Quarta-feira, 2 de Julho de 2008

Biografia - Alexis (Alexei) Nikolaevich

 

Alexis Romanov era o filho mais novo de Nicolau II e Alexandra da Rússia, nascido a 12 de Agosto de 1904 no Palácio de Peterhof.

 

Alexis nos braços do pai em 1904

 

Depois de quatro Grã-Duquesas, a chegada do tão esperado herdeiro ao trono foi comemorada de forma grandiosa.

 

Alexis foi baptizado no dia 3 de Setembro de 1904, na capela do Palácio de Peterhof. Os seus padrinhos principais foram a sua avó paterna e o seu tio-avô, o Grão-Duque Alexei Alexandrovich . Outros padrinhos incluíam a sua irmã mais velha Olga, o seu bisavô, o rei Cristiano IX da Dinamarca, o rei Eduardo VII do Reino Unido, o Principe de Gales e o imperador Alemão Guilherme II. Estando a Rússia no meio de uma guerra com o Japão, todos os oficiais e soldados do exército e marinha russos foram padrinhos honorários.

 

Alexis em 1906

 

O baptizado do novo Czarevich foi também a primeira cerimónia oficial na qual participaram alguns membros mais novos da família imperial, incluindo os filhos mais novos do Grão-Duque Constantino Konstantinovich , as irmãs mais velhas de Alexis , Olga e Tatiana e a sua prima, a Princesa Irina Alexandrovna . Para esta ocasião, os rapazes usaram uniformes militares em miniaturas e as raparigas usaram uma versão mais pequena do vestido da corte. O sermão foi lido por São João de Konstadt e o bebé foi levado até ao altar pela Princesa de Galtizine. Como medida de precaução, foram colocadas solas de borracha nos seus sapatos para evitar que escorregasse neles.

 

No iate do pai em 1905

 

"O Alexis era o centro das atenções desta família unida, o centro de todas as esperanças e afectos," escreveu o tutor Pierre Gilliard. "As irmãs veneravam-no. Ele sempre foi o orgulho e alegria dos pais. Quando ele estava bem, o palácio transformava-se. Tudo e todos que lá estivessem pareciam mergulhados na luz do sol." O rapaz era muito parecido com a sua mãe, Alexandra, segundo Gilliard. Era alto para a sua idade, com "com um rosto bem definido, feições delicadas, cabelo castanho-claro com um brilho ruivo, e grandes olhos azuis acinzentados, como a mãe."

 

Alexis tinha poucos meses de vida quando, depois de um fio de sangue começar a escorrer do seu umbigo, se descobriu que sofria de hemofilia.

 

com a irmã Anastasia

A hemofilia é uma doença hereditária que impede o corpo de controlar hemorragias tanto externas como internas.   A Hemofilia impede a coagulação sanguínea,   logo, quando um vaso sanguíneo é danificado, um coágulo não se forma e o vaso continua a sangrar por um período excessivo de tempo. A  hemorragia pode ser externa, se a pele é danificada por um corte ou abrasão, ou pode ser interna, em músculos, articulações ou órgãos. Qualquer queda pode dar inicio a uma hemorragia interna que, por sua vez, pode levar à morte.

 

O gene que provoca a doença é normalmente transmitido de mãe para filho, uma vez que a fêmea pode ser portadora deste, mas não pode sofrer da doença. Alexis foi afectado pela sua mãe, que recebeu o gene da sua mãe, que por sua vez, o recebeu da sua mãe, a Rainha Vitória. Vários membros de famílias reais por toda a Europa que tinham ligações com a de Alexandra sofriam também da doença.

 

Alexis com a mãe em 1906

 

Apesar de inteligente e afectuosa, a sua educação era frequentemente interrompida por ataques de Hemofilia e ele era bastante mimado, uma vez que os seus pais não conseguiam discipliná-lo devido à doença. Foram contratados dois marinheiros da Marinha Imperial, Nagorny e Derevenko, para tomarem conta dele e, acima de tudo,  certificarem-se de que ele não se magoava. Ele estava proibido de andar de bicicleta sozinho ou de brincar demasiado. Devido ao facto de o seu sangue não coagular normalmente, qualquer inchaço ou nódoa negra podiam matá-lo. Apesar das restrições à sua actividade, Alexis era activo e mal comportado por natureza. Recusava-se a falar outra língua que não o russo (os filhos de Alexandra falavam Inglês com a mãe e Russo com o pai) e gostava de usar trajes tipicamente russos. Quando era mais novo gostava de, ocasionalmente, pregar partidas aos convidados dos pais.

 

 

Alexis costumava fazer troça de um dos marinheiros (Derevenko) que o protegiam e lembrava-o frequentemente da sua incapacidade para o manter quieto. "Olha para o gordo a correr!", gritava em ocasiões públicas. Por vezes cumprimentava pessoas que lhe faziam vénia acertando-lhes com alguma coisa na cara ou dando-lhes um nariz a sangrar. Os pais diziam às vítimas de Alexis que ele era "uma criança traquina". Com 7 anos envergonhou os pais durante um jantar de família. Provocou as pessoas que estavam na mesa, recusou-se a sentar na cadeira, não comeu a comida a lambeu o prato. O seu pai desviou o olhar e tentou ignorar o comportamento do filho. A sua mãe acabou por culpar a irmã Olga, que estava sentada ao pé dele, por não o ter controlado. Segundo o Grão-Duque Constantino Konstantinovich , a reacção de Alexandra não fez sentido. "A Olga não consegue lidar com ele," escreveu no seu diário.

 

Alexis em 1908

 

O tutor de Alexis, Pierre Gilliard, falou com os seus pais sobre o seu comportamento, acabando por os convencer de que a autonomia o ajudaria a desenvolver melhor o seu controlo. Com o tempo Alexis acabou por ganhar uma liberdade fora do comum e, associada à sua doença, acabaram por lhe dar mais consciência.

 

No Palácio de Alexandre

 

Durante as crises de Hemofilia, a sua única esperança era Gregório Rasputine, um monge da Sibéria que tinha o dom de, aparentemente, curar o Tsaraevich . Com a sua presença, Alexis conseguia ter uma vida mais produtiva. Sempre que tinha uma crise, Rasputine era chamado ao palácio e curava-o. Quando tinha 8 anos, o herdeiro sofreu a sua pior crise de Hemofilia. Quando a família voltava a casa ainda no seu Iate Standart , após umas férias muito activas, Alexis magoou o joelho quando saltou para o barco depois de ir apanhar conchas. O médico da família, Botkin , estava com a família e examinou o rapaz. Tudo parecia normal e Alexis dizia que nada lhe doía. No entanto, apenas o terá dito para poder continuar a brincar com os amigos.

 

Uma fotografia tirada durante o ataque de hemofilia no Verão de 1912. Pode vêr-se o joelho direito mais saliente do que o esquerdo

 

Quando foi acordado na manhã seguinte por Derevenko , o marinheiro reparou que ele estava coberto de suor e parecia estar a sofrer. Quando Devenko lhe perguntou se estava a sentir alguma coisa, Alexis disse estar bem e então o marinheiro saiu do quarto. Cerca de 15 minutos mais tarde, o herdeiro saiu do quarto e a sua família já estava pronta para uma sessão fotográfica que tinha sido marcada para esse dia. Quando subiu ao convés, caminhava normalmente, apesar da dor.

 

Depois de tirar algumas fotografias no convés do barco, o fotografo sugeriu que a família se dirigisse à ponte para os fotografar lá. Nesta altura, Alexis começava a deixar de falar. Pierre Gilliard , que estava presente, reparou no inchaço na perna do aluno e associou-o a outros ataques de Hemofilia que tinha visto no herdeiro.

 

Enquanto os outros membros da família se dirigiam para a ponte, Alexis deixou-se ficar encostado à parede enquanto que a mãe lhe gritava para ele se despachar. Foi então que Gilliard pediu a Alexis para esperar, o que alertou Alexandra que foi ter com os dois. Receando ter de passar os dias que restavam do cruzeiro na cama, Alexis disse que estava bem e começou a correr até à ponte, no entanto a meio do caminho desmaiou e acabou por ferir também o cotovelo.

 

outra fotografia do mesmo dia

 

Nessa noite Alexis teve de ser atado à cama e amordaçado para que a tripulação do navio não ouvisse os seus gritos. Quando eles chegaram ao cais na Polónia, receberam imediatamente um telegrama de Rasputine, Gilliard foi o primeiro a lê-lo. O monge dizia que sabia que o herdeiro estava doente e alertou contra o uso de morfina (administrada para que Alexis não sentisse dor), uma vez que ele era alérgico à mesma. Gilliard correu até ao quarto de Alexis e leu-o a todos os presentes. No fim do telegrama Rasputine também dizia que ele ficaria bem muito brevemente e que não era preciso haver preocupação. Na manhã seguinte, diz-se que Alexis estava bem. Esta história nunca foi confirmada.

 

 

Em Setembro de 1912, após a celebração pública do centenário da derrota de Napoleão, houve uma Gala em Bordino . Nesta festa estiveram presentes a família real, a corte principal (Gilliard , Botkin , Derevenko ...) e muitos dignitários estrangeiros. Durante a noite, Alexis e um amigo encontraram alguns copos cheios de vodka, então decidiram experimentá-los e poucos minutos mais tarde estavam intoxicados. Pierre Gilliard falou com eles durante alguns momentos e percebeu o que tinha acontecido. Então dirigiu-se à mãe de Alexis e contou-lhe o que viu. Ela não acreditou nele, por isso o tutor apontou para o lugar onde eles estavam. Alexis e o amigo estavam a rir-se e a comportar-se de uma forma estranha. Alexandra foi ter com eles e levou-os para longe dos olhares dos convidados. Nada aconteceu devido a este incidente, mas tanto Alexis como o amigo não conseguíram sair da cama no dia seguinte.

 

Alexis em 1912

Nos dois anos que se seguiram, a vida de Alexis seguiu calmamente. Aproveitava todos os momentos que tinha livres e tentava corresponder às expectativas que cada um tinha dele, mas também passou ainda por algumas crises de Hemofilia que ficaram cada vez mais raras à medida que crescia, dando esperança de que a previsão de Rasputine de que, se o herdeiro chegasse aos 17 anos, não sofreria mais crises, talvez se realizasse.

 

Durante estes dois anos ocorreram as celebrações do tricentenário da Dinastia Romanov que duraram meses, com festas sem fim e muitos eventos públicos nos quais a família tinha de participar. Também durante este período, Alexis juntou-se a uma organização de escuteiros americanos que operava na Rússia onde adquiriu pratica em liderança que precisava para ser czar.

 

Alexis com o pai em 1915

 

Quando rebentou a Primeira Guerra Mundial, Alexis viveu durante algum tempo com o pai no Quartel-General do exército russo, o que herdeiro gostou imenso.

