseguia dobrar ferraduras e pratos com muita facilidade, mas não se atrevia a fazê-lo porque a nossa mãe ficaria furiosa. No entanto, uma vez, quando estávamos no escritório, ele dobrou um limpador de cinzas feito de ferro e depois voltou a endireitá-lo. Lembro-me de que, enquanto o fazia, manteve sempre os olhos presos na porta para o caso de alguém entrar!”


Miguel Alexandrovich e Olga Alexandrovna Romanov

Miguel e Olga

 

Em finais de 1888, Olga deixou Gatchina pela primeira vez quando toda a família imperial foi visitar o Cáucaso. No dia 29 de Outubro o longo comboio imperial estava a viajar a grande velocidade para Kharkov na Ucrânia. Um dos passageiros recordou o que aconteceu:

 

“Por volta da uma da tarde o comboio estava a aproximar-se da cidade de Borki. O Imperador, a Imperatriz e quatro dos seus filhos estavam a almoçar no vagão-restaurante. Estavam a trazer o pudim quando o comboio começou a estremecer violentamente e, depois, estremeceu novamente e todos caíram ao chão. Dentro de um segundo ou dois, o vagão-restaurante estava revirado com o pesado tecto de ferro cravado a apenas alguns centímetros das cabeças dos passageiros. (…)

 

“A explosão tinha separado as rodas e o chão do resto do vagão. O Imperador foi o primeiro a rastejar de debaixo do tecto. Depois disso, segurou-o alto o suficiente para que  a sua mulher, filhos e outros passageiros pudessem sair em segurança. Foi um esforço verdadeiramente herculeano da parte do Alexandre e, apesar de ninguém se ter apercebido disso na altura, custou-lhe a sua saúde."

 

 

Olga (entre os pais) com a família

 

Alexandre III morreu quando Olga tinha apenas 12 anos. Ela ainda era uma criança e sofreu muito com a perda do pai. Assim que recuperou da morte prematura do marido, Maria Feodorovna viu-se num dilema para encontrar uma forma de compensar a falta de um pai durante as adolescências de Olga e Miguel. Naturalmente virou-se para o seu filho mais velho, o novo Imperador, para que fosse ele a assumir esse papel. Afinal agora era ele o “chefe” da família Romanov. Talvez Nicolau tivesse feito o melhor que podia, mas ele tinha as suas próprias preocupações e responsabilidade com o seu novo cargo, mulher e filha. Mesmo que tivesse tempo, não haveria hipótese de que Olga e Miguel tivessem visto o seu irmão mais velho como um substituto para o seu pai. Ele e Nicolau eram completamente diferentes em aspecto, humor e personalidade.

 

Olga com a mãe e o irmão Nicolau II

 

Maria era, até certo ponto, uma mãe fria e distante. Ela sabia-o e isso incomodava-a. A sua falta de afecto não significava que não gostasse dos filhos, muito pelo contrário: era uma questão de prioridades. O mais importante para Maria era cuidar do seu marido, a seguir estava o seu papel como Imperatriz da Rússia e o resto da família  vinha apenas depois disso. Isto devia-se ao facto de Maria se sentir um tanto desconfortável junto dos seus filhos. Ela achava difícil falar com eles e mantinha-os segregados no estilo de cida que tinha escolhido para eles. Maria via os seus filhos todos os dias, mas, ao contrário da sua irmã Alexandra, nunca teve lutas de almofadas com eles. O “habitat natural” dela era o mundo da aristocracia de São Petersburgo onde havia danças, entretenimento e conversas inteligentes. A Imperatriz brilhava na sociedade, movendo-se entre os seus círculos com uma facilidade inigualável. Apesar de ser baixa, ela movia-se de forma a que ninguém duvidasse da sua força e perseverança. Era uma mulher forte e até rígida. Maria estava habituada a ter tudo feito à sua maneira. Depois da morte do marido, isso tornou-se ainda mais evidente, uma vez que ninguém podia (ou se atrevia) a contrariar os seus desejos. Os criados achavam-na dura e difícil de servir.

 

Olga com a mãe e os irmãos Miguel e Jorge


Maria gostava de ter Olga ao pé de si e tratava-a cada vez mais como uma criada à medida que ela ia crescendo, ao mesmo tempo que esperava dela o amor e devoção de uma filha. Era natural que Olga, uma adolescente a crescer, preferisse a companhia da sua governanta, do cão e dos tutores à da sua mãe. Isto magoava Maria, mas encaixava-se com a sua inclinação de ter outras pessoas a educar a sua filha.

 

Olga com a sua governanta Elizabeth Franklin

 

A Grã-Duquesa começou a pintar muito cedo, mas foi apenas durante os seus últimos anos de adolescência que o seu talento começou a prosperar. Ela também tinha um lado benevolente, fundando programas de caridade na aldeia de Olgino que funcionavam junto à propriedade dos pais e ajudou a melhorar as opções básicas de medicina e educação dos habitantes locais. Também contribuía ou era dona de muitas organizações e estabelecimentos de caridade desde muito nova. Contribuía principalmente para orfanatos, casas da misericórdia e escolas de raparigas. Deu uma ajuda considerável aos artistas pobres, mas talentosos e alguns tornaram-se famosos graças a si.

 

Olga Alexandrovna

Olga durante a adolescência

 

O seu benefício na aldeia rural de Olgino inspirou muitas fundações que começaram os seus trabalhos de caridade por todo o Império Russo. Chegou mesmo a haver uma ocasião em que Olga substituiu a professora da escola de Olgino com dinheiro do seu próprio bolço, fundou e visitou o Hospital Nacional da aldeia e continuou a dar consideráveis contribuições às famílias mais pobres das regiões que cercavam a sua aldeia de férias. No hospital, ela aprendeu a administrar tratamento médico e a tratar de doentes do médico local. Através do seu treino na medicina mais tarde, ela conseguiu tornar-se numa enfermeira, uma capacidade que lhe seria muito útil mais tarde. A Grã-Duquesa continuou o seu apoio à Igreja Ortodoxa Russa e aos serviços religiosos realizados em Olgino. Mesmo quando estava de férias, Olga queria continuar a ter as suas lições diárias que eram, normalmente, completadas com aulas de desenho e pintura.

 

“Mesmo durante as minhas lições de geografia e aritmética, o professor deixava-me ficar sentada com o pincel na mão. Conseguia prestar muita mais atenção quando estava a desenhar flores selvagens num canto.”

 

Olga durante a adolescência (Nicolau II e Alexandra na direita)

 

Durante a sua vida, Olga criou uma vasta colecção de arte do seu tempo na Rússia, Dinamarca e, mais tarde, Canadá, que, eventualmente, reunia mais de 2000 exemplares. Na Rússia e na Dinamarca preferia desenhar coisas relacionadas com a Natureza como flores e paisagens. A Grã-Duquesa também descobriu que os seus quadros podiam ser uma boa fonte de rendimento e começou a vendê-los em Copenhaga, na Dinamarca. Olga também elogiava a paisagem da sua pequena vila no Canadá numa série de cartas que enviou para a sua amiga dinamarquesa, Alexandra Iskra:

“Tudo era maravilhoso, tudo cheirava muito bem. Na floresta cheirava mesmo como a Rússia com as bétulas e outros tipos de arvores a florescer. Depois, quando estávamos a passear de carro pelas casas e jardins de alguns amigos, vimo-los e depois saímos do carro. Que lindo jardim que temos! Lírios do vale, lilás e todos os tipos de cheiros de plantas no ar. Caminhamos pelos jardins que rodeiam a casa e do outro lado vimos uma ravina funda toda coberta de plantas. Conseguimos ver a paisagem até muito longe

 

 

 

Pinturas de Olga

 

Olga conhecia os Oldenburg, uma das famílias aristocráticas mais ricas da Rússia, há muitos anos. Eles tinham um filho, Peter que era um atraente oficial. Peter era bonito, sofisticado… e homossexual. Para o espanto de muitas pessoas, um dia ele pediu a Maria Feodorovna a mão da sua filha Olga em casamento. A razão pela qual Maria aceitou é desconhecida. Talvez quisesse manter Olga por perto e era melhor casar com um homossexual do que com um estrangeiro que a levaria para longe. Na carta que escreveu ao filho mais velho, Nicolau, a contar a novidade, Maria escreveu:

 

“Tenho a certeza que não vais acreditar no que acabou de acontecer. A Olga está noiva do Petya e ambos estão muito felizes. Eu consenti, mas foi tudo feito tão rapidamente e inesperadamente que ainda não consegui acreditar. Mas o Petya é simpático, eu gosto dele e, se Deus quiser, eles serão muito felizes.” Depois assinou a carta com “A tua agitada, Mamã”.

 

Nicolau respondeu à carta da mãe ainda mais incrédulo:

 

“Não posso acreditar que a Olga esteja realmente noiva do Petya. Provavelmente estavam os dois bêbados ontem e hoje não se lembram do que disseram um ao outro ontem. O que pensa o Misha disto? E como ficou a governanta? Nós os dois (Nicolau e Alexandra) rimo-nos tanto a ler a tua carta que ainda não conseguimos recuperar. O Petya acabou de entrar de rompante e contou-nos tudo. Agora temos mesmo de acreditar. Mas vamos acreditar que tudo corre bem. Tenho a certeza que vão ser felizes, mas parece-me tudo muito precipitado"

 

Olga Alexandrovna com o noivo na festa de noivado

 

Olga era completamente ingénua em relação a assuntos sexuais e provavelmente não fazia ideia do que era um homossexual. Ela não tinha razões para se opor à proposta. Afinal significava que ela finalmente poderia abandonar a casa da mãe e ter a sua própria vida com o marido a seu lado. Então casou-se com o Príncipe Peter Oldenburg numa bonita cerimónia recheada com o brilho Romanov que se realizou no dia 9 de Agosto de 1901, quando Olga tinha 19 anos. As prendas que receberam foram magníficas. O seu novo marido cobriu-a de pedras preciosas e roupas caras e o casal mudou-se para um complexo de palácios em Czarskoe Selo, perto do Palácio de Alexandre onde vivia o irmão mais velho de Olga, Nicolau, com a sua família. Para comemorar o seu casamento, o irmão de Olga deu-lhe o seu próprio regimento de soldados.

 

Olga (1º fila, 2º dir.) com a mãe,  a sobrinha Olga, Alexandra, a irmã Xenia, a sobrinha Irina e o irmão Nicolau


O marido de Olga era submisso e atencioso em público, mas reservado e distante em privado. O casamento nunca foi consumado. Estando perto do palácio do seu irmão e sendo muitas vezes ignorada pelo seu marido que passava a maior parte do tempo com os seus amigos, Olga tornou-se numa visita regular no Palácio de Alexandre e desenvolveu uma ligação com Nicolau muito mais próxima do que quando era uma criança. Também se tornou amiga da sua esposa Alexandra de quem gostava muito e vice-versa.

 

Olga com  o marido em 1901

 

Em 1903 ela conheceu o Coronel Nikolai Alexandrovich Kulikovsky através do seu adorado irmão Miguel, durante uma inspecção militar em Pavlovsk. Pouco tempo depois começou um romance entre o coronel e a Grã-Duquesa. Nesse mesmo ano, com 22 anos, ela enfrentou o seu marido e pediu-lhe o divórcio imediato. O seu irmão, o Czar Nicolau II, acreditou que a relação de Olga com Kulikovsky não passava de um romance passageiro e aceitou ceder o divórcio no prazo de 7 anos. Contudo, Oldenberg contratou o Coronel como seu ajudante e permitiu-lhe viver na mesma casa da Grã-Duquesa. Para aqueles que sabiam, a relação de Olga com Kulikovsky era mantida em segredo, especialmente para os patriarcas da família Romanov. Contudo, muitos membros influentes da família souberam da relação e não fizeram nada para mostrar a sua desaprovação.

 

Vivendo em Czarskoe Selo, Olga tornou-se também muito próxima das suas sobrinhas e sobrinho, as filhas e filho do seu irmão Nicolau. Ela criou uma ligação especialmente com a sua sobrinha mais nova, Anastásia, a quem chamava “Shvibzik"

 

Olga Alexandrovna com a sobrinha Anastásia

 

Olga viu as suas sobrinhas crescer desde bebés até jovens mulheres e, ao observar as suas vidas e rotinas no Palácio de Alexandre, viu muitas das mesmas tendências que a tinham deixado tão pouco preparada para a vida real. Ela preocupava-se com o futuro das grã-duquesas e do efeito que o clima sufocante da ala das crianças. Elas não tinham ninguém que as preparasse para a sociedade, uma vez que fora a mãe que as criara virtualmente sozinha. Como Alexandra se refugiava da sociedade, repelindo festas e bailas, Olga sentiu que era a única que poderia ter essa função. Com o objectivo de alargar o circulo de amigos das Grã-Duquesas e introduzi-las gradualmente no mundo real, Olga costumava levá-las todos os Sábados de Czarskoe Selo até São Petersburgo de comboio. Aí elas iam até ao palácio da avó onde se organizavam festas especiais para elas, com danças e outras pessoas jovens para elas conhecerem. Olga fazia isto com muito cuidado, sem alarmar os seus pais demasiado protectores. Ela era a única pessoa em quem Nicolau e Alexandra confiavam as suas filhas.

