Sexta-feira, 12 de Setembro de 2008

Curiosidades - As Vitimas da Família Imperial Russa (2ª parte)

Dia 28 de Janeiro de 1919

O último golpe. Quatro membros da família imperial feitos prisioneiros meses antes na prisão de São Petersburgo são acordados nas primeiras horas da manhã e informados de que têm de arrumar os seus pertences porque vão ser transferidos.

 

Cumprem as ordens e são atirados para um camião com outros prisioneiros que os leva até à Fortaleza de Pedro e Paulo. Antes de chegar ao local escolhido, são obrigados a deixar a bagagem para trás e recebem ordens para tirar os casacos e camisolas apesar das temperaturas negativas. Sabendo já do destino que os espera, os quatro abraçam-se pela última vez e rezam calmamente pelos soldados.

 

Todos são mortos a tiro e enterrados numa vala comum junto de todos os outros homens executados nesse dia. As 4 últimas vítimas eram:

 

 

Grão-Duque Paulo Alexandrovich

 

Paulo com os filhos Dmitri e Maria

 

Nascido no dia 3 de Outubro de 1860, era o oitavo filho do primeiro casamento do Czar Alexandre II.

 

O seu nascimento foi comemorado com a criação da cidade de Pavlodar no Cazaquistão. Entrou no Exercito russo e subiu na carreira até ser nomeado General, mas era conhecido pela sua gentileza, fervor religioso e acessibilidade em falar com as pessoas.

 

No dia 17 de Junho de 1889 casou-se com a Princesa Alexandra da Grécia e teve a primeira filha, Maria Pavlovna, 10 meses depois. No dia 18 de Setembro de 1891, durante um passeio no palácio, a sua esposa, grávida do segundo filho, saltou para um barco em movimento e caiu, provocando o nascimento prematuro do Grão-Duque Dmitri Pavlovich (um dos futuros assassinos de Rasputine). Pouco depois do nascimento, Alexandra entrou em coma e nunca mais acordou.

 

Em 1893, Paulo apaixonou-se por uma mulher comum chamada Olga Valerianovna e, alguns anos mais tarde, pediu a autorização do Czar Nicolau II (seu sobrinho) para se casar com ela. Ele não a concedeu e os dois decidiram deixar a Rússia para se instalar em Paris. Casaram em 1902 na Igreja Ortodoxa de Livorno, na Itália e o casamento provocou grande escândalo dentro da corte. Pouco depois Paulo pediu a custódia dos seus dois filhos, mas, mais uma vez, o pedido foi recusado e Maria e Dmitri passaram a viver com o irmão de Paulo, Sergei e a esposa Isabel Feodorovna. Viveu muitos anos com a sua segunda esposa em Paris e o casal teve três filhos (Vladimir, Irina e Natália). Eventualmente os velhos titãs da família foram morrendo e Paulo aproximou-se cada vez mais do trono, por isso recebeu autorização para regressar à Rússia em 1915, onde se instalou em Czarskoe Selo.

 

Durante a Primeira Guerra Mundial foi comandante da Guarda Imperial e, mais tarde, foi transferido para o posto de comando do Czar. Em 1917 tentou convencê-lo a conceder uma constituição à Rússia, mas falhou. Mesmo assim foi um dos poucos que manteve amizade com a Czarina Alexandra Feodorovna até aos últimos dias do regime.

 

O seu filho Vladimir foi exilado em Março de 1918 e morto quarto meses depois. Ele próprio acabou por ser preso em Agosto de 1918 e levado para a prisão de São Petersburgo. A sua saúde já estava fraca, mas acabou por deteriorar-se durante os seus meses na prisão. A sua esposa fez tudo o que podia para o libertar, mas não conseguiu evitar a sua execução.

 

Paulo tinha 58 anos e o seu corpo nunca foi encontrado.
 

Grão-Duque Dmitri Constantinovich

 

Dmitri Constantinovich com o primo Alexandre III em frente

 

Nasceu no dia 13 de Junho de 1860 e era neto do Czar Nicolau I pelo seu segundo filho, Constantino Nikolaevich. O seu pai era um alto oficial da Marinha e sempre esperou que os seus filhos lhe seguissem as pisadas, educando-os desde cedo na vida do mar. Ao mesmo tempo ambos os seus pais eram muito ligados à música e Dmitri teve também aulas de canto e de piano desde muito novo. Apesar de tudo os seus pais tinham um casamento infeliz e, quando ele era adolescente, o pai abandonou a família para viver com a amante, uma bailarina russa. Quando tinha 14 anos, o seu irmão mais velho, Nicolau, foi deserdado e enviado para o exílio depois de roubar os diamantes de um ícone da mãe. Depois deste episódio, a mãe de Dmitri fez os seus filhos jurar que nunca iriam entrar em vícios como a bebida, o jogo e a prostituição e, por isso ele cresceu tremendamente religioso.