 

Em Dezembro de 1916, o General britânico John Hanbury Williams recebeu a notícia de que o seu filho tinha morrido ao combater com o exército britânico em França. Nicolau II mandou o seu filho de 12 anos sentar-se junto do General de luto. "O papa disse-me para me vir sentar consigo porque pensou que o senhor se podia sentir sozinho esta noite," disse Alexis ao general. Tal como todos os homens Romanov, Alexis cresceu a usar uniformes de marinheiro e a brincar às guerras desde que começou a dar os primeiros passos, O seu pai começou a prepará-lo para o seu futuro como czar, convidando-o a sentar-se ao pé de si em reuniões com os ministros.

 

 

O Coronel Mordinov, que conviveu bastante com Alexis durante a I Guerra Mundial disse sobre o Czarevich:

 “Ele tinha aquilo a que nós russos chamamos um “coração dourado”. Ele ligava-se facilmente às pessoas, gostava delas e tentava fazer o seu melhor para as ajudar, especialmente quando, a seu ver, essa pessoa tinha sido magoada injustamente. O seu amor, tal como o dos seus pais, era baseado principalmente em pena. O Czarevich Alexis Nikolaevich era um rapaz muito preguiçoso, mas com muitas capacidades (acho que era preguiçoso exactamente por conhecer as suas capacidades). Ele compreendia facilmente tudo, era pensativo e tinha uma maturidade muito superior à sua idade. Apesar do seu bom carácter, ele prometia vir a ser um Czar firme e independente.”

 

 

 

Numa ocasião, quando o navio onde ele e o pai seguiam estava a regressar ao porto, Nicolau e o Capitão foram até à costa para discutir estratégias com alguns generais. O navio deveria permanecer escondido. Estava a chover e a visibilidade era pouca. Com o Comandante e o czar em terra, Alexis foi o comandante do navio. Enquanto estava a brincar com os amigos na sala de reuniões, foi chamado à sala de comandos e informado de que um navio desconhecido se aproximava. Sabendo bem que a Guerra continuava em força e que podiam estar em perigo, decidiu colocar a tripulação a interceptar o navio e a carregar as armas. Quando as armas estavam carregadas, não hesitou em ordenar a tripulação para dispararem. O navio inimigo foi atingido e então prepararam-se para responder ao ataque. Sabendo disto, Alexis ordenou manobras evasivas. O navio inimigo respondeu ao ataque, mas falhou o alvo. Quando o navio se aproximou, a tripulação apercebeu-se que se tratava do Polar Star (o navio da sua avó). Então Alexis ordenou que fosse hasteada a bandeira branca e que o seu navio se encostasse ao da avó para tratar dos feridos.

 

Este acidente foi muito divulgado, mas o herdeiro acabou por não ser castigado, uma vez que tinha feito o que qualquer um faria na sua situação.

 

Alexis com o pai durante a I Guerra Mundial

Alexis acabou por regressar a casa depois de, durante uma visita a um hospital público, descobrir que pré-adolescentes e mesmo crianças estavam a lutar na guerra e teve uma longa discussão com o pai por causa disso. Então Nicolau achou melhor que ele não continuasse na frente.

Em Março de 1917 o seu pai abdicou do trono e a família foi exilada.

 

Alexis com a irmã Olga a bordo do navio "Rus" que os levou de Tobolsk para Ekaterinburgo. Esta é a última fotografia conhecida dos irmãos

 

Durante o exílio em Tobolsk , Alexis queixou-se no seu diário da monotonia da sua vida actual e pediu misericórdia de Deus. Tinha autorização para brincar ocasionalmente com Kolya , o filho de um dos seus médicos e com um ajudante de cozinha chamado Leonid Sednev (em quem se inspirou o livro The Kitchen Boy ").  Quando foi crescendo, Alexis parecia magoar-se de propósito. Em Tobolsk deslizou com um trenó pelas escadas abaixo e feriu-se gravemente. Foi exactamente esse ferimento que impediu as suas irmãs Olga, Tatiana e Anastasia de acompanharem os pais e a irmã Maria quando estes foram enviados para Ekaterinburgo . Também devido a este ferimento, Alexis teve de ficar preso a uma cadeira-de-rodas durante as semanas que lhe restavam de vida.

 

Na noite de 17 de Julho de 1918, Alexis foi morto juntamente com o resto da sua família por bolcheviques.

 

Inverno de 1917

 

Embora poucos, apareceram alguns rumores sobre a sua possível sobrevivência e mesmo pessoas que se fizeram passar por ele.

 

Quando os corpos do resto da família foram encontrados, tanto a equipa de cientistas americanos como a russa concluíram que o seu corpo era um dos que faltava, juntamente com o da sua irmã Maria ou Anastasia.

 

Alexis e Anastasia

 

Após a descoberta de restos mortais numa área próxima do local onde tinham sido descobertos os restantes corpos da família, no dia 27 de Agosto de 2007, duas equipas de investigadores (uma americana e outra russa), passaram 8 meses a analisá-los procurando provas para garantir que aqueles se tratavam dos restos mortais de Alexis e da sua irmã Maria.

 

A confirmação chegou durante uma conferência de imprensa no dia 30 de Abril de 2008 que deu como encerrado o mistério, provando que os dois últimos filhos de Nicolau II tinham, de facto morrido com a restante família.

 

 

Alexis morreu na madrugada de 18 de Julho de 1918, duas semanas antes de completar 14 anos.

música: Coldplay - "Violet Hill"

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Terça-feira, 1 de Julho de 2008

Biografia - Anastasia Nikolaevna

 

 

Anastasia Romanov era a filha mais nova e de Nicolau II e Alexandra da Rússia, nascida a 18 de Junho de 1901 no Palácio de Peterhof.

 

Anastasia tornou-se famosa após a sua morte devido às inúmeras mulheres que se fizeram passar por ela ao longo do século XX e também à atenção da qual foi alvo por parte da Cultura Popular de todo o mundo.

 

Anastasia nos braços da mãe em 1901

 

A esperança no nascimento de um herdeiro para a dinastia Romanov foi novamente adiada com o nascimento de Anastasia   Nikolaevna em 1901. Quando recebeu a notícia de que tinha sido pai da quarta filha consecutiva, o czar Nicolau II foi dar um longo passeio sozinho para se acalmar antes de visitar Alexandra e a nova bebé.

 

 

Um significado para o nome Anastasia é "aquela que se liberta das correntes". A quarta Grã-Duquesa recebeu o nome devido ao facto de, em honra do seu nascimento, o seu pai ter perdoado e colocado em liberdade estudantes que tinham sido presos por participarem em motins em São Petersburgo e Moscovo no Inverno anterior. Outro significado para o seu nome é "ela irá erguer-se", ligado à ressurreição  , facto que foi muitas vezes repetido quando as histórias sobre a sua sobrevivência começaram a aparecer.

 

Anastasia em 1902

 

Anastasia tinha um aspecto e personalidade diferentes das suas femininas e bem-comportadas irmãs. Era descrita como uma “maria-rapaz” que gostava de subir às árvores e brincar com os rapazes. A dama-de-companhia da sua mãe, Shopie Buxhoeveden, escreveu o seguinte sobre Anastasia e a sua irmã Maria:


“A Maria Nikolaevna era igual à Olga em cores e feições, mas com tudo mais acentuado e vivo. Ela tinha o mesmo sorriso encantador, a mesma forma da cara, mas os olhos dela, “as safiras da Maria”, como eram conhecidos entre os seus primos, eram magníficos, de um azul profundo. O cabelo dela tinha madeixas douradas e, quando foi cortado depois da doença dela em 1917, encaracolou-se naturalmente em volta da cabeça. A Maria era comandada inteiramente pela sua irmã mais nova, Anastasia Nikolaevna, chamada de “criança mal-comportada” pela sua mãe.

Talvez a Anastasia se tivesse tornado na mais bonita das irmãs se tivesse vivido mais tempo. As suas feições eram regulares e bem delineadas. Ela tinha um cabelo bonito, olhos bonitos e vivos com se tivessem sempre um sorriso brincalhão escondido nas suas profundidades, e sobrancelhas negras que quase se juntavam. Tudo isto combinado, tornava a Grã-Duquesa mais nova diferente de todas as irmãs. Ela tinha um aspecto próprio e parecia-se mais com a família da mãe do que com a do pai. Ela era muito baixa, mesmo aos 17 anos e era, na altura, bastante gorda, mas era gordura da juventude. Ela teria-a ultrapassado como a sua irmã Maria.”

 

 

No iate do pai

 

Anastasia era a origem de todo o mau-comportamento e era tão esperta e divertida quanto era preguiçosa nas suas lições. Ela era astuta e observadora, com um apurado sentido de humor, e era a única das irmãs que nunca soube o significado da palavra timidez. Mesmo muito nova, ela entretinha  velhos severos que se sentavam ao pé de si na mesa.

 

Alexis e Anastasia

 

Anastasia cresceu espevitada e energética, descrita como sendo baixa e com tendência a engordar, com olhos azuis e cabelo loiro quase ruivo. Margaretta Eagar , a ama das 4 irmãs, comentou que alguém lhe tinha dito que Anastasia tinha a melhor personalidade que ele alguma visto numa criança. 


Enquanto era frequentemente descrita como dotada e brilhante, nunca se interessou pelas restrições da sala de aula, de acordo com os seus tutores Pierre Gilliard e Sydney Gibbes que, juntamente com o resto dos empregados da família, descreveram Anastasia como sendo energética, travessa, e uma dotada actriz. Contudo a sua inteligência nem sempre era utilizada na melhor maneira.

 

Anastasia em 1905

 

A ousadia de Anastasia, excedia, por vezes, os limites do comportamento aceitável. "Sem dúvida nenhuma que ela mantinha o recorde de castigos atribuídos na sua casa, uma vez que, ao pregar partidas, era um verdadeiro génio," disse Gleb Botkin, filho do médico da corte, Yevgeny Botkin que viria a morrer com o resto da família em Etkaterinburgo .

 

Anastasia com as irmãs em 1904

 

Às vezes, Anastasia fazia rasteiras aos empregados e pregava partidas aos seus tutores. Quando era criança, subia às árvores e recusava-se a descer, sendo que o único que a conseguia convencer a fazê-lo era o seu pai, Nicolau II. Uma vez, durante uma luta de bolas de neve na propriedade polaca da família, Anastasia escondeu uma pedra com neve e atirou-a à sua irmã Tatiana, fazendo-a cair ao chão. Uma prima distante, a Princesa Nina Georgievna recordou que "a Anastasia era uma má perdedora ao ponto de ser verdadeiramente maldosa," e fazia batota, pontapeava e arranhava os seus adversários durante os jogos. Também se preocupava menos com a sua aparência do que as suas irmãs. Hallie Erminie Rives, uma escritora americana e esposa de um diplomata descreveu como Anastasia de 10 anos comia chocolates sem se preocupar em tirar as suas luvas brancas enquanto assistia a um espectáculo na casa da ópera de São Petersburgo.