 

Com o rebentar da Primeira Guerra Mundial as festas acabaram.

 

Olga Alexandrovna com as sobrinhas Maria, Olga e Anastásia

 

Durante a Guerra, o amante de Olga, Kulikovsky, foi nomeado para comandar o regimento de Akhtyrsky na linha da frente do Sudoeste da Rússia. Com o conhecimento prévio  em medicina aprendido em Olgino, Olga começou a trabalhar como enfermeira no seu próprio regimento em Proskurov. Ao mesmo tempo as tenções internacionais na Rússia começaram a acumular-se à medida que os revolucionários ganhavam força. Durante o primeiro ano da guerra, a Grã-Duquesa esteve num local fortemente bombardeado por austríacos. Era raro as enfermeiras trabalharem tão perto da linha de fogo e, por isso, Olga recebeu a Ordem de São Jorge pelas suas acções heróicas.

 

Olga durante a Guerra

 

Em 1916, o Czar Nicolau II anulou oficialmente o casamento entre Olga e Peter Oldenburg, permitindo-lhe casar-se com o Coronel Nikolai Alexandrovich Kulikovsky no dia 14 de Novembro de 1916 na Igreja de São Nicolau em Kiev. Entre os que participaram no casamento estavam a sua mãe Maria Feodorovna, a sua irmã mais velha Xenia, o cunhado Alexandre, alguns oficiais do regimento de Kulikovsky e colegas enfermeiras do hospital de Kiev fundado pela Grã-Duquesa.

 

Olga com Nikolai Kulikovsky no dia de casamento

 

Depois da revolução que depôs o seu irmão Nicolau II no inicio de 1917, muitos dos membros da família Romanov foram presos e mantidos nas suas casas. Isto aconteceu com a família do irmão, primeiro no Palácio de Alexandre em Czarskoe Selo. Maria Feodorovna, a Grã-Duquesa Xenia e a Grã-Duquesa Olga conseguiram fugir para a Crimeia onde viveram durante algum tempo antes de também serem presas numa das suas casas.

 

 

Olga em Czarskoe Selo com o sobrinho Alexis e as sobrinhas Maria e Anastásia em 1914

No dia 12 de Agosto de 1917, Olga deu à luz o seu primeiro filho, Tikhon Nikolevich Kulkovsky que nasceu em prisão domiciliária durante o domínio do Governo Provisório na Rússia. Olga deu-lhe o nome do santo padroeiro de Oliginio, Tikhon de Zadonsk. Apesar de ser neto de um Imperador e sobrinho de outro, como o seu pai fazia parte do povo, o bebé não recebeu nenhum título e usou o apelido Kulikovsky com orgulho durante toda a sua vida, assim como o seu irmão mais novo Guri. Devido aos problemas de comunicação que a Rússia começou a sofrer e a censura oficial impelida aos Romanov, sabia-se pouco sobre o destino do destino de Nicolau e da sua família.

 

Olga com o seu filho Tikhon

 

Enquanto estavam na Crimeia, a família da Grã-Duquesa tinha sido condenada à morte pelos conselhos revolucionários de Sevastopol e Yalta. Durante a confusão política entre as duas fracções, o Poder Central da Alemanha avançou na Crimeia, mas quando chegaram em Novembro de 1918, os soldados souberam da derrota do seu país na guerra. Pouco depois da breve ocupação alemã, o Exército Branco de soldados leais ao czar, restaurou temporariamente a segurança na área, dando tempo à Grã-Duquesa e à família para fugir para o estrangeiro. O rei Jorge V enviou um navio de guerra britânico para retirar a sua tia, Maria Feodorovna, as suas primas e outros membros da família Romanov da instável Crimeia. Foi feito um acordo entre a antiga imperatriz e o rei Jorge V para permitir a evacuação de um grande número de cidadãos russos nesse navio. O bloqueio de comunicações que a família tinha sofrido na Crimeira levantou-se relativamente pelos marinheiros britânicos a bordo. Foi dada a notícia do assassinato confirmado de Nicolau II e das supostas mortes da restante família. O destino do  irmão e companheiro de infância de Olga, “Misha”, Grão-Duque Miguel Alexandrovich da Rússia, aquele que quase se tornou Imperador da Rússia, também era incerto. Na altura não se sabia que ele tinha sido assassinado pela Checa em Perm, na Rússia no dia 12 de Junho de 1918 para garantir que não sobravam descendentes Romanov para subir ao trono.

 

Olga e Miguel

 

A Grã-Duquesa Olga e o marido recusaram-se a abandonar a Rússia ao mesmo tempo que a restante família. Os dois decidiram ir para a região de Kuban, na altura ainda livre de bolcheviques e viveram na cidade de Novominskaya, a cidade natal do guarda-costas de Maria Feodorovna. Na Primavera de 1919, nasceu o Segundo filho do casal, Guri Nikolaevich, numa quinta alugada. O segundo filho do casal recebeu o nome de um grande amigo de Olga durante a Primeira Guerra Mundial, Gury Panayevich, um grande herói de batalha que tinha morrido em 1914 a defender o seu regimento.Pouco depois do nascimento do Segundo filho, os circulos internos do Exercito Branco abordaram a Grã-Duquesa com propostas para se declarar oficialmente como Imperatriz da Rússia. Olga recusou diplomaticamente a oferta. Sendo a última herdeira legitima ao trono russo, Olga tornou-se num alvo para o Exército Vermelho.

 

Olga Alexandrovna com o marido e os filhos em 1920

 

A família começou então aquela que seria a sua última viagem pela Rússia. Fugiram para Rostov-on-Don, refugiamdo-se na residência do Cônsul Dinamarquês, Thomas Nikolaevich Schtte, que os informou sobre a chegada segura deMaria Feodorovna à Dinamarca. Depos de uma breve estadia, a família foi para a ilha de Büyükada no estreito dos Dardanelos perto de Istambul, Turquia. Depois foram para Belgrado onde Olga foi visitada pelo regente Alexandre Karageorgevich que mais tarde seria o Rei Alexandre I da Jugoslávia. O regente recomendou que a Grã-Duquesa e a família vivessem permanentemente num dos estados reais do antigo Império Austro-Húngaro, mas a sua mãe pediu-lhe para se juntar a ela na Dinamarca. A Grã-Duquesa aceitou imediatamente e a família mudou-se novamente para a Dinamarca. A Dagmar Imperatriz Maria Feodorovna morreu no seu país natal no dia 13 de Outubro de 1928, 9 anos depois.

 

Olga Alexandrovna com os filhos

 

Com a morte da sua mãe, a casa de Hvidore foi vendida e Olga conseguiu comprara a quinta Knudsminde, a alguns quilómetros de Copenhaga com a sua parte da herança. A sua quinta tornou-se no centro dos monarquistas russos exilados na Dinamarca e um local de passagem de muitos emigrantes russos. Ela manteve sempre o contacto com soldados e oficiais do seu regimento, com a família imperial e com os seus primos da família real dinamarquesa. Ela começou a vender os seus próprios quadros que estiveram em esposição em Copenhaga, Londres, Paris e Berlim. Uma parte do rendimento que a Grã-Duquesa fazia com a pintura ia para varias instituições de caridade russas.

 

No dia 9 de Abril de 1940, a Dinamarca neutra foi invadida pela Alemanha Nazi e consequentemente tornou-se num país ocupado durante a Segunda Guerra Mundial. Os armazéns de comida, comunicações, censura e fecho de transportes resultaram num grande grupo de dinamarqueses pobres. Os seus filhos, Tikhon e Guri serviram no Exército Dinamarquês antes de a Dinamarca ser invadida e, por serem dois Romanov, foram presos num campo de concentração mais liberal.

 

Olga com os filhos durante a Segunda Guerra Mundial

 

A sorte dos Romanov mudou para melhor quando a Alemanha se rendeu aos Estados Unidos, Reino Unido e União Sovietica no dia 5 de Maio de 1945. Quando as condições económicas da Dinamarca se recusaram a melhorar, o General Pyotr Krasnov escreveu à Grã-Duquesa alertando-a para as baixas condições de vida dos cidadãos na Rússia e dos emigrantes russos que viviam na Dinamarca. Olga escreveu imediatamente ao Principe Alex da Dinamarca a falar-lhe da luta económica da Rússia e ele prometeu ajudar os pobres russos, especialmente os Cuzacos.

 

Estaline controlava rudemente a Rússia. Ele provou ser um vizinho perigosos para a família Romanov quando enviou uma carta ao governo dinamarquês acusando a Grã-Duquesa e um bispo católico dinamarquês de conspiração contra o governo soviético. Quando as tropas soviéticas se aproximaram das fronteiras dinamarquesas após a II Guerra Mundial, o medo de uma tentativa de rapto ou assassinato contra os Romanov cresceu. Então a Grã-Duquesa decidiu mudar novamente a sua família para o outro lado do oceano, na segurança do Canadá rural.

 

Olga Alexandrovna nos seus últimos anos

 

Quando a quinta que compraram no Canadá se tornou cada vez mais num fardo, Olga, o marido e os filhos mudaram-se para uma pequena casa em Cooksville, Ontário, um subúrbio de Toronto. Os vizinhos e visitantes da região ganharam um grande interesse nos rumores sobre “a última Romanov” que vivia no Canadá e visitavam-na frequentemente. Dignitários estrangeiros e membros das famílias reais também visitavam a sua confortável casa com um grande jardim. Esses visitantes incluíram a Princesa Marina, Duquesa de Kent, filha da Grã-Duquesa Elena Vladimirovna da Rússia. Outros convidados notáveis incluíram a Princesa Tatiana Constantinovna e o Príncipe Vassily Alexandrovich. Uma das maiores visitas ocorreu quando a Reinha Isabel II, o Principe Filipe e o Príncipe Carlos foram a Toronto e convidaram a Grã-Duquesa para o almoço a bordo do Iate Real, HMY Britannia. Em 1951, antigos soldados do regimento de Olga reuniram-se em sua casa para celebrar o 300º aniversário da criação do mesmo. Pouco depois ela tornou-se presidente da Associação de Cadetes da Rússia Imperial no Canadá.

 

 

Depois da morte do marido em 1958, Olga ficou demasiado doente para tomar conta de si e mudou-se para a casa de amigos russos emigrados no Canadá que ficava em cima de um salão de beleza em Toronto. Aí ela podia ouvir a confortável língua da sua infância e cheirar e provar a comida da sua infância. Ela morreu no dia 24 de Novembro de 1960 com 78 anos de idade. Foi enterrada ao pé do marido no Cemitério York em Toronto, Ontário, Canadá. No funeral da última Grã-Duquesa da Rússia participaram muitos emigrantes bem como muitos amigos que ela tinha feito no seu novo país. Os Cadetes Imperiais Russos fizeram uma vigília e uma guarda de honra que durou dois dias. O “New York Times” fez manchete da sua morte nos obituários, mas, em vez de colocarem a sua fotografia, colocaram a da sua sobrinha Olga Nikolaevna. Muitas pessoas foram ao funeral, mas nenhum Romanov.

 

Olga é lembrada na cidade pelas instituições de caridade que fundou.

 

campa de Olga Alexandrovna e família em Toronto, Canadá


publicado por tuga9890 às 23:47
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Sábado, 2 de Agosto de 2008

Biografia - Miguel Alexandrovich

 

O Grão-Duque Miguel Alexandrovich Romanov nasceu em São Petersburgo no dia 9 de Dezembro de 1878, sendo o quarto filho do Czarevich Alexandre Alexandrovich e da sua esposa, a antiga Princesa Dinamarquesa, conhecida na Rússia por Maria Feodorovna. Misha, como era conhecido pela sua família e amigos mais próximos, era, sem dúvida, o filho preferido dos seus pais. O seu pai subiria ao trono em 1881, após o assassinato do seu avô, Alexandre II.

 

Grão-Duque Miguel Alexandrovich durante a sua infância

 

A infância de Miguel foi passada sobretudo no Palácio de Gatchina, localizado nos arredores de São Petersburgo, antiga residência do seu trisavô Paulo I. Neste palácio vivia-se num ambiente relaxado de casa de campo e simplicidade sem grandes luxos. Enquanto Alexandre III era austero e dominador como Czar e com outros membros da família, com os seus filhos era um pai devoto e relaxado, especialmente com Miguel. Nicolau II era conhecido como uma criança tímida e insegura, mas, pelo contrário, Miguel era amistoso e mostrava bem a confiança interior de filho predilecto.