 

 

Anastasia e a irmã mais velha Maria eram conhecidas como "o Par Pequeno" e partilhavam o mesmo quarto. Juntamente com as irmãs mais velhas, Olga e Tatiana, costumavam assinar as cartas com a alcunha OTMA que vem da primeira letra de cada um dos seus nomes. Para além de Maria e das irmãs, Anastasia era também muito próxima do seu irmão mais novo, Alexis e era ela que o costumava divertir quando ele sofria de ataques de hemofilia.

 

Anastasia e Alexis


Apesar da sua energia, a saúde  física de Anastasia era pobre. A Grã-Duquesa sofria de joanetes que lhe afectavam os pés. Além disso tinha um musculo fraco nas costas que tinha de ser massajado duas vezes por semana. Normalmente escondia-se debaixo da cama ou no armário para evitar estas massagens.

 

 

A sua mãe, Alexandra, confiava nos conselhos de Gregório Rasputine, um camponês russo que se considerava um "homem santo" e usou as suas rezas para salvar Alexis em numerosas situações. Anastasia, as irmãs e o irmão foram ensinadas a tratar Rasputine por "O Nosso Amigo" e a trocar confidências com ele. No Outono de 1907, a sua tia Olga Alexandrovna foi levada aos quartos das crianças pelo czar para conhecer Rasputine e deparou-se com as suas sobrinhas e sobrinho a usar as suas camisas de dormir.

 

Anastasia e a sua tia Olga Alexandrovna

 

Segundo relatos da época as crianças pareciam gostar dele e costumavam escrever-lhe frequentemente. Mais tarde seriam essas cartas que iriam incentivar os rumores de que o maléfico monge mantinha um romance tanto com Alexandra como com as suas filhas, particularmente devido a uma carta inocente, mas sugestiva que Anastasia lhe escreveu: "Meu querido, precioso e único amigo, quanto gostaria de te poder ver outra vez. Voltaste a aparecer-me num sonho. Estou sempre a perguntar à mamã quando vais voltar. Penso sempre em ti, meu querido, porque és tão bom para mim." Para além das cartas, circulavam também caricaturas pornográficas que mostravam a czarina e as filhas a terem relações com Rasputine .

 

Sem saber da doença de Alexis , tanto o povo russo como membros da família questionavam a presença do monge siberiano na corte. Mais tarde, Nicolau pediu-lhe que se ausentasse de São Petersburgo e ele foi para a Palestina, mas acabou por regressar e serviu sempre a família até ao seu assassinato em 1916.

 

Anastasia com a mãe

 

Durante a Primeira Guerra Mundial, Anastasia , juntamente com a irmã Maria, visitava soldados feridos num hospital privado em Tsarskoye Selo onde também trabalhavam a mãe e as irmãs mais velhas Olga e Tatiana. As duas adolescentes jogavam xadrex e bilhar com os soldados e tentavam animá-los. Felix Dassel , que foi tratado nesse hospital e conheceu Anastasia , contou que a Grã-Duquesa "ria como um esquilo e andava muito depressa, tropeçando várias vezes durante o caminho."

 

Anastasia durante a I Guerra Mundial

 

Após a abdicação do pai a Março de 1917, Anastasia foi presa com o resto da família, primeiro em Czarskoe Selo, depois em Tobolsk e, finalmente, em Etkaterinburgo. O stress e a incerteza sobre o seu destino, afectaram tanto Anastasia como o resto da família.

 

1913

 

"Adeus," escreveu ela a um amigo no Inverno de 1917. "Não te esqueças de nós." Em Tobolsk , ela escreveu uma canção para o seu tutor de Inglês, cheia de erros ortográficos sobre Evelyn Hope ", um poema de Robert Browning , que falava sobre uma jovem da idade de Anastasia : "Quando ela morreu tinha apenas 16 anos. Havia um homem que a amava, sem alguma vez a ter visto, mas conhecia-a muito bem. E ela também tinha ouvido falar dele. Ele nunca lhe conseguiu dizer que a amava, e agora ela estava morta. Mas mesmo assim ele pensou que quando ele e ela vivessem [a sua] próxima vida, quando isso acontecesse (...)"

 

 

Mesmo nos seus últimos meses de vida, ela encontrava sempre maneiras de se divertir. Ela e outros membros do grupo de empregados que a família levou, frequentemente organizavam peças de teatro para entreter os pais e os outros habitantes da casa de Tobolsk , durante a Primavera de 1918. As representações de Anastasia faziam todos caírem ao chão de tanto rir, segundo o seu tutor Sydney Gibbes . No dia 7 de Maio de 1918, uma carta enviada para a sua irmã Maria que já se encontrava em Ekaterinburgo , descrevia um momento de alegria, apesar da tristeza, solidão e preocupação que Anastasia sentia pelo seu irmão Alexis : "Estivemos a brincar nos baloiços, e foi aí que eu me perdi de riso, a queda foi tão maravilhosa! Mesmo! Eu já a contei às nossas irmãs tantas vezes ontem que elas já estão fartas de me ouvir, mas eu podia continuar a contar a história muitas vezes... Que clima fantástico temos tido! Qualquer um podia gritar de alegria.

 

Anastasia começou a fumar no Verão de 1916

 

Nas suas memórias, um dos guardas da "Casa Para Fins Especiais", Alexandre Strekotin , recordou Anastasia como sendo "muito amigável e divertida," enquanto que outro disse que ela era "um diabo muito charmoso! Ela era traquinas e, pelo que vi, raramente se cansava. Era muito viva, e gostava muito de pôr os cães a representar em comédias mímicas , como se fossem cães de circo." No entanto um outro guarda apelidou-a de ofensiva e terrorista" e queixou-se de que, ocasionalmente, ela provocava tensões dentro da casa.

 

As 4 grã-duquesas no quarto que partilhavam em Tobolsk

 

A lenda de Anastasia começou na noite de 17 de Julho de 1918. A Grã-Duquesa seguiu o resto da sua família, levando o seu cão Jimmy nos braços para a cave da Casa Ipatiev onde todos terão sido executados.

De acordo com o Relatório de Yurovsky , o homem que comandou o fuzilamento, após a primeira vaga de disparos, as balas fizeram ricochete nas jóias que as Grã-Duquesas tinham cosido nos seus corpetes. Pouco depois Olga e Tatiana terão sido esfaqueadas com as baionetas dos soldados, enquanto que as outras duas estavam encostadas à parede, aterrorizadas a tapar a cara até serem executadas com balas dos soldados.

 

última fotografia conhecida de Anastasia

 

No entanto há também relatos que contradizem o que foi escrito por parte dos próprios soldados que mataram a família. Um deles, Peter Ermakov , contou à mulher que Anastasia tinha sido esfaqueada e não morta por tiros. Outros dizem que já quando os corpos estavam a ser transportados para o camião, a filha do czar começou a chorar e foi morta com um golpe na cabeça.

Nos anos que se seguiram ao massacre da Casa Ipatiev pelo menos 10 mulheres garantiram ser a Grã-Duquesa , sendo a mais famosa Anna Anderson . Com cada nova mulher que aparecia, chegava também uma nova história sobre como Anastasia e até os seus irmãos teriam sobrevivido.

 

 

Havia rumores de que Anastasia tinha sido salva por um dos guardas quando este reparou que ela estava viva, de que tanto ela como a irmã Maria tinham sido salvas por um padre em 1919 e que viveram como freiras num convento nos Montes Urais até à morte de ambas em 1964, os rumores chegaram também à Bulgaria onde um homem chamado Peter Zamiatkin que se dizia ser um guarda da família imperial, contou a um paciente de 16 anos de um hospital que tinha levado Anastasia e Alexis para Odessa e, mais tarde conseguiu escapar para Alexandria de navio. Os supostos filhos do czar teriam vivido com nomes búlgaros e morreram em 1954.

 

Anastasia durante uma actuação com a irmã Maria em 1912

 

 

Os rumores da possível sobrevivência de Anastasia foram também alimentados pelos relatos de que comboios e casas estariam a ser revistados pela polícia secreta dos bolcheviques que procurava Anastasia Romanov. “No curto espaço de tempo em que esteve presa em Perm durante 1918, a Princesa Helena Petrovna , esposa do primo distante da Grã-Duquesa , Principe Ioann Konstantinovich , contou que uma vez um guarda lhe trouxe uma rapariga que se apelidava de Anastasia Romanova à sua cela e lhe perguntou se aquela era a filha do czar. Helena Petrovna disse que não a reconhecia e então a rapariga foi levada novamente. Na mesma cidade corriam rumores de que algumas pessoas tinham visto Alexandra e as filhas depois do assassinato, mas nunca se deu grande importância à história

 

 

Uma outra história de que 8 testemunhas tinham assistido à captura de uma jovem que, aparentemente, tentava fugir do país em Setembro de 1918. Algumas dessas testemunhas identificaram a jovem como sendo Anastasia quando lhes foram mostradas fotografias da Grã-Duquesa por soldados do Exercito Branco que ainda tinham esperança de encontrar a família real com vida. Uma das testemunhas (um médico) disse aos membros do Exercito Branco que tinha tratado daquela jovem e que ela lhe tinha dito que era a filha do czar, Anastasia e que lhe tinha passado uma receita com esse nome. Mais tarde o Exercito Branco encontrou registos dessa receita. Durante o mesmo período em meados de 1918 várias pessoas usaram a identidade da família para obter ajuda para abandonar o país ou obter dinheiro.

 

 

Embora a hipótese de que alguém tivesse conseguido escapar na noite de 17 de Julho nunca tivesse sido levada a sério, existem alguns relatos de que seria possível um ou mais membros da família fugir com vida. Yakov Yurovsky exigiu que os guardas fossem ao seu escritório e entregassem os objectos pessoais que tivessem roubado dos corpos da família depois do homicídio . Segundo alguns guardas houveram espaços de tempo em que os corpos foram deixados sozinhos, na cave, no corredor e, mais tarde, no camião que faria o seu transporte, o que daria espaço de manobra a guardas que não tivessem participado no assassínio e tivessem feito amizade com a família teriam a oportunidade de salvar alguém que não tivesse morrido durante o massacre.

 

Para além disso, falou-se também na hipótese de que houve bastante nervosismo na altura de esconder os corpos, uma vez que faltavam dois que supostamente tinham caído do camião durante o seu difícil percurso.

 

 

Quando o tumulo dos Romanov foi aberto em 1989, depressa se chegou à conclusão de que faltavam dois corpos.

Recurrendo às maiores tecnologias da altura, duas equipas de cientistas (uma russa e uma americana) começaram a analisar aos corpos.

Quando chegou a altura de apresentar as conclusões, as duas equipas mostraram-se em desacordo quanto aos corpos que faltavam. Os americanos diziam ser os de Alexis e Anastasia , enquanto que os russos afirmavam serem os de Alexis e Maria.

Sem que esta polémica fosse de facto resolvida, o corpo de uma das Grã-Duquesas foi enterrado sob o nome de Anastasia Romanov em 1991.

 

 

Finalmente, no dia 30 de Abril de 2008, após 8 meses de análise a dois corpos encontrados em Agosto do ano passado, chegou-se à conclusão que todos os membros da família foram mortos na mesma noite.

 

 

Anastasia morreu aos 17 anos de idade


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Segunda-feira, 30 de Junho de 2008

Biografia - Maria Nikolaevna

 Maria Nikolaevna Romanova foi a terceira filha de Nicolau II e Alexandra Feodorovna, nascida a 26 de Junho de 1899, no Palácio de Petehof. Desde 1991 que se questionava se ela teria sobrevivido ao massacre que vitimou toda a sua família na noite de 17 de Julho de 1918, uma vez que alguns cientistas russos defenderam que era o seu corpo (e não o de Anastásia ) que faltava quando os corpos dos Romanov foram encontrados.

 

 

Maria nos braços da mãe com poucos meses de idade

 

Quando Maria nasceu, o seu pai, o czar Nicolau II, escreveu no seu diário:

 

 “Um dia feliz: o Senhor enviou-nos uma Terceira filha – Maria, que nasceu em segurança às 12:10! A Alix mal dormiu durante a noite, e de manhã as dores aumentaram. Graças a Deus que tudo acabou depressa! A minha querida sentiu-se bem durante todo o dia e alimentou ela própria a bebé… a tarde foi maravilhosa.”

 

 

Embora fosse bem recebida pela sua família, o nascimento de Maria acabou por se tornar também numa desilusão, uma vez que era a terceira rapariga que nascia e não o tão desejado herdeiro, tal como a sua tia Xenia escreveu no seu diário:

 

“Que alegria que tudo tenha acabado bem, e a anciedade da espera tenha, finalmente, acabado! Mas foi um desapontamento que não seja um filho. Coitada da Alix! Nós, claro, estamos encantados de qualquer maneira – quer seja um filho ou uma filha!”

 

Maria com as irmãs em 1901

 

Os seus contemporâneos descreveram Maria como uma bonita e sedutora menina, bem constituída, com cabelo castanho claro e grandes olhos azuis que eram conhecidos na família como "as safiras da Maria". O seu tutor francês, Pierre Gilliard , disse que Maria era alta, bonita , com bochechas rosadas. Tatiana Botkina achava que a expressão dos olhos de Maria era "calma e gentil". Quando era criança era comparada aos anjos de Botticelli. O Grande Duque Vladimir Alexandrovich apelidou-a de "o bebé amável " devido à sua simpatia.

 

 

Maria em 1901

 

Quando aprendeu a andar, a pequena Maria escapou da sua banheira e começou a correr pelo corredor do palácio nua, enquanto a sua ama, Margaretta Eagar , que adorava politica, estava a discutir sobre o caso de Dreyfus com um amigo. "Felizmente eu tinha acabado de chegar, peguei nela e levei-a de volta para a Miss Eagar que ainda estava a falar sobre Dreyfus," recordou a sua tia, a Grande-Duquesa Olga Alexandrovna da Rússia.

 

 

As suas irmãs mais velhas não gostavam de a incluir nas suas brincadeiras, chegando mesmo a referir-se a ela como "meia-irmã" por ser tão boa e nunca se meter em confusões, recordou Margaretta Eagar nas suas memórias. Contudo, em certas ocasiões, a menina querida podia tornar-se bastante malévola. Uma vez Maria roubou algumas bolachas da mesa de chá da mãe. Como castigo pelo seu comportamento surpreendente, a ama e Alexandra sugeriram enviá-la para a cama sem comer, contudo Nicolau não concordou. "Sempre tive medo das asas que lhe estavam a crescer. Estou satisfeito por ver que ela é apenas humana." disse ele.

 

Olga e  Tatiana "brincam" com a irmã

 

Maria tinha uma admiração especial pelo pai e era frequente fugir do quarto de brincar para "ir ter com o papá". Uma das suas aias, Miss Eagar recordou um episódio bem evidente do amor da pequena Maria por Nicolau:

 

“Quando ele estava doente na Crimeia, o seu desgosto por não o poder ver era excessivo. Eu tinha de manter a porta do quarto de brincar trancada ou então ela teria fugido para o corredor para o incomodar com os seus esforços para chegar até ele. Todas as tardes, depois do chá, ela sentava-se no chão do lado de fora do quarto de brincar a ouvir atentamente todos os sons que saiam do quarto dele. Se ela ouvisse a voz dele, ela esticava os seus braços pequeninos e chamava “Papá! Papá!”, e a alegria quando a deixaram vê-lo foi grande. Quando a Imperatriz veio ver as crianças na primeira noite depois de ter sido dada a notícia de que o Czar tinha febre tifóide, por acaso, ela estava a usar uma miniatura do Imperador ao pescoço. A meio dos seus soluços e lágrimas, a pequena Maria reparou nela e então subiu para o joelho da Imperatriz e cobriu a fotografia de beijos, e, partir daí, não houve nenhuma noite durante a sua doença em que ela fosse para a cama sem beijar a miniatura.”

 

Maria no meio das suas irmãs Olga e Tatiana

 

Maria e a sua irmã mais nova, Anastasia, eram conhecidas na família pelo "Par Pequeno" por serem as irmãs mais novas. Tal como as irmãs mais velhas, Olga e Tatiana, as duas partilhavam o quarto e passavam grande parte do tempo juntas.

 

Maria e Anastasia eram vestidas de forma semelhante em ocasiões especiais quando usavam variações do mesmo vestido. Maria tendia a ser dominada pela sua entusiástica e energética irmã mais nova. Quando Anastasia fazia rasteiras a pessoas que passavam por elas, troçava de outros ou tinha um ataque de raiva, Maria tentava sempre pedir desculpa, apesar de nunca ter conseguido parar a irmã mais nova.

 

Maria e Anastasia

 

Maria tinha gostos simples e era tão bondosa que, por vezes, as irmãs tiravam vantagem disso e chamavam-na de "fat little bow-wow ". Em 1910, a sua irmã Olga de 14 anos persuadiu Maria de 10 a escrever uma carta à sua mãe onde lhe pedia que desse a Olga o seu próprio quarto e que ela devia ter autorização para usar os seus vestidos. Mais tarde Maria tentou convencer a mãe de que a carta tinha sido ideia sua. A amiga da mãe, Lili Dehn , disse que ela não era tão espevitada como as irmãs, mas que tinha a sua própria opinião.

 

 

Maria e Tatiana em 1907

 

A sua ama relembrou uma história que mostra a bondade quase inocente da pequena Maria:

 

 “Quando regressamos a Czarskoe Selo, a Imperatriz mostrou sintomas de tosse compulsiva. A tosse espalhou-se rapidamente às suas quatro filhas. A ama russa e eu também a apanhamos. Eu tinha dito às crianças para que tivessem muito cuidado para não tossir para ninguém, ou então essa pessoa poderia contrair a doença. Elas foram muito obedientes. Um dia a pequena Grã-Duquesa Anastasia estava a tossir e espirrar muito, quando a Grã-Duquesa Maria foi ter com ela e, pondo a sua cara perto da dela, disse-lhe, “Bebé, querida, tossa para cima de mim.” Espantada com esta atitude, perguntei-lhe o que queria ela dizer e a criança disse, “Tenho tanta pena de ver a minha irmã mais nova tão doente. Pensei que se pudesse ficar com tosse ela pudesse melhorar.”

 

Maria com o pai em 1910

 

Quando Maria tinha 8 anos, teve o seu primeiro contacto com a morte após a sua prima Isabel de Hesse não resistir a um ataque de febre tifóide quando se encontrava de férias com os Romanov na Polónia. Maria fez poucas referências a isso, mas, numa ocasião mostrou lidar bem com o assunto:

“Um dia a Maria estava a ver uma imagem de Nydia, a rapariga cega de Pompeia. Ela perguntou-me por que razão era ela cega. Eu respondi que Deus, às vezes, põe as pessoas cegas e ninguém sabe porquê. Então ela disse, “Eu conheço alguém que sabe.” Eu disse, “Não, querida, acho que não. Ninguém sabe. “A prima Ella (Isabel de Hesse) sabe,” respondeu ela, “ela está no céu a falar com Deus e Ele está-lhe a dizer como é que Ele o fez e porquê.”

 

 

Maria tinha talento para desenhar e fazer caricaturas e usava sempre a mão esquerda, mas era geralmente desinteressada no seu trabalho escolar. Era surpreendentemente forte e, por vezes, divertia-se ao demonstrar como conseguia levantar os seus tutores do chão. Apesar de ser quase sempre simpática e gentil, havia alturas em que ela se tornava teimosa e, ocasionalmente, preguiçosa. A sua mãe queixou-se numa carta de que Maria estava "de mau humor" e estava "sempre a gritar" com as pessoas que a irritavam. Normalmente este mau humor coincidia com o seu período menstrual que era conhecido pela czarina e pelas filhas como "uma visita da Madame Becker ".

 

Maria  durante u ma aula de pintura

 

A jovem Maria tinha inúmeras paixonetas por jovens soldados com quem se encontrava no palácio e durante as férias de família. Ela adorava crianças e, se não fosse uma Grã-Duquesa, o seu maior sonho era casar-se com um soldado russo e ter uma grande família. Segundo Margaretta Eagar, a sua paixão por soldados começou desde muito cedo:

"Um dia a pequena Grã-Duquesa Maria estava a olhar pela janela para um regimento de soldados que marchavam por perto e exclamou: "Adoro estes soldados queridos; Quem me dera poder beijá-los a todos!" Eu disse: "Maria, meninas bem comportadas não beijam soldados." Alguns dias mais tarde, houve uma festa para crianças e os filhos do Grão-Duque Constantino estavam entre os convidados. Um deles tinha já 12 anos, tinha entrado para os cadetes e veio envergando o seu uniforme. Ele queria cumprimentar a pequena prima com um beijo, mas ela cobriu a boca com a mãe e afastou-se e disse com grande dignidade: "Vai-te embora soldado! Eu não beijo soldados." O rapaz ficou satisfeito por ser confundido com um soldado de verdade."

 

 

 

As cartas de Alexandra revelavam que a filha do meio da família, sentia-se, por vezes, insegura e excluída pelas suas irmãs mais velhas e temia que não fosse tão amada pelos pais como as outras. Alexandra assegurou-lhe de que todos a adoravam tanto como adoravam as irmãs e o irmão Alexis. Com 11 anos há relatos de que Maria desenvolveu uma dolorosa paixão por um jovem que tinha conhecido.

"Tenta não deixar os teus pensamentos prenderem-se nele,  foi isso o que o Nosso Amigo (Rasputin) disse," escreveu-lhe Alexandra no dia 6 de Dezembro de 1910. A sua mãe aconselhou-a a manter os seus sentimentos escondidos porque outras pessoas podiam dizer coisas pouco simpáticas sobre a sua paixoneta. "Não devemos deixar os outros ver o que sentimos por dentro, quando eles sabem que não é considerado próprio. Eu sei que ele gosta de ti como uma irmã e ajudar-te-ia a não te importares demais, porque ele sabe que tu, uma pequena Grã-Duquesa, não lhe deves dar grande importância.”