 

Miguel com o seu pai Alexandre III

 

Entre os seus irmãos, Miguel era mais próximo da sua irmã mais nova, Olga Alexandrovna que o tratava por “querido, querido Floppy”. Os dois irmãos viajavam bastante juntos e a primeira paixão de Miguel foi com uma das suas damas-de-companhia chamada Dina. Essa relação não foi considerada própria para um Grão-Duque e terminou graças aos esforços da sua mãe. Misha estava ao lado do seu adorado pai quando este morreu subitamente em 1894.

 

Miguel era muito mais alto que o seu irmão Nicolau e recebera a beleza da sua família, por isso causava muitas paixões por onde quer que passasse.

 

Miguel e Olga

 

Miguel (2º da esquerda) com o pai

 

Em 1899, quando Miguel tinha 20 anos, o seu irmão mais velho, Jorge morreu de tuberculose. Como Nicolau e Alexandra ainda não tinham um filho, Misha recebeu o título de czarevich até a Agosto de 1904 quando o seu sobrinho Alexis Nikolaevich nasceu. Quando Alexandra estava grávida de Anastasia, Nicolau esteve muito próximo da morte quando sofreu de febre tifóide. Foi só durante essa altura que Alexandra soube das leis paulistas que impediam as suas filhas de subir ao trono. Muitos dizem que foi então que começou a sua obsessão em ter um filho. Felizmente para todos, Nicolau sobreviveu e Miguel pôde regressar à sua rotina normal. O papel de um jovem adulto herdeiro ao trono na família Romanov era muito semelhante ao que hoje faz um Vice-Presidente nos Estados Unidos: participava em muitos casamentos e funerais. Miguel representou Nicolau tanto no funeral da Rainha Vitória em 1901 como no do Rei Eduardo VII do Reino Unido em 1909. A relutância do Czar em abandonar a sua jovem família fazia com que as viagens de Miguel aumentassem, tanto no seu país como no estrangeiro.

 

Miguel atrás de Alexandra e Nicolau


Como resultado das suas viagens, Miguel tornou-se numa espécie de cavalheiro britânico. Muitos dos seus gostos e preferências reflectiam os da aristocracia inglesa da altura. Era um brilhante cavaleiro, sabia conduzir na perfeição e adorava animais e estar no campo. Durante estes anos, quando estava na Rússia, vivia no seu palácio de infância, Gatchina.

 

Um dos seus outros deveres levou, indirectamente, ao seu casamento em 1912. Durante muitos anos, Miguel foi o comandante da Guarda Imperial que tinha o seu quartel-general em Gatchina. Foi aí que conheceu a esposa de um dos oficiais, Natalia Wulfert, em 1906. O escândalo causado por esta ligação foi o segundo do tipo na família. Antes o seu tio, o Grão-Duque Paulo, tinha casado com a estranha ex-mulher do adjunto de Vladimir Alexandrovich.

 

Miguel Alexandrovich e esposa em 1915

 

Natalia Wulfert era descrita pelos seus contemporâneos como uma bonita jovem de 18 anos e com um espírito independente quando conheceu Miguel em 1906. Filha de um advogado de Moscovo, casou-se pela primeira vez aos 16 anos com o director musical de Bolshoi Mamontv. Enquanto estava casada com Wulfer, conheceu Misha e, segundo relatos, houve uma atracção imediata de ambos os lados. Pouco tempo depois tornaram-se amantes e o Grão-Duque, seguindo a lei, escreveu ao seu irmão Nicolau para lhe pedir permissão para se casar com ela.


A família real britânica tinha o seu desdém por ver os seus membros casar com pessoas divorciadas, mas os princípios dos Romanov eram ainda mais complexos. De acordo com as leis Paulinas, os membros da Família Imperial estavam proibidos de contrair “matrimónios desiguais.” Assim, os membros da família eram obrigados a unir-se com outras famílias reais ou aristocráticas que fossem aprovadas pelo Czar. Durante o reinado de Nicolau II, a grande maioria dos casamentos “escandalosos” envolveram uniões entre membros da família com cidadãos russos fora da aristocracia. Por exemplo, a sua irmã mais nova, Olga Alexandrovna, casou-se com um coronel muito respeitável, mas sem qualquer ligação à aristocracia. Por isso a oposição da família ao casamento de Miguel com Natalia não se deveu tanto à sua falta de origens aristocráticas, mas sim ao facto de esta ser divorciada.

 

Nataslia e Miguel durante o exilio

 

Nicolau não aceitou o casamento e deixou-o bem claro quando enviou o seu irmão para um posto de comando afastado em Orel. Natalia foi enviada para umas longas “férias” pela Europa. Os amantes trocaram vários telegramas e cartas e, finalmente, não conseguiram manter-se afastados. Viveram juntos sem se casarem durante vários anos. Em 1910, Natalia deu à luz o único filho do casal, Jorge, que recebeu o nome em honra do irmão mais velho de Miguel. Apenas dois eventos interromperam o silêncio entre Nicolau e Miguel: a grave crise de hemofilia de Alexis na Polónia em 1912 e a Primeira Guerra Mundial.

 

Natalia e Miguel com o seu filho Jorge

 

Quando Miguel recebeu a notícia da gravidade do estado de saúde de Alexis na casa de férias da família em Spala, na Polónia, entrou em pânico. Ele e Natalia tinham vivido como vagabundos imperiais, viajando pela Europa com o seu filho bebé. Contudo, se Alexis morresse, Miguel tornar-se-ia novamente herdeiro ao trono e não queria sê-lo sem Natalia a seu lado como esposa legítima. Com a falta de saúde do sobrinho e o fim aparente de gestações de Alexandra, Miguel temia que o facto de ainda não ainda não se ter casado com Natalia fosse utilizado para o atirar para um casamento imperial com outra mulher, por isso, durante a crise, casou-se com a sua companheira em Viena, numa Igreja Ortodoxa Sérvia. Fê-lo para que o seu irmão Nicolau ou a Igreja Ortodoxa Russa não pudessem afastar Natalia que recebera agora o apelido de Romanov.

 

 

A atitude de desafio de Miguel em relação à sua família pode ser comparada ao que o seu primo Eduardo VIII faria anos mais tarde com Wallis Simpson, uma divorciada americana que o levaria a abdicar do trono de Inglaterra. Para os românticos o amor que unia Miguel e Natalia pode ser inspirador, mas para Nicolau II, este acto foi visto como traição que deixou o Czar zangado e devastado, principalmente devido ao facto de o irmão ter escolhido uma altura tão complicada como era a possível morte do herdeiro ao trono. A zanga entre os dois irmãos intensificou-se e não seria resolvida até ao rebentar da I Guerra Mundial dois anos mais tarde.

 

Miguel e Nicolau em 1903

 

Nicolau não pediu a ajuda de Miguel imediatamente após o rebentar do conflito em Agosto de 1914. Foi o melhor amigo de Miguel, o General Ivan Ivanovich, que se colocou entre os dois irmãos e intercedeu por Miguel, sugerindo que ele deveria ser nomeado comandante da “Divisão Selvagem.”

 

A “Divisão Selvagem” era uma unidade composta apenas por soldados voluntários, composta por seis regimentos de Muçulmanos provenientes da região do Cáucaso. Miguel era uma escolha popular entre os combatentes desta unidade onde quase todos guardavam uma fotografia do Grão-Duque no uniforme.

 

Miguel durante a I Guerra Mundial

 

Natalia fundou vários hospitais por toda a cidade de Petogrado (como era chamada São Petersburgo na altura) e até transformou o Palácio de Gatchina num pólo da Cruz Vermelha Dinamarquesa que também serviu de refúgio após a Revolução. Também durante a sua estadia na Rússia recebeu finalmente o título de Condensa Brassova, juntamente com o seu filho que recebeu o título de Conde Brassov.  Apesar de muitos dos membros da família a receberem, incluindo a mãe e irmãs de Miguel, a Condensa nunca foi convidada por Nicolau e Alexandra. Contudo, de acordo com os relatos da época, ela achava suficiente que a tratassem pela “mulher do Grão-Duque” e aceitava o desdém de outros membros dos Romanov com dignidade. Enquanto Misha estivesse vivo, ela estava feliz. Como anfitriã, entretinha frequentemente membros da Duma Imperial.

 

Natalia e Miguel durante a I Guerra Mundial

 

Miguel provou ser um corajoso comandante da sua “Divisão Selvagem”. É interessante que, enquanto grande parte do exército se tenha revoltado e dispersado após a Revolução, esta divisão manteve a sua disciplina e objectivo, sendo que apenas se separou em 1920 depois de ter combatido ao lado do Exercito Branco, altura em que foram evacuados para Constantinopla com o General Wrangel. Alguns dos seus descendentes podem muito bem ser rebeldes combatentes na Chechénia, uma vez que muitos dos membros da unidade provinham dessa região.


Não existem provas de que o Grão-Duque Miguel tenha participado em qualquer conspiração, nomeadamente as dos Grão-Duques entre 1916-1917 e acredita-se que, apesar de tudo, se manteve leal ao seu irmão até ao último momento. Ele foi apanhado de surpresa, tal como o resto do mundo, quando Nicolau abdicou por si e pelo seu filho no dia 3 de Março de 1917. A dinastia Romanov que começara em 1613 com o Czar Miguel, acabaria agora com Miguel Alexandrovich.

 

Miguel Alexandrovich em Gatchina

 

Alguns historiadores consideram Miguel o último Czar da Rússia. O que não deixa qualquer dúvida é que ele foi nomeado oficialmente como sucessor de Nicolau e, se as coisas tivessem sido diferentes, poderia mesmo ter chegado a Czar. Contudo, ele herdou uma situação que, a cada hora que passava, se ia descontrolando cada vez mais, fugindo ao seu controlo ou de alguém. Alexandre Kerensky e outros líderes da Duma deixaram bem claro que não poderiam garantir a sua segurança se ele decidisse assumir o poder. Seria um Czar sem corte nem apoiantes.

 

retrato oficial de Miguel Alexandrovich

 

O manifesto de Miguel, datado do dia 3 de Março de 1917, é um documento de grande importância devido à importância que teve para a família Romanov que, pela primeira vez, escolheu não usar violência para manter o seu poder. Miguel repudiava o uso da força para assegurar a coroa e esse filosofia mantêm-se até hoje entre os descendentes da família nomeadamente quanto a uma possível restauração da monarquis. O seu manifesto dizia:


 

 “Um pesado fardo foi-me entregue pela vontade do meu irmão que, numa altura de luta descontrolada e tumulto popular decidiu transferir-me o trono imperial da Rússia. Partilho com o povo a ideia de que o bem do país se deve elevar acima de qualquer outra coisa e decidi firmemente que apenas aceitarei o poder se essa for a vontade do nosso grande povo, que tem, através do sufrágio universal, de eleger os seus representantes para a Assembleia Constituinte, para assim determinar a forma de governo e as novas leis fundamentais da Rússia. Por isso, pedindo a bênção de Deus, peço a todos os cidadãos da Rússia que obedeçam ao Governo Provisório, que subiu ao poder e tem autoridade plena na iniciativa da Duma Imperial até que chegue a altura certa para uma Assembleia Constituinte, convocada o mais cedo possível e eleita de acordo com os princípios do sufrágio universal, directo, igual e secreto, para que se dê voz ao povo para escolher a sua forma de governo.  

 


Neste documento, Miguel nem aceita, nem rejeita a coroa. Claramente não se trata de uma abdicação, como alguns afirmaram. Em vez disso, Miguel inicia um novo rumo que defendia já antes da queda de Nicolau, para que se formasse um governo representativo. Ele governaria como um monarca constitucional, ou então, se o povo assim o decidisse, nem sequer subiria ao trono. Miguel manteria o contacto com Kerensky até à subida ao poder dos bolcheviques após a Revolução de Outubro de 1917. As eleições que Miguel convocara chegaram a realizar-se, mas a Assembleia Constituinte acabou por ser dissolvida pelos bolcheviques.

Miguel  era uma visita frequente do Palácio de Alexandre depois de regressar à Rússia. A sua última visita ocorreu no dia 31 de Julho de 1917 quando lhe foi dada permissão pelo líder do Governo Provisório, Alexandre Kerensky, para visitar o seu irmão mais velho, Nicolau II, antes de a Família Imperial ser enviada para o exílio em Tobolsk. Essa foi também a última vez que se viram.

 

Miguel Alexandrovich no Palácio de Alexandre em 1917

 

Miguel ajudou Kerensky a sair da Rússia após a Revolução de Outubro, obtendo um passaporte dinamarquês através das suas ligações familiares. Os Dinamarqueses ainda ocupavam Gatchina e ofereceram à família e amigos de Miguel uma pequena sensação de segurança. Kerensky conseguiu chegar ao Ocidente e viveu nos Estados Unidos até à sua morte em 1964.

 

Jorge, o filho de Miguel, também saiu da Rússia graças a um passaporte dinamarquês. Viveu em Paris até à sua morte aos 21 anos devido a um acidente de carro. Não tinha filhos, por isso hoje não existem descendentes directos de Miguel.

 

Natalia, a sua esposa, foi presa durante algum tempo depois da revolução com o seu marido Miguel. Boris Savinkov, o assassino que planeou o assassinato do Grão-Duque Sergei Alexandrovich em 1905, era o responsável pelo casal. Nicolau e Alexandra souberam da detenção de Miguel e Natalia quando estavam exilados em Tobolsk. Todos os preconceitos sobre o casamento impróprio de Misha tinham já desaparecido e Nicolau ficou terrivelmente preocupado com o seu irmão e cunhada.

 

Miguel e Natalia Romanov foram preses pelo governo de Lenine após a revolução de Outubro

 

Miguel, sempre um marido devote, ordenou que a sua mulher abandonasse a Rússia de qualquer forma possível depois de receber a ordem de exílio para os Montes Urais na Primavera de 1918. Assim que foi libertada, Natalia obedeceu ao marido e, tal como o seu filho, abandonou o país com um passaporte dinamarquês que a identificava como enfermeira da Cruz Vermelha. Viveu uma vida tranquila em Londres durante alguns anos. Em 1931 o seu filho Jorge morreu e, apenas em 1932, descobriu o que tinha acontecido ao seu marido em Junho de 1918. Nos seus últimos anos de vida, Natalia tinha perdido grande parte da sua fortuna e recebia ajudas financeiras dos Romanov e outras famílias reais. Curiosamente a única ajuda financeira que realmente a ajudava veio do seu primo por casamento, o Príncipe Felix Yussopov. A filha de Natalia do seu primeiro casamento também conseguiu fugir da Rússia, casou-se, e teve uma filha, Pauline Grey que escreveu o livro “The Grand Duke’s Woman.” Quando morreu, sozinha e esquecida em 1952, era esse o seu título preferido.

 

 

Muitos dos Romanov que permaneceram na Rússia, além dos que se refugiavam na Crimeia, foram enviados para os Montes Urais durante a Primavera de 1918. A todos eles foi assegurada segurança e liberdade pelos bolcheviques. Como a história já nos mostrou, os bolcheviques tinham uma ideia bastante curiosa sobre o que representava “segurança”. A Grã-Duquesa Ella foi dada como desaparecida pelo governo quando eles a tentavam enviar para um “local seguro” e disseram que Alexandra, Alexis e irmãs estavam num local seguro após o assassinato de Nicolau. Todos foram exterminados cruelmente.

 

Miguel gostou da relativa liberdade durante muitas semanas e sentia-se aliviado por Natalia e o filho terem escapado.

 

Miguel Alexandrovich em 1915

 

Na noite de 11 de Junho de 1918, um grupo de bolcheviques entrou de rompante no quarto de hotel de Miguel e ordenaram-lhe que se preparasse para ser transferido para um local seguro. Quando ele protestou e tentou telefonar ao líder do Partido Bolchevique local que lhe tinha prometido a sua liberdade as linhas foram cortadas. Ele vestiu-se, foi puxado pelo colarinho e atirado para dentro de um carro juntamente com o seu secretário, o britânico Brian Johnson.

 

Os dois homens conduziram-no para for a da cidade de Perm, onde tinha permanecido em exilio, até uma área de floresta. Ambos foram mortos a tiro pelo grupo. Um relatório indica que Miguel, depois de estar ferido, correu em direcção ao seu amigo com os braços abertos, apenas para ser morto com um tiro no peito. Um dos assassinos usou o relógio de Johnson durante vários anos como recordação.

 

Os corpos de Miguel Romanov e de Brian Johnson nunca foram encontrados. As suas mortes foram apenas o princípio de uma série de assassinatos de membros da família Romanov que aconteceu entre Junho de 1918 e Janeiro de 1919. Ao todo, 18 membros da família foram mortos durante este período.

 

Miguel foi assassinado com 39 anos de idade

música: Jeff Buckley - Hallelujah

publicado por tuga9890 às 11:38
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Quinta-feira, 31 de Julho de 2008

Pretendentes - Anna Anderson

 

Anastasia Manahan, mais conhecida como Anna Anderson, nascida no dia 22 de Dezembro de 1896, foi a mais famosa entre as várias pretendentes que, durante o século XX afirmaram ser a Grã-Duquesa Anastasia.

A maioria dos historiadores concorda que Anderson era realmente Franziska Shankowska, uma operária polaca. Logo durante os anos 20 esta versão tinha sido defendida por um detective privado e foi, durante os anos 90 confirmada por análises de ADN que a ligaram à família Schanzkowski e não à Romanov.

 

Franziska Schanzkowska

 

As declarações de Anna Anderson causaram controvérsia desde o inicio, em parte devido ao período conturbado que se seguiu à Revolução Russa e também devido às histórias contraditórias sobre o destino da família imperial que saiam da Rússia. Toda a família, incluindo Anastasia de 17 anos, tinha sido assassinada e as suas mortes verificadas e confirmadas por várias testemunhas. Yakov Yurovsky, a Checa e os comissários que chefiaram a execução garantiram que toda a família, incluindo Anastasia, estava morta. Nos anos que se seguiram à morte da família, apareceram também relatos que indicavam que um ou mais membros poderiam ter sobrevivido. Um desses relatos veio de Franz Syboda que vivia em frente da Casa Ipatiev e afirmou ter visto Anastasia ferida depois do assassinato da restante família. Contudo não existem provas que suportem estas afirmações a não ser o seu testemunho no tribunal. Thomas Hildebrand Preston, o Cônsul-Geral britânico em Ekaterinburgo em 1918, afirmou que o relato de Syboda era completamente falso.

 

Anastasia em 1917

 

A primeira declaração por parte de Anna Anderson afirmando ser a Grã-Duquesa Anastasia aconteceu depois da sua tentativa de suicídio falhada em Berlim em 1920, no entanto esta apenas se tornaria famosa em 1922. Mais tarde, ela explicou que tinha ido de comboio e caminhado por toda a cidade de Berlim para procurar a sua “tia”, a Princesa Irene, irmã da Czarina Alexandra. Assim que chegou ao palácio, ela disse ter medo que ninguém a reconhecesse ou, pior, descobrisse que tinha tido um filho fora do casamento. Com vergonha, ela tentou suicidar-se saltando de uma ponte para as águas gélidas do Canal de Landwehr.

A Grã-Duquesa Olga Alexandrovna, irmã do czar Nicolau II, comentou que a tentativa de suicídio “é provavelmente o único facto incontestável da história”.

 

Anna Anderson em 1920

 

Anderson foi resgatada por um guarda que estava de passagem e foi imediatamente internada num asilo em Dalldorf. De acordo com os seus médicos, a jovem mulher tinha meia-dúzia de feridas de bala e cortes, incluindo uma grande cicatriz atrás da orelha. Os médicos acreditavam que fora este ferimento que originara a sua falta de memória inicial. Os médicos também afirmaram que aquela mulher se tratava provavelmente de uma “refugiada Russa” devido ao seu sotaque de leste europeu. Também notada foi uma cicatriz em forma de triângulo no seu pé. Devido ao facto de ela raramente falar e se recusar a dar qualquer informação sobre si, as enfermeiras deram-lhe a alcunha de Fräulein Unbekannt (Senhora Desconhecida). Contudo ela confessou à enfermeira Thea Malinovsky em 1921 que era a Grã-Duquesa Anastasia. Anderson permaneceu no asilo durante dois anos até que Clara Peuthert, uma das outras pacientes, a reconheceu como sendo a Grã-Duquesa Tatiana, baseando-se em fotografias das Grã-Duquesas que vira numa revista.

 

Grã-Duquesa Tatiana em 1917

 

A Baronesa Sophie Buxhoeveden, uma antiga dama-de-companhia da Czarina Alexandra, foi a primeira a visitor o asilo para determiner se as declarações de Anderson tinham fundamento. Quando chegou, a baronesa tirou Anna Anderson da cama e disse que ela era “demasiado baixa para ser a Tatiana”. Abandonou o local acreditando que tudo não passava de uma farsa e nunca mudou de opinião. Mais tarde Anderson afirmou que nunca disse ser Tatiana, mas sim Anastasia.

 

Anna Anderson durante a sua estadia num asilo de Berlim

 

Depois deste episódio, seguiu-se uma série de eventos que mudariam a vida de Anderson para sempre. A Senhora Desconhecida passou a apelidar-se a si mesma Anastasia Tschaikovsky (ela confessou ás pessoas mais próximas que o seu último nome se devia ao soldado russo que a tinha salvo, casado com ela e, eventualmente, lhe tinha dado um filho e que se chamava Alexandre Tschaikovsky) e dizia ter sobrevivido ao massacre na cave da Casa Ipatiev que tinha morto a restante família. Ela contou que, quando o assassínio começou, desmaiou e, depois de cair ao chão, foi protegida das balas pelo corpo da sua irmã Tatiana. O desconhecido Tschaikovsky e o seu irmão, supostamente um dos membros do esquadrão que matou a família, repararam que ela ainda estava viva por entre os cadáveres depois da execução e conseguiram retirá-la do edifício e passar pelos guardas armados. Depois do salvamento, ela foi supostamente levada para Bucareste por Alexandre, pelo seu irmão Serge, pela sua irmã Verónica e pela sua mãe. Ela disse ter tido um filho com Alexandre e ambos se casaram em Bucareste. Foi aí, de acordo com as suas declarações, que o seu marido foi morto durante um motim de rua. De acordo com Greg King e Penny Wilson, autores do livro “Fate Of The Romanovs”, é agora possível nomear com exactidão os 10 homens que dispararam contra a família em Julho de 1918 na Casa Ipatiev. Nenhum deles se chamava Tschaikovsky, como garantia Anna Anderson e não existe qualquer prova que apoie as suas afirmações. Outros mantinham-se cépticos em relação às suas declarações devido ao facto desta nunca ter tentado contactar a prima directa da sua mãe, a rainha Maria da Roménia, durante a sua suposta estadia em Bucareste.

Sobre Anna Anderson, a tia de Anastasia, Grã-Duquesa Olga Alexandrovna, disse:

“Em 1918 ou 1919, a Rainha Maria teria reconhecido a Anastasia imediatamente… a Maria nunca se teria chocado com nada, e uma sobrinha minha saberia disso… A minha sobrinha saberia que a sua condição teria, de facto, chocado a Princesa Irene.”

 

Depois de ter recebido alta do asilo em Berlim, Anderson recebeu abrigo por parte do barão Von Kleist, um imigrante russo que acreditava nela, contudo Anderson sentiu que estava a ser utilizada por ele como um artigo em exposição e por isso fugiu e foi levada pelo inspector Grünberg.

 

 

Enquanto Anderson estava com o Inspector Grünberg, a irmã da Imperatriz Alexandra, a Princesa Irene de Hesse e Rhine, foi visitar a sua suposta sobrinha sem revelar quem era. Irene não a reconheceu como fazendo parte da sua família. Mais tarde o seu filho, o Príncipe Sigismund, enviou uma lista de perguntas que dizia apenas a verdadeira Anastasia saber responder. Diz-se que Anderson respondeu a todas correctamente. Contudo Irene não ficou impressionada.

“Vi imediatamente que ela não podia ser uma das minhas sobrinhas. Mesmo sem as ver durante 9 anos, as características faciais fundamentais não se poderiam ter alterado tanto, particularmente a posição dos olhos, as orelhas, etc… Num primeiro olhar, qualquer um poderia talvez detectar uma vaga semelhança com a Tatiana.”

Durante o jantar, a pretendente, segundo testemunhas, tinha simplesmente abandonado a mesa e ido para o seu quarto. Mais tarde Anderson afirmou que o facto de o ter feito não se deveu a pressão, mas sim por se sentir enganada: ninguém lhe tinha dito que a sua suposta tia estaria entre os convidados. A Grã-Duquesa Olga Alexandrovna comentou sobre a visita da Princesa Irene:

“Foi uma reunião pouco satisfatória, mas os apoiantes da mulher disseram que a Princesa Irene não conhecia muito bem as sobrinhas e tudo isso.”