 

 


Maria rodeada da família em

 

Maria e as suas três irmãs eram, tal como a sua mãe, potenciais portadoras do gene da hemofilia. Um dos irmãos e dois sobrinhos de Alexandra, tal como dos seus tios maternais e muitos outros membros da sua família, eram já hemofílicos antes de a doença ser diagnosticada a Alexis, irmão mais novo de Maria. Ela própria teve uma grave hemorragia em Dezembro de 1914 durante uma operação para remover as amígdalas, de acordo com a sua tia, a Grã-Duquesa Olga Alexandrovna da Rússia, que foi entrevistada mais tarde na sua vida.   O médico que fez a cirurgia ficou tão enervado que teve de receber ordens para continuar por parte da mãe de Maria, Alexandra. Olga Alexandrovna acreditava que todas as quatro sobrinhas sangravam mais do que o normal e que eram portadoras do mesmo gene de hemofilia que a mãe.

 

Maria com o seu irmão Alexis

 

Por serem demasiado novas para serem enfermeiras quando a I Guerra Mundial rebentou, Maria e Anastasia limitaram-se a visitar soldados feridos no hospital onde trabalhavam as irmãs e a mãe. As duas adolescentes jogavam xadrez e bilhar com os soldados e tentavam animá-los. Um soldado ferido chamado Dimitri assinou o bloco de notas de Maria tratando-a pela sua alcunha.

 

Maria e Anastasia visitam  um hospital durante a I Guerra Mundial

 

Durante a guerra, Maria e Anastasia também visitavam a escola de enfermagem e ajudavam a cuidar das crianças. Quando queriam fazer uma pausa durante a guerra, Maria, as irmãs e a mãe visitavam às vezes o pai e o irmão Alexis quando eles estavam no quartel general em Mogilev. Durante estas visitas, Maria começou a sentir-se atraída por Nikolai Dmitrievich Demenkov, um oficial do quartel general. Quando voltavam a Tsarskoye Selo era frequente que ela pedisse ao pai para mandar cumprimentos seus a Demenkov e até chegava a assinar as cartas que enviava ao czar como "Senhora Demenkov".

 

 

Maria em 1914

 

A Revolução rebentou em São Petersburgo na Primavera de 1917. No pico do caos, as irmãs de Maria e irmão Alexis adoeceram com sarampo. A czarina manteve-se relutante em enviar os filhos para a sua residência segura em Gatchina, mesmo tendo sido aconselhada para o fazer. Maria foi a última dos cinco irmãos a adoecer e, enquanto esteve saudável, era a maior fonte de apoio da sua mãe. Maria foi rezar com os soldados que ainda se mantinham leais ao czar, com a mãe na noite de 13 de Março de 1917. Pouco depois, a adolescente de 17 anos adoeceu com sarampo ao qual se seguiu uma violenta pneumonia. Ao longo dos dias o seu estado de saúde complicou-se mais do que o esperado e chegou a ser necessário a ajuda artificial para respirar por ter os pulmões bloqueados. Durante a sua doença, Maria costumava ter pesadelos onde soldados desconhecidos matavam a sua mãe. Foi devido ao seu grave estado de saúde que o Governo Provisório não insistiu para que, pelo menos os filhos, abandonassem rapidamente o país.

 

Maria em 1915

 

O seu médico chegou mesmo a afirmar que não havia esperança de que a terceira Grã-Duquesa conseguisse sobreviver mais uma noite e pediu à Dama-de-Companhia da Czarina que a preparasse para a morte da filha, mas esta recusou-se afirmando que Alexandra tinha já muito com que se preocupar depois da abdicação do czar e sabia perfeitamente da gravidade do estado de saúde da filha. Eventualmente, contra todas as probabilidades, Maria conseguiu passar a noite e começou a recuperar nos dias que se seguiram. Foi apenas quando estava quase completamente recuperada que recebeu a notícia da abdicação do pai. Nesta altura, o Governo Provisório começava já a perder a sua influência para os bolcheviques e era tarde demais para a família deixar o país.

Anastasia, Maria e os pais num momento de descanço

 

A família foi capturada e presa, primeiro na sua casa em Czarskoe Selo e mais tarde em residenciais de Tobolsk e Ekaterinburgo, na Sibéria. Maria tentou ser amável com os guardas em ambos os locais e aprendeu depressa os seus nomes e detalhes sobre as suas mulheres e filhos. Inconsciente do perigo a que estava sujeita, comentou em Tobolsk de que seria feliz se vivesse lá para sempre se a deixassem passear pelo jardim sem ser acompanhada pelos guardas continuamente. Maria e a irmã Anastasia queimaram as suas cartas e diários em Abril de 1918 por temerem que as suas coisas fossem revistadas.

 

Maria  com  Anastasia  e  Tatiana  em  Tobolsk  (1917)

 

A Czarina Alexandra escolheu Maria para a acompanhar a si e a Nicolau II quando receberam ordens para serem transferidos para Ekaterinburgo e a família ficou separada durante um mês em Abril de 1918. De acordo com Sophie Buxhoevden, uma empregada que acompanhou a família, Maria tinha crescido muito durante os meses em que esteve presa com a família e a czarina sentia que podia confiar na sua terceira filha para a ajudar, uma vez que já não podia contar com a deprimida Olga nem com Anastasia que continuava a ser uma criança. Tatiana ficou para tomar conta do irmão Alexis.

 

Nas cartas que enviou às irmãs nesta nova fase, Maria descreveu a sua preocupação para com as novas restrições a que a família foi sujeita. Ela e os pais foram revistados pelos guardas da Casa Ipatiev e avisados de que novas inspecções iriam surgir enquanto lá estivessem. Foi também construída uma vedação que limitava a vista para a rua. "Que complicado é tudo agora," escreveu ela no dia 2 de Maio de 1918. "Vivemos tão pacificamente durante 8 meses e agora começou tudo de novo."

 

Maria (2ª da  direita)  e  os  irmãos  após   perderem  o  cabelo  após  ganharem  sarampo

 

Maria ocupou o tempo tentando fazer novas amizades com os guardas da "Casa Para Fins Especiais". Mostrou-lhes fotografias do seu álbum e conversou com eles sobre as suas famílias e as suas próprias esperanças para a nova vida em Inglaterra se fosse libertada. Alexander Strkotin, um dos guardas, recordou com apreço a sua beleza vigorosa e disse que ela nunca mostrou nenhum ar de grandeza.

 

Um antigo sentinela recordou que Maria era frequentemente levada pela sua mãe com "murmúrios severos e zangados", aparentemente por ser demasiado simpática com os guardas. Strekotin escreveu que as suas conversas começavam sempre com uma das raparigas a dizer: "Estamos tão aborrecidas! Em Tobolsk tinhamos sempre alguma coisa para fazer. Já sei! Tentem adivinhar o nome deste cão!" As adolescentes passavam pelos sentinelas a sussurrar e a dar rizadas de uma forma que eles consideravam "sedutora".

 

 

Tobolsk, 1917

 

Quando um dia um dos guardas contou uma anedota obscena às filhas do czar, deixando Tatiana bastante perturbada. Maria olhou-o nos olhos e disse, "Porque não se sentem enojados por vocês mesmos quando usam essas palavras vergonhosas? Não imaginam que podem ofender uma mulher bem nascida com elas e pô-la contra vocês? Tenham mais respeito e então nós podemos dar-nos todos bem." Ivan Kleschev, um guarda de 21 anos, declarou de que tinha intenções de casar com uma das Grã-Duquesas e, se os pais dela recusassem, ele a salvaria da Casa Ipatiev.

 

Maria  em 1915

 

Ivan Skorokhodov, um outro guarda da casa, conseguiu trazer um bolo de aniversário para comemorar os 19 anos de Maria no dia 26 de Junho de 1918. Maria afastou-se com ele do grupo para um momento privado e foram descobertos por dois dos seus superiores que resolveram fazer uma inspecção surpresa à família. Skorokhodov foi removido da sua posição pouco depois e por manter amizade com uma prisioneira. Nas suas memórias, vários guardas afirmaram que tanto a czarina como a sua irmã Olga pareceram zangadas com Maria nos dias que se seguiram ao incidente e Olga evitava mesmo a sua companhia.

 

 

Maria e  Olga

 

Na noite de 17 de Julho de 1918, toda a família foi executada na cave da Casa Ipatiev, no entanto o que verdadeiramente terá acontecido a Maria e à sua irmã Anastasia permaneceu um dos maiores mistérios do século XX que só muito recentemente foi desvendado.

 

Maria  e  Anastásia  em 1912

 

De acordo com o relato de um dos assassinos, Maria terá conseguido fugir e chegou até a um armazém onde bateu à porta, desesperada, pedindo ajuda. Mais tarde terá sido atingida por um tiro do Comissário Peter Emakov, que também a terá tentado esfaquear com a baioneta da arma e depois lhe deu um tiro na cabeça, mas pode ter falhado o alvo. Também se diz que ela poderá ter desmaiado e que conseguiu permanecer viva até que os corpos foram inspeccionados para que se tivesse a certeza de que toda a família estava morta. Maria terá gritado, o que fez com que fosse esfaqueada novamente. Quando a nova tentativa também falhou, diz-se que Emakov a terá agredido até ela se calar. Até hoje, mesmo tendo-se encontrado todos os corpos a sua causa de morte continua a ser desconhecida.

 

Maria  no  iate da  família

 

A suspeita de que Maria teria sobrevivido ao massacre voltou a ser considerada quando os corpos da família e empregados que os acompanhavam foram descobertos e analisados em 1991. Logo no dia em que se procedeu à abertura da sepultura, se chegou à conclusão de que faltavam dois corpos.

 

Após a análise dos corpos com a mais alta tecnologia da altura houve um dilema entre a equipa de cientistas americana e a russa, uma vez que os primeiros afirmavam que os corpos que faltavam eram os de Alexis e Anastasia e os outros diziam ter a certeza de que se tratava de Alexis e Maria.

 

Maria  em 1913

 

O assunto da possível sobrevivência de Maria é mesmo retratado de uma forma fantasiada no livro "The Kitchen Boy - Os últimos dias dos Romanov " de Robert Alexander que conta a história de um suposto ajudante de cozinha que viveu com a família real os dias de exílio na Casa Ipatiev e acaba por salvar a Grã-Duquesa .

 

Anastasia, Alexis, Alexandra e Maria em 1910

 

No dia 23 de Agosto de 2007, um arqueólogo russo anunciou que tinha descoberto partes de dois esqueletos queimados perto do local onde foram encontrados os restantes Romanov. Após 8 meses de exames intensivos complicados por diversas vezes devido ao avançado estado de deterioração dos restos mortais, no dia 30 de Abril de 2008, foi anunciado durante uma conferência de imprensa que os corpos pertenciam a Alexis e Maria, terminando assim um dos maiores mistérios do século XX.

Agora preparam-se os últimos pormenores para que os dois membros perdidos dos Romanov se juntem à sua família na Fortaleza de Pedro e Paulo onde se encontram enterrados todos os czares e famílias desde Pedro, o Grande.