 

A Princesa Irene

 

Em 1925, Anderson ganhou uma infecção no braço e foi novamente internada no hospital. Doente e perto da morte, ela perdeu muito peso. Foi durante este período que a Grã-Duquesa Olga Alexandrovna, irmã mais nova do Czar Nicolau II que tinha sobrevivido à revolução e vivia na Dinamarca viajou até Berlim para ver a mulher que dizia ser sua sobrinha. Ela passou vários dias com a paciente e ambas trocaram correspondência durante algum tempo. A escritora e ilustradora Harriet von Rathlef (autora de uma série de artigos intitulados “Anastasia, A Woman’s Fate as a Mirror of the World Catastrophe” publicados num jornal de Berlim em 1928), sugeriu que a Grã-Duquesa Olga Alexandrovna teve duvidas em relação ao facto de Anna Anderson ser uma fraude, assim como Pierre Gilliard e a sua esposa Alexandra Tegleva que tinha sido uma das amas de Anastasia. Contudo, de acordo com o Doutor Sergei Rudnev que estava a tratar de Anderson na altura, disse que Gilliard nunca tratou a jovem mulher por “Vossa Imperial Alteza” como Rathlef tinha defendido e acrescentou que era impossível a mulher que estava no hospital ser uma Grã-Duquesa. O facto de ela não saber falar nem escrever Russo, Inglês e Francês foi prova suficiente para Gilliard de que Anderson era uma impostora. O antigo tutor comentou sobre ela:

 

“A paciente tinha um nariz longo, muito levantado na ponta, uma boca enorme e lábios grossos; a Grã-Duquesa, pelo contrário, tinha um nariz pequeno e afiado, uma boca muito mais pequena e lábios finos. Retirando a cor dos olhos, não conseguimos encontrar nada que nos fizesse acreditar que esta era a Grã-Duquesa.”

 

 

Tanto a Grã-Duquesa Olga como Gilliard declararam mais tarde que sempre souberam que ela era uma fraude. Gilliard chegou mesmo a acusar Anderson de ser “uma psicopata golpista”. A irmã do Czar salientou também o facto de Anna Anderson parecer odiar Gilliard quando a sua sobrinha Anastasia tinha sido totalmente devota ao seu tutor. No entanto a Grã-Duquesa Olga sentia pena de Anderson e enviava-lhe pequenos presentes como pequenos álbuns de fotografias e xailes de lã. Sobre as suas acções, a Grã-Duquesa confessou numa carta:

 

“Fiz isto por pena. Não fazes ideia o quanto ela parecia desolada.”

 

De acordo com Coryne Hall, autor de “Little Mother of Russia”, Olga teve várias conversas sobre Anderson com a sua mãe, a Imperatriz Maria Feodorovna. O que foi dito, ninguém sabe, mas a Imperatriz deixou bem claro que não estava interessada e estava furiosa com a sua filha por ter ido até Berlim para se encontrar com ela.

 

“O que achas? exclamou ela, “Que eu ficaria aqui sentada e não correria para o lado da minha neta se soubesse que estava viva?

 

 

Na biografia autorizada de Olga, “The Last Grand Duchess” de Ian Vorres, a sua versão da história é contada:

 

“Quando Olga entrou no quarto, a mulher deitada na cama perguntou à enfermeira: “Ist das die Tant? [É esta a minha tia?]. “Isso”, confessou Olga, “afectou-me um pouco. Um pouco mais tarde lembrei-me que aquela mulher vivia na Alemanha há 5 anos e por isso seria natural que tivesse aprendido a língua, mas depois também me lembrei que quando a tiraram do canal em 1920, ela apenas falava alemão e isso era raro acontecer. As minhas sobrinhas não sabiam uma palavra de Alemão. A Senhora Anderson não parecia compreender uma única palavra de russo ou inglês, as duas línguas que as quatro irmãs tinham falado desde a infância. O francês veio um pouco mais tarde, mas nunca se falou alemão na família.”

 

Olga continuou,

 

“A minha adorada Anastasia tinha 15 anos quando a vi pela última vez no Verão de 1916. Ela teria 24 anos em 1925. Achei que a Senhora Anderson parecia muito mais velha do que isso. Claro que as condições de vida e de saúde prolongadas durante muito tempo poderiam ter ajudado. Mas mesmo assim as feições da minha sobrinha não se poderiam ter alterado para além de todo o reconhecimento. O nariz, a boca, os olhos, tudo era diferente.”

 

A Grã-Duquesa Olga Alexandrovna salientou que as entrevistas se tornaram mais difíceis devido à atitude de Anderson. Ela recusava-se a responder a algumas perguntas e parecia zangada por estas serem feitas. Algumas fotografias dos Romanov foram-lhe apresentadas e, em algumas, ela não conseguiu reconhecer ninguém. Mais tarde a Grã-Duquesa Olga mostrou-lhe um pequeno ícone de São Nicolau, padroeiro da família imperial, mas Anderson tratou-o com indiferença, mostrando que aquilo não significava nada para ela.

 

“Aquela criança era como uma filha para mim. Assim que me sentei ao lado da cama do hospital soube que estava a olhar para uma estranha. Tinha deixado a Dinamarca com alguma esperança no coração, mas deixei Berlim com toda essa esperança extinta.”

Olga Alexandrovna ofereceu uma explicação e clarificação de uma das famosas “memórias” de Anderson:

 

“Os erros que ela cometia não poderiam de todo ser atribuídos a lapsos de memória. Por exemplo, ela tinha uma cicatriz num dedo e insistia perante toda a gente que ela tinha sido esmagado devido a um cocheiro que tinha fechado a porta da carruagem demasiado depressa. E então eu finalmente lembrei-me do incidente. Foi a irmã dela, Maria, que magoou bastante a mão e isso não aconteceu numa carruagem, mas sim no comboio imperial. Obviamente alguém, tendo ouvido algo sobre o acidente, tinha treinado a Senhora Anderson para contar uma versão distorcida.”

 

Olga Alexandrovna com as suas sobrinhas Tatiana e Olga

 

O Príncipe Cristóvão da Grécia comentou sobre a visita da sua prima Olga Alexandrovna a Anna Anderson,

 

“Mesmo quando a Grã-Duquesa Olga, a tia favorita dos filhos do Czar, foi levada para a ver, ela não mostrou qualquer sinal de a reconhecer e não se conseguia lembrar do nome do cão que sempre fora conhecido na família.”

 

Outro tutor imperial, Charles Sydney Gibbes, conheceu Anderson muito mais tarde em Paris e também a denunciou. Tinha a certeza de que era uma fraude, afirmando que “se aquela é a Grã-Duquesa Anastasia, então eu sou um chinês.” Mais tarde, Gibbes colocou a sua opinião de uma forma mais formal:

 

“Ela não se parece nem um pouco com a verdadeira Grã-Duquesa Anastasia que eu conheci. Estou bastante satisfeito que seja uma impostora.”

 

É curioso que Anna Vyruboya, uma amiga próxima e confidente da Czarina Alexandra nunca foi questionada sobre Anderson. Foi mencionado por Tatiana Botkin que, tendo sido ela uma “seguidora de Rasputin”, a sua associação com o monge não seria bem recebida, no entanto a razão mais provável prender-se-ia com o facto de ela se ter tornado uma freira Ortodoxa, logo o seu testemunho seria mais difícil de ser levado a sério pelos defensores de Anna Anderson, mesmo apesar de Vyruboya ser aquela que mais facilmente teria descoberto a fraude.

 

Outras pessoas que conheciam bem a jovem Anastasia como a ama de infância, Alexandra Tegleva não reconheceram Anna Anderson. Tegleva, acompanhada pelo seu marido, Gilliard, visitou-a em 1925 e confirmou que o defeito no pé era idêntico ao da Grã-Duquesa. “Ela tem, de certa forma, o corpo parecido com o de Anastasia”, declarou ela. Anderson perguntou a Shura para lhe esfregar a testa com perfume, um ritual que ela se lembrava partilhar com Anastasia durante a sua infância quando ela queria que a sua ama “cheirasse como uma flor”. Shura, como muitos outros, nunca apoiou oficialmente Anderson. Contudo, a amiga da Imperatriz, Lili Dehn chegou a identificá-la como Anastasia.

 

A antiga princesa alemã, Cecília também a visitou em 1925 e comentou:

 

“Era virtualmente impossível comunicar com esta pessoa. Ela permaneceu completamente calada e isso não se devia nem à sua persistência nem ao facto de estar completamente confusa.”

 

O Príncipe Cristóvão da Grécia, primo directo de Nicolau II, escreveu sobre ela nas suas memórias:

 

“Dezenas de pessoas que tinham conhecido a Grã-Duquesa Anastasia foram levadas para ver a rapariga na esperança de que a pudessem identificar, mas nenhum deles conseguiu chegar a qualquer conclusão definitiva. A pobre rapariga era uma figura patética na sua solidão e fraca saúde e era mais do que compreensível que muitos dos que a conheciam deixassem a sua pena sobrepor-se à sua lógica de pensamento. Mas ao mesmo tempo havia muito poucas provas ou substância na sua história. Ela era incapaz de reconhecer pessoas com quem a Grã-Duquesa Anastasia se tinha relacionado intimamente.”

 

 

Gleb Botkin e a sua irmã Tatiana Botikina, sobrinho e sobrinha de Serge Botkin, que era na altura chefe da sociedade de emigração russa em Berlim e filho e filha do médico particular da família, o Doutor Eugene Botkin e que foi morto juntamente com os Romanov na Casa Ipatiev em 1918, foram dois dos maiores apoiantes de Anna Anderson. Gleb e Tatiana Botkin passaram grande parte da sua infância e adolescência perto da família imperial. O tio de Gleb e Tatiana, como presidente dos exilados russos na Alemanha veio em defesa de Anderson. Tem havido muita especulação sobre o facto de terem sido os Botkins que fabricaram toda a história de Anna Anderson, ajudando-a com as memórias em troca de fama e lucro. Ambos os irmãos escreveram livros sobre Anderson. Outros, incluindo Peter Kurth, autor de “Anastasia: The Riddle Of Anna Anderson” acreditam que os Botkins eram sinceros nas suas crenças em relação a Anderson. Frances Welch, autor do livro “A Romanov Fantasy: Life at the Court of Anna Anderson” descreve os Botkins como genuinos, no entanto enganados pela sua esperança/crença de Anna Anderson era a sua perdida companheira Anastasia.

 

Gleb Botkin nos anos 60

 

O Doutor Von Berenberg-Gossler, advogado de acusação no julgamento de Anderson nos anos 50, acredita que, apesar de o desejo dos emigrantes russos de encontrar a sua Grã-Duquesa viva ter tido uma grande importância para o caso, a principal motivação por detrás da luta de Anderson era o dinheiro: a suposta fortuna perdida do czar estava avaliada em 80 milhões de dólares.

 

“Penso que foi no inicio dos anos 30 que uma empresa (Grandanor) apareceu”, diz ele, “e vendia certificados em proporção aos rublos de ouro do Czar, alegadamente guardados no Banco de Inglaterra e tinha a intenção de os tornar válidos no caso de Anderson “herdar” os seus fundos. Estes papéis não valiam nada. Serviram apenas para fazer a empresa enriquecer.”

 

Gleb Botkin conheceu Anna Anderson em Maio de 1927 e declarou imediatamente que ela era Anastasia. Mais tarde decidiu levá-la com ele para Nova Iorque onde escreveu artigos sobre Anderson que vendeu a vários jornais. Num esforço para atrair atenção para Anderson, Botkin atacou as irmãs de Nicolau II em particular e a família Romanov em geral.

 

Apesar de não ter havido nenhuma declaração por parte da família em relação às declarações de Anderson, a saga continuou. Os Romanov acreditavam que Gleb Botkin e os seus cúmplices procuravam dinheiro que não possuíam. A Grã-Duquesa Olga Alexandrovna comentou:

 

“A minha opinião é que tudo isto começou com algumas pessoas sem escrúpulos que pensaram conseguir ganhar pelo menos uma parte na fabulosa fortuna Romanov que, na verdade, não existe.”

 

A opinião de Olga era apoiada pelo facto de a Imperatriz Maria Feodorovna depender de uma pequena pensão que recebia do seu sobrinho, o rei Jorge V e da sua irmã Xenia viver numa casa que conseguira graças à bondade do rei de Inglaterra. Eles acreditavam que os Botkins queriam usar o dinheiro para os seus próprios projectos e apenas usavam Anna Anderson como um fantoche. A Grã-Duquesa Olga Alexandrovna comentou:

 

“Os rumores mais maliciosos sobre aquela “fortuna” começaram a aparecer pouco depois da Senhora Anderson aparecer em Berlim em 1920. Ouvi dizer que tudo tomou figuras astronómicas. Era tudo fantástico e terrivelmente vulgar. A minha mãe teria aceitado uma pensão do rei Jorge V se tivéssemos dinheiro em Inglaterra? Nada disto faz sentido para mim.”