 

Maria foi assasinada na noite de 17 de Julho de 1918, menos de um mês depois de completar 19 anos

música: Julien Doré - "Les Limits"

publicado por tuga9890 às 21:49
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Domingo, 29 de Junho de 2008

Biografia - Tatiana Nikolaevna

 

Tatiana Nikolaevna Romanova foi a segunda filha de Nicolau II e Alexandra da Rússia, nascida no dia 10 de Junho de 1897 no Palácio de  Peterhof.

 

Tatiana nos braços da mãe em 1897

 

Tatiana é descrita como alta e elegante, de cabelos negros e olhos verdes acinzentados. Era considerada a mais bonita das quatro grã-duquesas por muitos membros da corte.

Tal como as restantes crianças Romanov, Tatiana foi criada com alguma austeridade. Ela e as irmãs dormiam em camas amovíveis, sem almofadas, tomavam banhos frios de manhã e esperava-se sempre que estivessem ocupadas com bordados ou tricotados nos seus tempos livres. Os seus trabalhos eram oferecidos a bazares de solidariedade. De acordo com uma história, Tatiana, habituada a ser tratada apenas pelo seu nome e alcunhas, ficou desorientada quando a baronesa Sofia Buxhoeveden lhe chamou de "Vossa Alteza Imperial" e perguntou-lhe: "É maluca para me tratar assim?"

 

Tatiana com o seu pai Nicolau II e a irmã Olga em 1901, na Dinamarca

 

Tatiana e a irmã mais velha, Olga, eram conhecidas como "O Par Grande". Tal como as duas irmãs mais novas, as duas mais velhas partilhavam o quarto e eram muito próximas uma da outra desde os inícios da infância.

 

 

Olga e Tatiana em 1900

 

Na primavera de 1901, Olga teve febre tifóide e ficou confinada a um quarto durante várias semanas, longe das suas irmãs. Quando começou a melhorar foi-lhe dada autorização para ver Tatiana durante 5 minutos, mas esta não a reconheceu. Quando a sua governanta, Margaretta Eagar, lhe disse que a criança com quem esteve a falar era Olga, Tatiana de 4 anos começou a chorar amargamente e protestou dizendo que a pálida criança não podia ser a sua a sua adorada irmã. Eagar teve dificuldade em persuadi-la de que Olga podia recuperar. O tutor francês, Pierre Gilliard , escreveu que as duas irmãs eram "apaixonadamente devotas uma à outra."

 

Olga e Tatiana em 1906

Tatiana era prática e tinha um talento natural para a liderança. As irmãs deram-lhe a alcunha de "A Governanta " e enviavam-na como a sua representante quando queriam pedir alguma coisa aos pais. Apesar de ser 18 meses mais nova do que Olga, esta não tinha objecções quando Tatiana decidia tomar conta da situação. Ela era também mais próxima da mãe do qualquer das outras irmãs e era considerada por muitos que a conheciam, a filha preferida da czarina.

 

"Não era que as outras irmãs gostassem menos da mãe," recordou Pierre Gilliard , "mas a Tatiana sabia como rodeá-la de atenções sem limite e nunca abriu caminho para que a mãe tivesse impulsos caprichosos." Alexandra escreveu a Nicolau no dia 13 de Março de 1916 que Tatiana era a única das suas 4 filhas que compreendia logo quando ela explicava a sua visão das coisas.

 

Tatiana e Alexandra em 1909

 

Gilliard escreveu que Tatiana era reservada e "equilibrada" mas menos aberta e espontânea que Olga. Era também menos talentosa do que a irmã mais velha, mas trabalhava mais e era mais dedicada a projectos práticos. O coronel Kobylinsky , guarda da família em Czarskoye Selo e Tobolsk , sentia que Tatiana "não tinha nenhuma ligação com Arte. Talvez fosse melhor para ela ter sido um homem." Outros tinham a impressão de que os talentos artísticos da grã-duquesa eram mais visíveis em trabalhos manuais e na moda, tanto no vestuário como no cabelo. A amiga da sua mãe, Anna Vyrubova, escreveu mais tarde que Tatiana tinha um grande talento para desenhar roupa e croché e que era ela que penteava o longo cabelo da mãe como um cabeleireiro profissional.

 

1906 em Peterhof

 

Quando se tornou adolescente, um regimento de soldados foi oferecido a Tatiana que recebeu o titulo de coronel. Ela e Olga, que também tinha o seu próprio regimento, costumavam ir inspeccionar os soldados regularmente, o que gostavam bastante. Quando tinha quase 14 anos, uma Tatiana doente implorou à sua mãe que lhe desse permissão para sair da cama e fazer a inspecção aos soldados, para que se pudesse encontrar com um soldado com quem simpatizava particularmente. "Gostava tanto de ir à inspecção da segunda divisão, uma vez que sou a segunda filha e a Olga já foi, portanto é a minha vez," escreveu a Alexandra no dia 20 de Abril de 1911. "Sim, mamã, e na segunda divisão irei ver quem devo ver... tu sabes quem."

 

Olga e Tatiana com o uniforme dos seus regimentos (1913)

 

No Outono de 1911, Tatiana, de 14 anos, testemunhou o primeiro acto de violência quando assistiu ao assassinato do Primeiro-Ministro Pyotr Stolypin durante um espectáculo na Casa da Opera de Kiev. Tanto ela como a sua irmã Olga tinham seguido o pai para a sua tribuna no local e viram o disparo. O seu pai escreveu mais tarde à sua mãe, a Imperatriz Maria Feodorovna, no dia 10 de Setembro de 1911, e disse que a situação tinha perturbado ambas as filhas. Tatiana entrou em pânico e ambas tiveram dificuldades a dormir nessa noite

 

Tatiana com o pai na Finlândia em 1912. (Anastasia na direita)

 

Na Primavera de 1913, Tatiana sofreu de Febre Tifóide e, para seu desgosto, perdeu todo o cabelo.

 

Primavera de 1913 com a mãe Alexandra

Um ano mais tarde, quando rebentou a Primeira Guerra Mundial, Tatiana tornou-se enfermeira pela Cruz Vermelha juntamente com Olga e a mãe de ambas. Elas cuidaram de soldados feridos num hospital privado em Czarskoye Selo. De acordo com relatos dessa altura, "Tatiana era quase tão competente e empenhada quanto a mãe e apenas se queixava do facto de, devido à sua idade, ser poupada de casos mais exigentes."

 

Tatiana no seu uniforme de enfermeira em 1915

 

Tatiana era muito patriótica e pediu desculpas numa carta datada de 29 de Outubro de 1914 pelos comentários negativos feitos aos alemães na presença da sua mãe nascida nesse país. Explicou que se esqueceu que a sua mãe tinha nascido na Alemanha porque a via apenas como russa. A czarina respondeu que também se sentia assim e que a sua filha não a tinha insultado com as suas palavras afiadas, mas sentiu-se magoada pelos rumores que circulavam entre o povo russo de que ela era uma espia alemã.

 

Tatiana com a mãe nos inicios de 1914

 

No dia 15 de Agosto de 1915, Tatiana escreveu uma outra carta à mãe onde expressava o seu desejo de a ajudar a carregar os fardos trazidos pela guerra: "Simplesmente não te consigo dizer como estou triste por ti e por todos. Tenho tanta pena que não te possa ajudar ou ser útil. Em momentos assim, tenho pena de não ser um homem." À medida que crescia para a idade adulta, Tatiana começou a participar em mais ocasiões públicas do que as irmãs.

 

Nicolau II, Tatiana e Olga em 1915

 

Nesta altura, Tatiana era a mais conhecida das irmãs devido à sua atenção pelo dever e a amabilidade com que recebia aqueles que conhecia.   A segunda filha do czar é recordada como a mais sociável das irmãs, procurando longas amizades com pessoas da sua idade, no entanto a sua vida social era restringida devido ao seu estatuto e ao facto de a mãe não gostar de ocasiões sociais. Tinha também um lado mais introspectivo, conhecido pelos seus amigos mais próximos e família. "Com ela, tal como com a mãe, a timidez e as reservas eram características, mas, assim que a conhecessem melhor e ganhassem a sua admiração, essa timidez desaparecia e a verdadeira Tatiana aparecia," recordou uma amiga da sua mãe. "Ela era uma criatura poética, sempre à procura do ideal, e a sonhar com grandes amizades que poderiam pertencer-lhe.

 

Tatiana em 1916

 

Chebotareva , uma amiga da mãe, que disse adorar a "doce" Tatiana quase como uma filha, descreveu como a grã-duquesa lhe segurou a mão quando estava nervosa ao caminhar em frente de um grande grupo de enfermeiras. "Estou tão terrivelmente envergonhada e assustada... não sei quem cumprimentar e quem não devo cumprimentar," disse-lhe Tatiana. A sua  informalidade também impressionou o filho de Chebotareva , Gregório. Uma vez Tatiana ligou-lhe para que ela aparecesse em sua casa e falou primeiro com o seu filho de 16 anos. Gregório ficou chateado quando ela o tratou pelo seu diminutivo Grisha). Não sabendo quem estava a falar do outro lado, o frontal Gregório pediu à filha do czar que se identificasse, ao que ela respondeu, "Tatiana Nikolaevna ". Quando ele lhe perguntou outra vez, ainda sem acreditar que estava a falar com uma Romanov , Tatiana continuou sem revelar o seu titulo imperial de Grã-Duquesa " e respondeu que era "A segunda irmã Romanov ".

 

Com os pais em 1916

 

Numa outra ocasião durante a guerra, quando uma mulher que normalmente as levava do hospital até casa não as pôde ir buscar e enviou uma carruagem sem nenhum vigilante, Tatiana e a irmã Olga decidiram ir às compras pela primeira vez. Ordenaram que a carruagem parasse perto de uma zona de lojas e entraram numa delas, onde ninguém as reconheceu devido à sua farda de enfermeiras. Voltaram sem comprar nada quando se aperceberam de que não tinham dinheiro com elas e, mesmo que o tivessem, não iriam saber como  o usar. No dia seguinte pediram a Chebotareva que as ensinasse a usar dinheiro.

 

Olga e Tatiana em 1916

 

A família partiu para o exílio após a Revolução Russa de 1917. Depois de um curto período em Czarskoe Selo, foram enviados para uma residência privada em Tobolsk . A mudança drástica de circunstâncias e a incerteza sobre o que iria acontecer, afectou Tatiana, tal como o resto da família. "Ela aborrece-se sem trabalho," escreveu a sua colega enfermeira Valentina Chebotarev depois de receber uma carta dela a 16 de Abril de 1917.

 

"É estranho sentar-me de manhã em casa, estar de boa saúde e não ir mudar ligaduras!" escreveu Tatiana a Chebotareva . Tatiana, aparentemente tentando defender a sua mãe,  perguntou à sua amiga Margarita Khitrovo numa carta datada de 8 de Maio de 1917, o porquê de as suas colegas enfermeiras não escreviam directamente a Alexandra. Chebotavera escreveu no seu diário que, enquanto tinha pena do resto da família, não conseguia escrever directamente à imperatriz porque a culpava pela revolução. "Se alguém deseja escrever-nos, então que escrevam directamente," escreveu a filha do czar à "minha adorada" Chebotareva no dia 9 de Dezembro de 1917 depois de exprimir a sua preocupação pelas enfermeiras e por um paciente que tinham tratado juntas uma vez. O filho de Chebotareva , Gregório Tschebotarioff , reparou na "firmeza e energia da sua escrita" e como a letra "reflectia a natureza que fazia com que a sua mãe a estimasse tanto."

 

Com o pai e o primo Dimitri no último Verão de liberdade em 1916

O tutor inglês de Tatiana, Sydney Gibbes , recordou que a sua estudante emagreceu bastante durante o seu aprisionamento e parecia "mais distante" e mais misteriosa para ele do que sempre. Em Abril de 1918 os bolcheviques transferiram Nicolau, Alexandra e Maria para Ekaterinburgo. Os restantes filhos ficaram em Tobolsk devido ao facto de Alexis ter sofrido um outro ataque de hemofilia e não estar em condições para a longa viagem.   Foi Tatiana quem persuadiu a mãe a "parar de se atormentar a ela própria" e decidir ir com o marido, deixando Alexis para trás. Alexandra decidiu que a sua forte filha devia ficar também para trás para tomar conta de Alexis.

 

Exilio no Palácio de Alexandre com Anastasia na Primavera de 1917

 

Durante o mês que passaram separadas dos pais e da irmã, Tatiana, Olga, Anastasia e uma empregada que tinha ficado com elas, mantinham-se ocupadas a coser pedras preciosas e todo o tipo de jóias por dentro das suas roupas, para as esconderem dos seus guardas. Tatiana e as irmãs ficaram mais tarde chocadas quando foram assediadas sexualmente pelos guardas a bordo do navio "Rus" que as levou de Tobolsk para Ekaterinburgo em Maio de 1918. Os guardas seguiam as pistas de um ou mais empregados no grupo e procuravam as jóias. Sydney Gibbes foi assombrado durante o resto da sua vida pela memória dos gritos aterrorizados das filhas do czar e pelo facto de não poder fazer nada para as ajudar

 

Olga, Tatiana, Pierre Gilliard, Sydney Gibbs e outros servos na sala de jantar de Tobolsk. Abril 1918)

 

Pierre Gilliard recordou mais tarde a última vez em que viu Olga, Tatiana, Anastasia e Alexis quando foram separados em Ekaterinburgo. "O marinheiro Nagorny, que sempre tomou conta de Alexis Nikolaevitch, passou pela minha janela com o rapaz doente nos braços, atrás dele vinham as grã-duquesas carregadas com malas e pequenos pertences pessoais. Eu tentei sair, mas fui empurrado bruscamente para a carruagem por um guarda. Voltei para a janela. Tatiana Nikolaevna vinha em último, carregando o seu pequeno cão e a esforçar-se por arrastar a sua grande e pesada mala castanha. Estava a chover e vi os pés dela a enterrarem-se mais profundamente na lama a cada passo que dava. Nagorny tentou ajudá-la; foi empurrado bruscamente por um dos guardas."

 

Uma das últimas fotos de Tatiana em Tobolsk

 

Em Ekaterinburgo, Tatiana juntava-se ocasionalmente às suas irmãs mais novas em conversas com alguns dos guardas. Nelas falavam de chá, perguntavam-lhes sobre as suas famílias e falavam sobre as suas esperanças para uma nova vida em Inglaterra quando fossem libertadas. Numa ocasião, um dos guardas esqueceu-se que estava a falar com um membro da realeza e contou uma anedota obscena. Tatiana, chocada, fugiu da sala, "pálida como a morte" e a sua irmã Maria repreendeu os guardas pela sua má linguagem. Ela "era simpática com os guardas se achasse que eles se estavam a comportar de modo aceitável e prendado," escreveu um dos guardas nas suas memórias. Tatiana, que continuava a ser a líder da família, era enviada muitas vezes pelos pais para questionar os guardas sobre as regras ou sobre o que lhes aconteceria. Também passou muito tempo sentada ao lado da mãe, a quem lia) e do irmão mais novo, com quem jogava jogos para ocupar o tempo.

 

As últimas palavras que Tatiana escreveu no seu diário em Ekaterinburgo foram uma transcrição das palavras do padre Ioann de Kronstadt: "A vossa raiva não tem medida, a raiva do Senhor nos Jardins de Getsêmani, pelos pecados do mundo não tem medida, juntem a vossa raiva à Dele, e nela encontrarão conforto."

 

Na tarde de 16 de Julho de 1918, o seu último dia completo de vida, Tatiana sentou-se com a sua mãe e leu excertos bíblicos do Livro de Amos e Obadia, escreveu Alexandra no seu diário. Mais tarde as duas simplesmente falaram uma com a outra

 

 

Tatiana Romanova foi assassinada na noite de 17 de Julho de 1918 juntamente com a sua família quando tinha 21 anos.

música: Jimmy Eat World - "Kill"

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Sábado, 28 de Junho de 2008

Biografia - Olga Nikolaevna (2ª parte)

Quando Gilliard conheceu as suas alunas melhor, reparou que Olga possuía um cérebro extraordinariamente rápido, tinha um bom raciocínio e também era muito independente nos seus pensamentos. “Ela causou-me alguns problemas a princípio, mas os nossos olhares de fúria foram rapidamente substituídos por uma relação franca e cordial. Ela compreendia tudo extremamente depressa e conseguia sempre dar um reviravolta original aquilo que aprendia.”

  

Apesar de Olga ser, defenitivamente, a mais inteligente das irmãs, acabou por desiludir o seu professor no final. “A Olga Nikolaevna não cumpriu as esperanças que eu tinha nela. A sua inteligência falhou ao tentar encontrar os elementos necessários ao seu desenvolvimento. Em vez de progredir, ela começou a recuar. As irmãs dela nunca tinham tido muito gosto em aprender, uma vez que os seus dons se prendiam mais com coisas práticas."

 

Olga no "Standart" em 1907

 

De toda a família (incluindo o Czar), Olga era talvez a que estava melhor informada sobre a situação política da Rússia devido às amizades que mantinha com pessoas fora do palácio e ao seu hábito diário de ler o jornal no escritório do pai. A sua mente inteligente juntava rapidamente as peças e, por causa disso, tornou-se na companheira preferida do pai nos seus últimos anos. Nicolau e a sua filha mais velha costumavam dar longas caminhadas pelo parque do palácio ou ficar sentados no escritório a discutir os problemas mais complicados da Rússia. Ao contrário do Czar, Olga tinha uma grande força de vontade e não era fácil fazê-la mudar de opinião depois de ter o seu próprio ponto de vista em determinados assuntos.

 

Olga com os pais

 

 

Olga era também a mais sensível das irmãs. Desde a infância ela sofria com aqueles que sentiam raiva ou dor. Enquanto estava na Polónia, ela viu as pessoas a ajoelhar-se na estrada sempre que a carruagem das crianças passava. A pequena Grã-Duquesa costumava olhar para eles com os olhos cheios de lágrimas e implorava à ama para lhes dizer que não o fizessem. Durante a Guerra Russo-Japonesa de 1904, quando Olga tinha 9 anos disse uma vez à ama que gostava que todos os japoneses fossem mortos pelos russos sem que sobrasse ninguém. A ama explicou-lhe que eles tinham mulheres e filhos como os russos e respondeu às inúmeras perguntas da Grã-Duquesa sobre o país desconhecido. No final, Olga disse: “Eu não sabia que os japoneses eram pessoas como nós, pensava que eram só macacos.” A partir desse dia nunca mais voltou a dizer uma palavra contra eles e evitava estar perto de pessoas que falassem do assunto.

 

Quando cresceu, Olga passou a sacrificar a sua pequena mesada para ajudar aqueles que precisassem de uma forma anónima para não chamar as atenções. Quando ela completou 20 anos e começou a utilizar o seu próprio dinheiro, a primeira coisa que fez foi pedir autorização à mãe para pagar o tratamento de uma criança que tinha conhecido nas ruas de São Petersburgo.

 

Olga com a mãe

 

 

Quando Olga completou 16 anos era já considerada uma adulta e foi organizado um grande baile em sua honra no Palácio de Livadia. Como presente de aniversário recebeu dos pais um anel de diamante e um colar de diamantes e pérolas. O seu primeiro vestido de baile era cor-de-rosa e translúcido e a Grã-Duquesa passou o dia entusiasmada com as festividades. O seu cabelo loiro foi levantado pela primeira vez e ela aguentou-se como figura central com grande modéstia e dignidade, para o orgulho dos pais.

 

A festa no dia do seu aniversário foi apenas a primeira de uma série de festejos nos quais Olga e a sua irmã mais nova Tatiana participaram. Além do baile dado em Livadia, houve outros celebrados em Czarskoe Selo. Dois deles foram organizados pelos Grão-Duques Pedro e Jorge e elas divertiram-se tanto que imploraram por um novo baile antes do Natal.

 

Olga a dançar com o pai na festa dos 16 anos em 1911

 

Como filha mais velha do homem mais rico do mundo, Olga era uma das noivas mais desejadas da Europa. Os casamentos estrangeiros eram, no entanto, complicados devido ao problema da religião. Além disso os pais de Olga não aceitavam um casamento sem amor para a sua filha. Alexandra escreveu: “Penso com angústia no futuro delas – tão desconhecido! Bem, tudo deve ser posto nas mãos de Deus com confiança e fé. A vida é uma adivinha, o futuro está escondido atrás de uma cortina e quando eu olho para a nossa Olga crescida, o meu coração enchesse de emoção e de perguntas sobre o que está reservado para ela – com quem se irá casar?”

 

 

Houve uma vaga esperança de que Olga se pudesse vir a casar com o Príncipe Eduardo de Gales (chamado de David entre a família e futuro rei Eduardo VIII). Quando ela tinha 15 anos, um grupo de guardas que seguia a bordo do iate imperial brincou com ela dando-lhe um retrato do príncipe que tinham cortado de um jornal como presente para o seu Dia do Nome. “A Olga riu-se muito,” escreveu uma Tatiana ofendida à sua tia Olga Alexandrovna, “e nenhum dos guardas deseja confessar que foi ele que o fez.” Também houveram rumores de que Olga tinha ficado noiva do Grão-Duque Dmitri Pavlovich, mas acabaram rapidamente quando ele se envolveu no assassinato de Rasputine.

 

Olga com um oficial no iate Standart

 

 Nos inicio de 1914, Olga recebeu a sua primeira proposta de casamento formal. O seu protagonista foi o Príncipe Cristóvão da Grécia, filho de uma Grã-Duquesa russa, que estava de visita a familiares e ficou encantado com o charme e beleza da jovem de 19 anos. O príncipe (de 25 anos) era conhecido pela sua natureza impulsiva e decidiu pedir a mão de Olga ao seu pai. Nicolau riu-se e respondeu que a sua filha era demasiado nova para pensar em casamento.