 

O Grão-Duque André Vladmirovich, primo de Nicolau II que teve algum contacto com Anastasia antes da revolução, encontrou-se com Anderson em 1928 antes de ela partir para Nova Iorque com Botkin. Ele escreveu à sua prima Olga:

 

“Para mim não existem dúvidas; ela é a Anastasia.”

 

Anna Anderson em 1927

 

Pouco depois de Gleb Botkin escrever a sua famosa carta, o Grão-Duque André escreveu a Tatiana Botkin:

 

“Ele tem a noção do que fez? Ele arruinou tudo!”

 

Tatiana Botkin escreveu,

 

“O Grão-Duque André também salientou que o caso se está a começar a transformar numa intriga pela fortuna do Czar (…) Isto irrita profundamente o Grão-Duque e ele não deseja ver o seu nome envolvido.”

 

O Principe Felix Yussopov, marido da Princesa Irina da Rússia, filha da Grã-Duquesa Xenia, escreveu ao Grão-Duque André sobre Anna Anderson,

 

“Digo categoricamente que ela não é a Anastasia Nikolaevna, mas apenas uma actriz aventurosa, doente, histérica e assustada. Simplesmente não consigo compreender como pode alguém duvidar disto. Se tu a tivesses visto estou convencido de que ficarias horrorizado com o pensamento de que aquela criatura assustadora poderia ser filha do nosso Czar. Estas fingidoras têm de ser reunidas e enviadas para um lugar bem longe.”

 

A antiga empregada do Czar, casada com o Grão-Duque André depois da revolução, Mathilde Kschessinska conheceu Anna Anderson no final da sua vida por curiosidade.

 

Algumas pessoas (neste caso o Capitão Felix Dassel) questionava-a com afirmações enganosas como “A sala do bilhar ficava no segundo andar” e Anderson respondia, “Não te lembras de nada. O bilhar estava no primeiro andar.” O Príncipe Cristóvão da Grécia comentou sobre o suposto conhecimento de Anderson em relação às residências imperiais que Anastasia conhecia extremamente bem:

 

“As descrições dos quartos em diferentes palácios e outros lugares familiares a qualquer um dos membros da família imperial eram frequentemente incorrectos.”

 

Felix Yussopov, a sua esposa Irina e a filha de ambos

 

Ernesto Ludwig, irmão da Czarina Alexandra, contratou um detective privado, Martin Knopf, para investigar o passado obscuro de Anna Anderson. Acreditava-se que Anderson era a operária desaparecida chamada Franziska Schankowski, que tinha sido ferida por deixar cair uma granada na fábrica de munições onde trabalhava. Anderson dizia que os seus ferimentos eram o resultado da execução.


Para ver se esta história era verdadeira, o embaixador dinamarquês Zahle, um grande apoiante de Anna Anderson (a Grã-Duquesa Olga Alexandrovna comentou sobre Zahle: “Ele nunca conheceu a minha sobrinha, mas era uma espécie de intelectual e toda a história parecia-lhe o maior puzzle histórico do século e ele estava determinado a resolvê-lo”) e outra grande apoiante, Harriet von Rathlef, arranjaram um encontro entre Anderson e o irmão de Franziska Schankowski, Felix. Quando Felix viu Anderson e lhe perguntaram quem ela era, ele respondeu, “Esta é a minha irmã Franziska”. Apenas quando lhes foi permitido que falassem em separado é que Felix, depois de lhe pedirem que assinasse um documento que provava as suas declarações, sem explicar porquê, mudou de ideias. “Não vou assinar isso. Aquela não é defenitivamente a minha irmã.” Depois apontou várias diferenças entre aquela mulher e a sua irmã. Nesse mesmo ano Anderson encontrou-se com outros membros da família Schankowski. Gertude Schankowski levantou-se da mesa e gritou:


“Tu és a minha irmã! És a minha irmã! Eu sei que és! Deves-me reconhecer!”

Mais tarde o seu irmão Felix disse à sua filha:


“Deixámo-la em paz para a “carreira” dela como Anastasia.”

 

 

 

Em 1938, o advogado de Anderson iniciou um processo nos tribunais alemães para reclamar uma herança aos parentes europeus da Imperatriz Alexandra que tinham declarado toda a família morta. Os advogados de Anderson declararam que a Grã-Duquesa Anastasia ainda estava viva. Os seus apoiantes lutaram a seu lado pelos seus direitos.

 

Foram chamados especialistas para comparar as feições de Anna Anderson com as de Anastasia. Um especialista, Moritz Furtmayr, declarou que a sua orelha era igual em 17 pontos anatómicos à de Anastasia. A sua escrita foi declarada pela Doutora Minna Becker como sendo idêntica à da Grã-Duquesa. Os argumentos de defesa e acusação foram bem articulados. Os tribunais alemães ouviram um número infinito de especialistas e testemunhas, documentos e fotografias que, de ambos os lados, pareciam provar exactamente o oposto do dia anterior. Os opositores de Anderson incluíam o primo de Anastasia, Lord Mountbatten, sobrinho da Czarina Alexandra e Grão-Duque de Hesse, que lutou até ao exaustação para provar que ela era Franziska Schanzkowska.


Logo em 1928, 24 horas após a morte da Imperatriz Maria Feodorovna, foi assinada uma declaração por 12 membros da família Romanov e 3 da família de Alexandra onde estes deixavam bem claro que não acreditavam nem apoiavam Anna Anderson como sendo a Grã-Duquesa Anastasia. O documento foi apresentado várias vezes durante o julgamento que só seria encerrado em 1970 quando o tribunal decidiu que não podia provar que Anna Anderson era Anastasia nem o contrário.

 

 

 

Nos anos 60, Anderson mudou-se para os Estados Unidos e continuou a viver com amigos até se fartar e se mudar para um hotel. Pouco depois casou-se com um milionário/historiador americano chamado John “Jack” Manahan. Ambos viveram juntos em Charlottesville, Virginia até à morte de Anna Anderson em 1983.

 

Anna Anderson nos seus últimos anos de vida

 

Vários anos após a sua morte, um tecido do seu corpo deixado no hospital de Charlottesville foi utilizado para fazer análises de ADN na mesma altura em que os primeiros corpos da família real apareceram em 1991. Comparando os resultados com o ADN dos Romanov e com o sobrinho-neto de Franziska Schanzkowska chegou-se à conclusão que Anna Anderson não tinha qualquer ligação com a família imperial, mas sim com a família Schanzkowska, encerrando-se assim o mistério que a rodeava.

 

campa de Anna Anderson em Charlottville, Virginia


publicado por tuga9890 às 13:16
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Sábado, 12 de Julho de 2008

Biografia Xenia Alexandrovna

A Grã-Duquesa Xenia da Rússia nasceu às quatro da manhã do dia 6 de Abril de 1875 no Palácio de Anichkov em São Petersburgo. O seu pai era o Imperiador Alexandre III da Rússia e a sua mãe a Imperatriz Maria Feodorovna da Rússia.

 

O seu avô paterno, o Imperador Alexandre II da Rússia ficou encantado com o nascimento da sua nova neta, tal como demonstram as palavras do seu manifesto anunciando o seu nascimento. “No 25º dia do presente mês de Março [a Rússia utilizava um calendário diferente] a nossa adorada nora, Sua Alteza Imperial, a Czarena, esposa de Sua Alteza Imperial, o Czarevitch, trouxe a este mundo uma filha que recebeu o nome de Xenia. Recebemos este novo membro da família com uma nova graça de intervenção divina.”

 

Xenia no colo do pai Alexandre III

 

A pequena Xenia foi baptizada no dia de aniversário do seu avô a 17 de Abril de 1875 na capela do Palácio de Inverno. A pequena Grã-Duquesa usou um vestido de baptizado feito pela sua mãe de algodão e renda. Tinha um babete removível com o símbolo da família Romanov bordado e uma coroa imperial. Os padrinhos de Xenia foram a sua avó paterna, a Imperatriz Maria Alexandrovna da Rússia, o seu avô materno, o Rei Cristiano IX da Dinamarca, o irmão do pai, Grão-Duque Vladimir Alexandrovich e a irmã mais nova da mãe, a Princesa Thyra da Dinamarca (mais tarde Duquesa de Cumberland).

 

Xenia em 1876

 

A tia de Xenia, a Princesa de Gales (mais tarde Rainha Alexandra do Reino Unido) escreveu à mãe da bebé, sua irmã, “Graças a Deus que está tudo acabado e que passaste por tudo bem e que tens uma menina!!! Sofreste muito? Minha pobrezinha Minny – ou tiveste de beber um pouco de Clorofórnio desta vez? Afinal prometeste-me que o farias… Xenia ou lá como se chama a criança, sim é um nome muito bonito, quem se lembrou dele?” A tia de Xenia, Alexandra manteria sempre um grande interesse na sua sobrinha, uma vez que esta nasceu no mesmo dia que o seu filho, o Príncipe John, que morreu 24 horas depois. A prova está na grande quantidade de presentes que lhe enviava de Inglaterra. Alexandra chamava à sua sobrinha Xenie.

 

Xenia com 2 anos de idade

 

Xenia tinha dois irmãos mais velhos, o futuro Imperador Nicolau II e o Grão-Duque Jorge Alexandrovich, bem como dois irmãos mais novos, o Grão-Duque Miguel Alexandrovich (que foi durante um breve período de tempo o Imperador Miguel II da Rússia) e a Grã-Duquesa Olga Alexandrovna. Xenia e os irmãos foram criados de forma simples, principalmente no Palácio de Gatchina. Quando era mais nova, Xenia era uma “maria-rapaz” e muito tímida.

 

Xenia durante a infância

 

Em Fevereiro de 1880, um grupo de niilistas conseguiu entrar no Palácio de Inverno e colocaram uma bomba na sala de jantar da família. A bomba explodiu e causou grandes danos, mas felizmente a família tinha atrasado o jantar e ninguém ficou ferido. O pai de Xenia enviou-a a ela e aos irmãos imediatamente para o Palácio de Yelagin onde estariam em segurança. A mãe de Xenia escreveu à sua mãe na Dinamarca, “As pobres crianças estão felizes por estar fora da cidade e a aproveitar este lugar.”

 



 Tragicamente, no dia 13 de Março de 1881, quando tinha 6 anos, Xenia testemunhou a morte do seu avô Alexandre II que foi assassinado por um revolucionário numa explosão. O seu pai ascendeu ao trono e tornou-se o Czar Alexandre III. O novo Czar não perdeu tempo e mudou toda a família do perigo de São Petersburgo para a segurança e conforto do Palácio de Gatchina. Gatchina era um vasto palácio com torres, muros altos e alta segurança que ficava a 48 quilómetros de São Petersburgo. Antes de se tornar na casa de Alexandre III e da sua família, pertenceu a Paulo I. Alexandre e a família escolheram viver numa das alas do palácio, no andar mezzanino. Infelizmente os seus quartos foram destruídos durante a invasão Nazi da Rússia, O quarto de Xenia era simples, tal como os dos seus irmãos e também ela dormia numa cama amovível. Mas ela tinha um pouco mais de conforto com um quarto de vestir e cadeiras confortáveis.

 

Palácio de Gatchina

 

Xenia, como os seus irmãos, recebeu uma boa educação de tutores privados com especial atenção para a aprendizagem de línguas estrangeiras. Além do Russo nativo, Xenia aprendeu Inglês, Francês e Alemão. Surpreendentemente, Xenia nunca soube falar a língua nativa da mãe, Dinamarquês. Os seus pais eram grandes defensores da utilização construtiva do tempo livre. Xenia divertiu-se enquanto criança aprendendo culinária, trabalhos manuais e como fazer fantoches para os teatros das crianças, incluindo as roupas. Ela também gostava de jogar jogos com os irmãos e também de cavalgar e pescar no lago do palácio. Xenia escreveu, “A mamã e eu fomos ao Admirador [edifício da marinha em São Petersburgo] onde alimentamos patos e depois, levamos um marinheiro e ele pescou connosco. Começamos na Moya e acabamos na ponte grande perto de Menagerie onde fomos para terra e começamos a escolher o ângulo. Foi muito divertido!”