 

Na verdade, o Czar tinha já planos definidos para a sua filha mais velha. A sua vontade era vê-la casada com o Príncipe Carlos da Roménia (futuro rei Carlos II). Nicolau e Alexandra já tinham convidado os pais dele para visitar Czarskoe Selo e, apesar de nem Carlos nem Olga mostrarem grande interesse um pelo outro, o Czar não perdeu a esperança. Em 1914 a Família Imperial fez uma visita à Roménia a bordo do Iate Imperial. Durante esta visita, Olga fez os possíveis para se manter longe do Príncipe e pouco falou com ele. A mãe de Carlos, a Rainha Maria da Roménia, também não ficou impressionada com Olga, achando-a demasiado brusca e a sua cara redonda “não muito bonita”. A razão principal pela qual Olga rejeitou um possível casamento com Carlos, como mais tarde contou a Gilliard, foi pelo facto de desejar ficar na Rússia e mão ter intenções de mudar de religião.

 

Olga em 1913

 

 

Outra das razões que podem ter levado Olga a recusar um casamento tão cedo pode ter sido um guarda chamado Pavel Voronov pelo qual ela se tinha apaixonado durante o cruzeiro de Verão de 1913. Ela sabia que era um romance sem futuro, mas mesmo assim ficou magoada quando ele se casou alguns meses depois de ambos se terem conhecido. No dia do seu casamento, ela escreveu no diário: “Que Deus te conceda muita felicidade, meu adorado. É triste, incomodativo.”

 

Assim que chegou à idade adulta, as propostas de casamento aumentaram. A Grã-Duquesa Maria Pavlovna, tia do Czar, quis que Olga se casasse com o seu filho Boris, 18 anos mais velho do que ela. Fez uma proposta oficial quando a família estava de férias em Peterhof, mas Alexandra conhecia bem a reputação dele, conhecido por se movimentar em círculos duvidosos de Paris e, com o apoio de Nicolau, recusou a proposta. Maria Pavlovna nunca os perdoou por rejeitar a proposta do filho e considerava as aventuras do filho simples impulsos naturais de um homem solteiro.

 

 

 

Quando a Primeira Guerra Mundial rebentou em Agosto de 1914, a vida de Olga e da família mudou completamente. A Czarina Alexandra sempre se viu como a mãe da nação, por isso sentiu necessidade de abrir e fundear vários hospitais para soldados por toda a cidade. Além disso, juntamente com as duas filhas mais velhas, tirou o curso da Cruz Vermelha e as três tornaram-se enfermeiras. Quando chegavam os feridos do campo de batalha, não lhes era poupado quase nada. Para a sensível Olga era difícil assistir à dor e desperdício da guerra. Nos primeiros tempos assistiu a operações, tratou dos feridos e tentou ajudá-los a esquecer a dor depois dos tratamentos. No entanto, ela era demasiado frágil e não estava preparada para a vida caótica de um hospital. Numa carta ao seu pai, a irmã mais nova de Olga, Maria, contou que ela tinha partido três vidros de uma janela com um guarda-chuva durante um ataque de fúria. No dia 19 de Outubro de 1915 foi-lhe entregue trabalho de escritório no hospital, uma vez que ela estava demasiado cansada e nervosa para continuar o trabalho prático. Durante este período foram-lhe dadas injecções de arsénio, o tratamento da época para depressões ou esgotamentos. A partir daí ela passou apenas a supervisionar o trabalho, uma vez que, segundo relatos de colegas enfermeiras, “ela trabalhou até não ter forças e acabou por ficar nervosa e anémica.”

 

Olga com o uniforme de enfermeira da Cruz Vermelha (1915)

 

 

Apesar do trabalho no hospital ser esgotante, também foi nessa altura que Olga viveu um dos períodos mais felizes da sua vida. De acordo com Valentina Chebotareva (uma enfermeira no mesmo hospital), a Grã-Duquesa apaixonou-se por um dos soldados feridos, chamado Dmitri Chakh-Bagov. A enfermeira acrescentou também que o amor que Olga sentia por ele era “puro, ingénuo e sem espernaças” e ela fez os possíveis para esconder os seus sentimentos de outras pessoas. Olga falava frequentemente com ele ao telefone, ficou deprimida quando ele saiu do hospital e saltava de entusiasmo quando recebia uma carta dele. O soldado adorava-a e dizia muitas vezes que era capaz de matar Rasputine por ela quando ela quisesse. Para além de Dmitri havia um outro soldado (Volodia Volkomski) que se tinha apaixonado por ela.

 

Olga em 1916

 

 

Em finais de Fevereiro de 1917, Olga e o seu irmão mais novo, Alexis, foram os primeiros a sofrer de um ataque de sarampo que contraíram de um dos amigos do Czarevitch. Olga tinha febre alta (à volta dos 39.9º) e rapidamente teve complicações no seu estado de saúde. Devido à sua doença, Olga perdeu o contacto com o mundo exterior e apenas podia adivinhar o que acontecia. No dia 13 de Março de 1917, 11 dias depois do pai ter abdicado do trono da Rússia, um grupo de rebeldes de São Petersburgo decidiu avançar até Czarskoe Selo e ela ouviu os tiros, perguntando à dama-de-companhia da mãe o que se passava. Ela respondeu que não sabia e culpou o barulho no gelo. Olga não ficou convencida e disse: “Mas tens a certeza, Lili? Até a mamã parece nervosa, estamos tão preocupados com o coração dela. De certeza que se está a cansar demais. Diz-lhe para descansar.”

 

Olga durante a doença

 

 

Quando Olga começou a recuperar era tarde demais e a revolução que ela há muito temia que acontecesse estava já numa fase avançada. A família foi condenada a prisão domiciliária no Palácio de Alexandre e, ao contrário das irmãs que se divertiam a trabalhar no jardim, Olga sabia que a situação era delicada. Ela tentou ser paciente e apoiou-se na religião e na família para ultrapassar os tempos dificéis. Durante este período, a Grã-Duquesa perdeu a sua beleza e tinha sempre uma expressão preocupada no rosto. Em apenas alguns meses ela envelheceu e perdeu tanto peso que, perto do final, parecia uma mulher de meia-idade.

 

Depois de a família ser levada para Tobolsk, Alexandra escreveu a uma das suas amigas: “Elas cresceram todas. A Maria está muito mais magra, a quarta está gorda e baixa. A Tatiana ajuda toda a gente em todo o lado, como de costume. A Olga é preguiçosa, mas todas elas são apenas uma em espírito.” Diz-se que pouco antes de abandonar o Palácio de Alexandre, Nicolau deu um pequeno revolver a Olga que ela escondia na bota. Antes de ser transferida para Ekaterinburgo, o Coronel Kobylynsky que se tinha tornado amigo da família, implorou a Olga para que deixasse a arma uma vez que iria, de certeza, ser inspeccionada na nova prisão. Ela seguiu o conselho, mas ficou ainda mais assustada por estar desarmada.

 

 

 

A viagem até Ekaterinburgo foi tudo menos pacífica. Durante a primeira noite, os soldados bêbados entraram na cabina das Grã-Duquesas e provocaram-nas, inspeccionando as suas coisas e gritando palavrões. No dia seguinte, Olga viu um soldado a magoar o pé e tentou ajudá-lo, explicando-lhe que tinha sido enfermeira durante a guerra. Ele recusou, mas mesmo assim ela seguiu-se de perto para se certificar de que ele estava bem.

Da vida de Olga em Ekaterinburgo existem apenas os relatos dos guardas. Um deles escreveu nas suas memórias:

 

“A mais velha, Olga Nikolaevna, estava, como o irmão, pálida e tinha um aspecto doente, mas isso não a impedia de ser energética junto da família. Os olhos dela, na maioria das vezes, pareciam tristes e cansados. Durante os passeios ela afastava-se das irmãs e fixava tristemente a distância. Ela tocava piano com mais frequência do que elas e, quando o fazia, escolhia sempre uma peça triste e melancólica.”

 

Outro disse: “A filha mais velha ficava a maioria do tempo afastada das irmãs mais novas e comportava-se como a arrogante da mãe. Perto do fim era só pele e osso.”

 

 

 Durante a sua estadia na Casa Ipatiev, Olga afastou-se completamente de toda a gente, sabendo bem qual era o verdadeiro objectivo dos bolcheviques. Lia muito, principalmente a Biblia e um livro que lhe tinha sido oferecido durante a infância pela sua tia Irene. Dentro de um outro livro sobre Napoleão, Pierre Gilliard encontrou duas orações escritas por Olga. Uma delas dizia:

 

"Dai-nos, Senhor, a paciência, neste ano de dias de tempestade e cheios de trevas, para conseguirmos sofrer a opressão popular e as torturas dos nossos carrascos. Dai-nos a força, ó Senhor da justiça para perdoarmos o mal dos nossos irmãos e para carregar a Cruz tão pesada e sangrenta, com a tua humildade. Nos dias em que os inimigos nos roubam, que consigamos suportar a vergonha e a humilhação, Cristo, nosso salvador, ajuda-nos. Mestre do mundo, Deus e do Universo, abençoa-nos com rezas e dá às nossas almas o humilde descanso nesta hora horrível e insuportável. No limiar da nossa sepultura, respira para os lábios dos teus humildes escravos força maior do que a força humana - para rezar pelos nossos inimigos."

 

 

Olga foi forçada a assistir à morte da sua adorada irmã Tatiana (que se encontrava ao seu lado) antes de ela própria ser morta com o resto da família, na noite de 17 de Julho de 1918.

 

Já depois da sua morte, Gleb Botkin, filho do médico da família que morreu com eles, escreveu sobre Olga nas suas memórias:

 

 “Era uma leitora ávida e uma poetiza de talento considerável. Apesar da diferença de idades, a Grã-Duquesa Olga era particularmente próxima do meu pai, com quem se sentia livre para discutir qualquer coisa que lhe interessasse. Ela dizia sempre que o meu pai era ‘um poço cheio de ideias profundas’ e até começava as cartas que lhe eram dirigidas por ‘Querido Poço’. A Olga e eu estávamos a trabalhar seriamente na nossa poesia e ela ficou muito interessada nos meus versos. O seu interesse, naturalmente, fez com que eu me aplicasse mais e, partir daí, passei a enviar-lhe todos os poemas que escrevia e ela analisava-os com muito cuidado, dando-me muitos conselhos valiosos e trocando opiniões sobre rimas, ritmos e outros problemas que ocupam as mentes dos poetas. Foi assim que comecei a apreciar o verdadeiro carácter da Olga. Ela era uma pensadora por natureza e, mais tarde, pareceu-me ser a única que compreendia a situação complicada da revolução, talvez até melhor do que os próprios pais. Pelo menos deu-me a impressão de que tinha poucas ilusões para o futuro que lhe estava reservado e, por isso, estava muitas vezes triste e preocupada. Mas havia uma doçura nela que impedia qualquer outro de ficar afectado pelos seus pensamentos, mesmo quando se sentia deprimida.”

 

 

Olga morreu aos 22 anos de idade


publicado por tuga9890 às 13:39
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