Xenia com a mãe, Maria Feodorovna

 

Xenia também gostava de desenhar, de ginástica e de tocar piano. A Religião também era muito importante. Xenia realizou a sua Primeira Comunhão em 1883. Sobre a ocasião, a sua mãe escreveu, “Ela esteve muito séria durante toda a sexta-feira e qualquer um percebia que ela estava a pensar muito sobre isso.” Mais tarde, nesse mesmo ano, Xenia esteve presente na coroação dos pais no Kremlin de Moscovo. A sua mãe perguntou às filhas sobre a experiência do seu primeiro evento social, “ela não sabia muito bem – ela não falou e olhou para tudo e curvou-se perante todas as pessoas, como fazia.” Mais tarde nesse ano acompanhou os pais a Copenhaga para a consagração da nova Igreja Ortodoxa em Bredgado.

 

Olga Alexandrovna, Maria Feodorovna e Xenia Alexandrovna

 

Xenia, como o resto da família, gostava particularmente das férias de Verão “fora da prisão” na Rússia para o país natal da mãe, a Dinamarca. As reuniões de família em casa dos seus avós maternos (o Palácio de Fredensborg) eram ocasiões divertidas e barulhentas e era frequente ela juntar-se aos seus primos mais novos para andar de patins. Foi em ocasiões deste tipo que ela conheceu a sua amiga de uma vida inteira, a Princesa Maria da Grécia, filha do rei Jorge I da Grécia.

 

O pai de Xenia gostava tanto de Fredensborg que comprou uma casa modesta mesmo à saída dos portões do palácio em 1885. Quanto a Xenia, era muito conhecida na Dinamarca ao ponto de o compositor Valdemar Vater lhe ter prestado um tributo escrevendo o “Polka Mazuraka de Xenia”. Além das visitas à Dinamarca, a família de Xenia adorava refugiar-se no seu iate para a costa finlandesa. Em 1889, o governo finlandês ofereceu uma casa de Verão ao Czar em Langinkoski. Aí eles costumavam pescar salmão no rio Kymi enquanto a mãe cozinhava sopa de salmão na cozinha.

 

Xenia (à direita) com a sua prima Maria da Grécia

 

Em 1884, o Grão-Duque Luís IV de Hesse fez uma visita ao Palácio de Peterhof juntamente com a sua família para o casamento da sua segunda filha, Ella com o tio de Xenia, o Grão-Duque Sergei Alexandrovich da Rússia. Foi a primeira vez que Xenia viu a sua futura cunhada Alexandra Feodorovna que na altura tinha 12 anos e ainda se chamava Alice. As duas deram-se muito bem e brincaram juntas durante muito tempo. A sua nova tia Ella também criou um laço muito especial com Xenia e com o seu irmão Nicolau. Em 1888, Xenia e Alexandra começaram a escrever uma à outra. Xenia era a “galinha” e Alexandra a “velha hen”.

 

Xenia com 16 anos

 

Xenia e a sua família viviam em constante medo de morte às mãos dos terroristas. Em 1887, quando a família estava prestes a entrar num comboio para fazer a viagem de regresso a Gatchina de São Petersburgo, o seu pai foi informado de que vários estudantes tinham sido detidos por transportarem livros que continham bombas e que tinham como objectivo ser atiradas à família imperial. Um dos cinco terroristas enforcados em resultado desta tentativa de assassinato foi Alexandre Illyich Ulyanov, irmão mais velho de Vladimir Lenine. Em Outubro de 1888, a família estava a viajar do Cáucaso quando, subitamente, o comboio onde seguiam descarrilou. Xenia foi a primeira a sair dos destroços. O seu pai tinha conseguido manter o tecto da carruagem suficientemente alto para que todos conseguissem rastejar para fora. Apesar de a culpa do acidente se prender com problemas técnicos, nunca foi excluída a hipótese de que uma bomba tinha sido escondida no comboio.

 

Xenia (ultima da direita) com a família

 

Xenia e o seu primo, o Grão-Duque Alexandre Mikhailovich, brincavam juntos desde a infância e a sua relação começou como sendo simplesmente amigos. Quando chegou à adolescência, Xenia apaixonou-se pelo seu primo 9 anos mais velho que era um grande amigo do seu irmão Nicolau. Em 1886, quando Alexandre de 20 anos estava a servir na marinha, Xenia de 11 anos enviou-lhe um postal quando o seu navio se encontrava no Brasil, “Felicidades e volta depressa! A tua marinheira, Xenia.” Em 1889, Alexandre escreveu sobre Xenia, “Ela tem 14 anos. Acho que gosta de mim.”

 

Xenia e Alexandre queriam casar-se desde quando ela tinha 15 anos. Foi uma atracção na qual os seus pais não estavam inclinados para confiar, uma vez que Xenia era muito nova e eles não tinham a certeza sobre a personalidade de Alexandre. Finalmente, em Janeiro de 1894, os pais de Xenia aceitaram o noivado depois do pai dele, o Grão-Duque Miguel Nikolaievich, intervir, apesar da Czarina Maria Feodorovna se queixar da arrogância e falta de educação de Alexandre. O casal casou-se no dia 6 de Agosto de 1894 no Palácio de Peterhof e a sua prima Maude, futura rainha da Noruega, comentou sobre a ocasião: “A pequena Xenia estava muito querida como noiva, foi um dia esgotante para ela. Teve de pôr a coroa e a tiara antes de todas nós (…) O calor na igreja era insuportável uma vez que havia velas e candelabros e demasiada gente para um espaço tão pequeno. Podes imaginar como foi desconfortável – a cerimónia durou quase duas horas.” A irmã mais nova de Xenia, Olga, escreveu sobre a alegria do seu casamento, “O Imperador estava tão feliz. Foi a última vez que o vi assim.”

 

Eles passaram a noite de núpcias no Palácio de Ropsha e a lua-de-mel em Ai-Todor (a propriedade de Alexandre na Crimeia). Durante a lua-de-mel, o pai de Xenia começou a adoecer e morreu no dia 1 de Novembro de 1894. Xenia escreveu sobre a triste perda do seu pai, “Ainda não acredito. Parece impossível que o nosso adorado anjo tenha partido e deixado a sua pobre e miserável família de coração partido e a chorar por ele. Mas ele está feliz agora. Deus não queria que ele sofresse mais.” Com a morte do seu pai, o seu irmão mais velho, Nicolau, herdou a coroa e tornou-se o Czar Nicolau II.

 

Xenia com o marido Alexandre em 1894

 

Xenia e Alexandre tiveram sete filhos juntos:

 

·         Princesa Irina Alexandrovna (1895 – 1970)

·         Príncipe Andrei Alexandrovich (1897-1981)

·         Príncipe Feodor Alexandrovich (1898-1968)

·         Príncipe Nikita Alexandrovich (1900-1974)

·         Príncipe Dimitri Alexandovich (1901-1980)

·         Príncipe Rostislav Alexandrovich (1902-1978)

·         Príncipe Vasil Alexandrovich (1907-1989)

 

 

Um dos descendentes de Xenia poderia ser actualmente o líder da Família Romanov, mas todos os seus filhos tiveram casamentos inválidos, por isso, se a monarquia voltasse à Rússia, nenhum deles poderia subir ao trono.

 

Em 1913, a filha de Xenia, Iria, expressou a sua vontade de se casar com o Príncipe Felix Yussupov, herdeiro da maior fortuna privada da Rússia. Felix tinha decidido que Irina seria uma esposa perfeita, mas Xenia não ficou feliz com a perspectiva de aceitar o casamento da sua única filha com ele devido à sua reputação duvidável. Chegaram a aparecer rumores de que ele teve um caso com o Grão-Duque Dimitri Pavlovich da Rússia. Maria Feodorovna tinha ouvido estes rumores e pediu uma reunião com ele. Ela terá dito, “Não te preocupes, eu farei tudo o que estiver ao meu alcance pela tua felicidade.” A única filha de Xenia casou-se no dia 9 de Fevreiro de 1914 na presença do Czar que a levou até ao altar.

 

Xenia com o seu marido e filhos

 

Infelizmente a atracção romântica entre Xenia e o seu marido não durou muito. Durante a última gravidez de Xenia em 1907, Alexandre teve um caso com uma mulher identificada como “Maria Ivanovna” enquanto estava em Biarritz. Um ano depois também Xenia começou um caso com um inglês a quem chamava “Fane” e apenas se referia a ele como “F” nos seus diários. Eles trocaram correspondência até ao inicio da Primeira Guerra Mundial. Depois de Alexandre e Xenia admitirem os casos um ao outro o seu casamento entrou em crise. Apesar de ainda se sentirem apaixonados um pelo outro, começaram a dormir em quartos separados e começaram a levar vidas diferentes. A sua cunhada, a Imperatriz Alexandra Feodorovna comentou sobre o casamento, “Coitada da Xenia, com filhos tão bonitos e a com a filha casada com aquela família imoral – e com um marido tão falso.” Antes da revolução, Alexandre tinha-se desencantado com o rumo da Rússia e com a vida na Corte. Tanto ele como Xenia passavam a maior parte do tempo fora do país, mas ambos regressaram antes do inicio da Primeira Guerra Mundial. Depois da revolução, ambos se separaram e conseguíram escapar da Rússia.

 

 

Como se viu anteriormente, Xenia tinha uma relação próxima com o seu irmão e a esposa antes de eles se casarem. Quando Nicolau e Alexandre se mudaram para o Palácio de Inverno depois do casamento, Xenia e Alexandre (conhecido na família como Sandro) passavam longas noites juntos na sala de entretenimento. Alexandra estava isolada do resto da família Romanov e, além das suas duas cunhadas, Xenia e Olga, apenas a Rainha Olga da Grécia a tentava compreender. Eventualmente um grande ressentimento começou a crescer entre Xenia e Alexandra devido ao facto de a primeira, para além da primeira filha, Irina, ter dado à luz apenas rapazes saudáveis. Em contraste, Alexandra tinha quatro filhas seguidas e nenhum herdeiro masculino.

 

Em 1902, toda a família imperial russa esperava desesperadamente o nascimento de um herdeiro. Xenia escreveu que, nesse ano, Alexandra teve “um pequeno aborto – se lhe podemos chamar um aborto de todo! Apenas saiu um pequeno óvulo!” Alexandra acreditava que estava grávida devido à influência maligna de um charlatão francês chamado Philippe Nizier-Vachot. Vachot tinha convencido a impressionável e desesperada Czarina de que ela estava grávida de um rapaz. Xenia estava preocupada e contou à dama-de-companhia da mãe, “Ainda não consegui chegar perto de encontrar a origem do misterioso, senão falso, Phillipe.”

 

Finalmente, em Julho de 1904, Alexandra deu à luz um rapaz, Alexis Nikolaievich. A alegria depressa se transformou em desespero quando em Setembro o pequeno Czarevich começou a sangrar do umbigo. Alguns meses mais tarde foi confirmado que o bebé sofria de Hemofilia. O filho doente de Alexandra e os rapazes saudáveis de Xenia eram, na cabeça da Imperatriz, um antagonismo constante. Xenia nunca soubre a verdade sobre os pensamentos de Alexandra durante muitos anos. Infelizmente o nascimento de Alexis resultou no controlo completo da Czarina sobre o seu marido. A chegada de Rasputine também causou tensões. Tal como o resto da família, Xenia era muito céptica em relação aos supostos poderes do “sinistro Gregório”.

 

Irina (2º da esquerda) com a filha Irina nos braços.

 

Em 1911, para a desilusão de Xenia, Alexandra estava a pedir a Rasputine para avaliar os potenciais ministros. Num jantar com a sua mãe, o monge siberiano foi o único tema da conversa. Maria Feodorovna foi falar com o seu filho sobre ele e Ella tinha também mostrado preocupação em relação à sua influência com a irmã. Ela escreveu em desespero a Xenia: “Qualquer um sente uma atmosfera demoníaca de má disposição e nojo e intriga como se uma onda negra estivesse a afectar todos que acreditam neste profeta falso. Que Deus nos ajude e ouça as nossas orações. Foi apenas em 1912 que Xenia descobriu através da sua irmã Olga que Alexis tinha Hemofilia. A relação de Xenia e Alexandra sofreu um novo e duro golpe, mas ela continuou muito ligada ao seu irmão. Nicolau visitava-a frequentemente quando estava na Crimeia e ela dava longos passeios com as suas sobrinhas Olga e Tatiana. A sua cunhada raramente a visitava.

 

Xenia pouco antes da Primeira Guerra Mundial

 

Além de Nicolau, Xenia era dedicada aos seus outros irmãos, o Grão-Duque Jorge Alexandrovich e o Grão-Duque Miguel Alexandrovich. Ambos estavam destinados a morrer tragicamente antes dela. Jorge morreu de Tuberculose em 1899 e Miguel foi brutalmente assassinado em Perm em 1918. A morte de Jorge, embora esperada, foi traumática, uma vez que agora o seu irmão Miguel estava mais perto do trono. Sem nenhum homem de Nicolau e Alexandra, se ambos os seus irmãos morressem, o trono seria entregue ao Grão-Duque Vladimir Alexandrovich.

 

Xenia tinha esperança de que Miguel se casasse e partilhasse a sua tristeza quando surgiu a hipótese de uma união entre ele e a Princesa Beatriz de Save-Coburgo e Gotha, mas esta foi negada pela igreja. O nascimento de um rapaz de Nicolau e Alexandra trouxe alivio a ambos os irmãos. Por não poder casar com a Princesa que queria e já não sendo Czarevich, Miguel queria ter uma relação feliz. Isto levou a que se separasse da sua família quando se casou com Natasha Sergeyevna sem a permissão do Czar. O casal foi exilado como castigo. Xenia não descriminou o irmão pela sua escolha, uma vez que ela própria estava a passar por dificuldades no seu casamento e compreendia a sua atitude. Ela recebeu Miguel e a sua esposa em Cannes em 1913 e tentou convencer Nicolau a perdoá-lo. Mais tarde o Czar permitiu a entrada de Miguel na Rússia, mas sem a sua esposa. Xenia também conseguiu acalmar a sua mãe e, finalmente em Julho desse mesmo ano, Maria Feodorovna aceitou encontrar-se com Miguel e até recebeu a sua esposa Natasha.

 

 

Como outros membros da família, Xenia estava grata por o seu pai ter mantido a Rússia fora de guerras. No dia 25 de Janeiro de 1904, Xenia escreveu no seu diário, “Foi declarada guerra! Que Deus nos ajude!” A Rússia estava então em guerra com o Japão. No mês anterior, Xenia tinha mencionado ao ministro da guerra que não haveria guerra pois o seu irmão não queria guerra. Ela disse que, “não havia razão para lutar contra o Japão e a Rússia não precisava da Coreia”. O ministro da guerra confessou tristemente que a Rússia não seria capaz de controlar a situação.

 

Em Fevreiro de 1905, o tio de Xenia, o Grão-Duque Sergei foi morto por uma bomba em Moscovo. Xenia quis ir para o lado de Ella, mas disseram-lhe que a situação era demasiado perigosa. Pouco depois soube-se da derrota da Rússia na Coreia. “Que terrível! Que pesadelo! Porquê, porque estamos a ser castigados por Deus?! Estou a caminhar como se estivesse a sonhar, incapaz de compreender o que se passa”, escreveu ela. Xenia tinha-se mostrado contra a guerra e acrescentou a sua opinião, “Um fim ainda mais estúpido!” Na altura ela encontrava-se na Crimeia com o seu marido e filhos e ficou aterrorizada. Em Outubro, o seu irmão foi obrigado a concordar com a formação de uma Duma. Alguns membros da família viram isto como o fim da autocracia na Rússia. O seu marido demitiu-se da sua posição no Ministério da Marinha Mercante e a família passou o Natal em Ai-Todor na Crimeia por ser perigoso viajar para Norte.

 

 

O rebentar da Primeira Guerra Mundial apanhou Xenia e a sua mãe desprevenidas. A primeira estava na França e a segunda em Londres. As duas combinaram encontrar-se em Calais onde o comboio privado de Maria Feodorovna estava à espera para as levar para a Rússia. Elas estavam confiantes de que o Kaiser as deixaria passar, mas quando chegaram a Berlim descobriram que a linha férrea para a Rússia tinha sido fechada. Quando ouviram que o Youssoupovs também estavam em Berlim, Maria Feodorovna pediu-lhes para se juntarem a elas no comboio. Depois de uma situação complicada em Berlim, foi dada finalmente autorização para o comboio seguir para a Dinamarca. Xenia e a mãe chegaram a casa pela Finlândia. Quando chegaram a casa, Xenia, Sandro e Maria Feodorovna viveram juntos no Palácio de Yelagin. Miguel obteve também autorização para regressar e juntou-se à família no dia 11 de Agosto.

 

 

Xenia e a mãe sabiam que a Rússia não estava em condições para lutar numa guerra moderna, por isso Xenia lançou-se ao trabalho. Ela providenciou o seu próprio comboio para hospitais e abriu um grande hospital para feridos. Também abriu o Instituto Xenia que oferecia próteses artificiais para os incapacitados pela guerra. Em 1915, Xenia e Maria Feodorovna ficaram horrorizadas ao saber que Nicolau pretendia tomar o comando das forças armadas. Ela acompanhou a sua mãe a Czarskoe Selo para o tentar fazer mudar de ideias. Tal como Maria Feodorovna escreveu no seu diário, “fui tentar a minha sorte.” Para aumentar as suas frustações, a conversa não teve qualquer efeito. Xenia regressou de coração partido para o Palácio de Yelagin. Em Fevereiro de 1916, Xenia viajou para Kiev depois de uma doença para ver a sua mãe e irmã. Olga Alexandrovna tinha finalmente recebido permissão do Czar para dissolver o seu primeiro casamento e casou-se em Novembro de 1916 com Nikolai Kulikovsky na presença da sua mãe. Xenia não esteve presente, mas ouviu tudo sobre o casamento da sua mãe. Em Outubro de 1916, cada vez mais deprimida pelo dilema da Rússia, Xenia escrevey à sua mãe, “O que teria acontecido se o querido Papa ainda estivesse vivo? Será que haveria guerra – desordem, fermento intelectual, desacordos – numa palavra, tudo o que está a acontecer ou não – acho que não – pelo menos grande parte do que está acontecer, não aconteceria e podemos dizê-lo com certeza.” Xenia, a sua mãe e a sua irmã Olga pediram ao Grão-Duque Nicolau Mikhailovich da Rússia para escrever ao Czar para o avisar sobre a influência de Alexandra nos assuntos do governo.

Nicolau nem sequer abriu o envelope, mas Alexandra leu a carta e acusou o Grão-Duque de “rastejar atrás da tua mãe e irmãs”.

 

Xenia com Alexandra

 

Compreendendo o perigo que corria, Xenia e a sua família mudaram-se para Ai-Tudor na Crimeia. Aí recebiam poucas notícias. Xenia ouviu falar do assassinato de Rasputine e ficou inconfortável com o episódio. Ela escreveu à sua mãe que estava em Kiev, “Dormi pouco. Há um rumor sobre o assassinato de Rasputine!” O cunhado de Xenia tinha sido um dos assassinos. Nos inícios de 1917, Xenia esperava que a sua mãe conseguisse fazer com que o seu irmão se consciencializasse sobre o colapso cada vez mais próximo da Rússia. Ela escreveu em desespero, “Se pudesses falar serias ouvida. Se as coisas não mudarem, será o fim de tudo. As pessoas parecem pôr as suas últimas esperanças em ti e se isso falhar, só pode acabar mal.”

 

 

A sua mãe achava que não podia fazer nada e não tinha intenções de regressar a São Petersburgo de Kiev. No dia 19 de Fevereiro de 1917, Xenia regressou a São Petersburgo e ao seu palácio. No dia 25 de Fevereiro, escreveu no seu diário, “Há distúrbios na cidade, até dispararam contra a multidão, dizem eles, mas tudo está calmo em Nevsky. Eles estão a pedir pão e as fábricas estão de greve.” No dia 1 de Março de 1917 ela escreveu, “Não há fim para o pesadelo e há tantos rumores por aí. Diz-se que o comboio do Nicky foi parado e que ele foi forçado a abdicar!” Mais tarde ela escreveu, “Infelizmente o Nicky não compreendeu o perigo. Se o Nicolau tivesse reagido mais cedo e garantido as condições impostas pela Duma podia ter salvado o trono. Estas horas fizeram toda a diferença!” Maria Feodorovna escreveu-lhe sobre a reunião com Nicolau em Mogiliev, “Ainda não consigo acreditar que este horrível pesadelo é real!” Mais tarde ela também escreveu, “Não sei nada do pobre Nicky, por isso estou a sofrer horrivelmente.” Xenia tentou ver o seu irmão, mas o Governo Provisório não lhe deu permissão. Não vendo futuro onde estava, Xenia voltou para Ali-Todor no dia 25 de Março, dia do seu 42º aniversário.

 

Xenia chegou a Ai-Todor onde se juntou com a sua mãe, irmã e marido no dia 28 de Março de 1917. No final de Novembro, Xenia escreveu ao seu irmão Nicolau que estava em exílio em Tobolsk, “O meu coração sangra sempre que penso no que passaste, no que viveste e no que ainda estás a viver! A cada passo houve horrores e humilhações injustas. Mas não temas, o Senhor vê tudo. Desde que estejas saudável e bem. Às vezes parece tudo um pesadelo terrível e que vou acordar e tudo vai estar bem! Pobre Rússia! O que lhe vai acontecer?” Em 1918, enquanto estava na Crimeia, Xenia recebeu a notícia de que o seu irmão Nicolau II, esposa e filhos tinham sido mortos pelos bolcheviques. Quando o exercito vermelho se estava a aproximar cada vez mais da Crimeia, Xenia e a sua mãe conseguiram escapar da Rússia no dia 11 de Abril de 1919 com a ajuda da Rainha Alexandra do Reino Unido, irmã de Maria Feodorovna. O rei Jorge V enviou um navio de guerra britânico que as levou a elas e a outros Romanov da Crimeia pelo Mar Negro para Malta e depois para a Inglaterra. Mais tarde a sua irmã Olga juntou-se à família. Xenia permaneceu no Reino Unido, enquanto que a sua mãe e irmã preferiram partir para a Dinamarca.

 

 

 

Xenia visitava a sua mãe na Dinamarca sempre que podia. Ela estava a viver na Villa Hvidore que ela e a irmã Alexandra tinham construído na costa norte de Copenhaga. Em Outubro de 1928, Maria Feodorovna ficou gravemente doente. Durante esta altura ambas as suas filhas estavam sempre ao seu lado, junto à cama. No dia 13 de Outubro a antiga Imperatriz acabou por morrer. Um jornal dinamarquês escreveu que, “a Dinamarca está de luto pela sua sábia e corajosa filha”.

 

Xenia nos seus últimos anos

 

No dia 17 de Maio de 1920, Xenia recebeu os direitos para as propriedades de Nicolau na Inglaterra por ser a irmã mais velha do falecido Czar. O seu valor é de 500 libras. O seu marido Sandro estava a viver em Paris. Em 1925, a situação financeira de Xenia tinha-se tornado desesperante. O seu primo directo, o Rei Jorge V, permitiu que ela vivesse em Frogmore Cottage, uma boa casa no Windsor Great Park. Ela escreveu ao primo em agradecimento, “A sério Georgie, é muito bom e gentil da tua parte. Eu aceitaria tudo excepto ser mantida por outros. Não tenho palavras para te dizer como me sinto.”

 

Xenia à porta de casa

 

Mais tarde ela teve de lidar com as afirmações fraudulentas de Anna Anderson que dizia ser a sua sobrinha Anastasia. A sua irmã Olga tinha realçado que se aparecessem mais gastos excessivos por parte da família, a sua mãe deixaria de receber a sua pensão do Rei Britânico. Em Julho de 1928, dez anos depois do suposto assassinato de Nicolau, Alexandra e filhos, todos assumiam que eles estavam mortos e, por isso a família lutava pelas suas possessões, principalmente pela propriedade finlandesa, mas acabaram por perder.

 

 

Depois da morte da sua mãe, a venda de Hvidore e das jóias de Maria Feodorovna trouxe algum dinheiro. Pouco depois, Xenia recebeu uma carta de Gleb Botkin, filho do médico da família do seu irmão, acusando-a de estar a tentar roubar aquilo que pertencia à sua sobrinha Anastasia. O seu marido não escondeu os sentimentos que tinha em relação à Botkin numa carta a Xenia, “Obrigado pela tua carta (…) Também pela malvadez do Botkin, que feitio! Estou envergonhado pelo povo russo, Vou procurar conselhos junto de um advogado americano, mas na minha opinião é melhor não fazer nada e esperar pelo ataque deles.” No dia 26 de Fevereiro de 1933, o seu marido Sandro morreu. No dia 1 de Março ele foi enterrado em Roquebrune-Cap-Martin no sul de França e tanto ela como os seus filhos estiveram presentes na cerimónia.

 

Xenia com os filhos

 

Em 1934, a Frogmore Cottage tornara-se demasiado pequena para Xenia e a família. O rei mandou adicionar uma nova ala à casa. Em Março de 1937, Cenia mudou-se da Frogmore House para a Wilderness House nos jardins do Palácio de Hampton Court. Xenia continuou a viver lá até à sua morte no dia 20 de Abril de 1960. Mesmo apesar das dificuldades por que passava na altura, Xenia deixou uma pequena quantia para cada um dos seus filhos.

 

Xenia com o vestido da corte em 1893

música: Bernard Fanning - "Watch Over Me"

publicado por tuga9890 às 19:39
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