 

Durante alguns anos frequentou a escola naval com os seus irmãos, mas depois decidiu que se sentia mais vocacionado para a vida no exército e, para desgosto do pai, abandonou a escola e alistou-se no regimento dos guardas a caval. Durante toda a vida, seguindo a promessa que tinha feito à mãe, Dmitri nunca se misturou com a sociedade e preferia passar serões calmos em casa com os amigos onde tocava piano e cantava músicas tradicionais russas.

 

Depois de 12 anos no regimento de guardas a cavalo, Dmitri foi promovido a comandante e, partir daí teve uma carreira de sucesso nos anos que se seguiram. Dmitri era um dos membros mais altos da família Romanov, conhecida pela altura quase monstruosa dos seus homens. Apesar de ser considerado também um dos mais belos da família, permaneceu solteiro durante toda a vida. Ele era adorado por todos, especialmente pelos seus pequenos sobrinhos e sobrinhas com quem brincava e conversava durante horas. Era particularmente próximo dos filhos do seu irmão Constantino. O seu sobrinho, o Príncipe Gabriel Constantinovich, descreveu-o como “uma pessoa maravilhosa e bondosa” que era quase um segundo pai para ele e para os irmãos.

 

Durante o reinado de Nicolau II, Dmitri foi promovido a Major-General do seu regimento, mas não gostou do seu novo posto. Até então a sua única tarefa tinha sido lidar com cavalos, mas a sua timidez impedia-o de fazer o mesmo com os oficias. Mais tarde seria novamente promovido a um posto cuja função era percorrer a Rússia à procura dos melhores cavalos para o exército. Ele gostou da sua nova posição, mas teve de se retirar devido ao facto de estar a perder a visão rapidamente.

 

Depois da reforma ele passou a viver grande parte do ano na Crimeia onde pôde desfrutar ao máximo da sua maior paixão: os cavalos. Quando a Primeira Guerra Mundial rebentou, ele não ficou surpreendido uma vez que já esperava uma invasão alemã há muito tempo. Durante este período ele estava quase cego, por isso não pôde participar activamente nos combates, contentando-se em treinar cavalos para o exército. Durante a crise na monarquia, ele não se quis envolver em política, dizendo que não era a sua função dar conselhos não solicitados a Nicolau II. Em 1917, apesar dos tempos conturbados, decidiu comprar uma mansão em Petrogrado onde vivia com a sobrinha Tatiana que tinha perdido o marido durante a guerra.

 

Depois da revolução, Dmitri foi obrigado tal como todos os outros membros da família a apresentar-se à Checa, a polícia política do novo regime que lhe ofereceu a escolha de três cidades como destino de exílio. Ele escolheu a que ficava mais próxima de Petrogrado. No exílio ocupou dois quartos da casa de um mercador da cidade. Partilhou um com o Coronel Korochentzov enquanto que a sua sobrinha Tatiana e os filhos ficaram no outro. Nenhum deles tinha autorização para abandonar a casa. No dia 14 de Julho de 1918, Dmitri foi separado dos seus companheiros de exílio e enviado para uma outra cidade onde já se encontravam outros membros da família presos. No dia 21 de Julho souberam da morte de Nicolau II e da família e temeram o pior para o seu futuro. Nessa noite os prisioneiros foram transferidos novamente para Petrogrado. Na nova prisão foram interrogados exaustivamente e, quando Dmitri perguntou a razão pela qual tinham os membros da família sido presos, o guarda respondeu que estavam a protegê-los das multidões furiosas que os queriam matar.

 

Um sobrinho de Dmitri, Gabriel Constantinovich, estava preso na cela ao seu lado e recordou que o seu tio tinha pedido toda a alegria que lhe era característica. Fora da prisão muitos familiares tentaram libertá-los, mas sem sucesso. Gabriel, no entanto, adoeceu gravemente e conseguiu ser libertado, fugindo mais tarde do país.

 

Dmitri morreu com 58 anos e o seu corpo foi o único dos quatro a ser recuperado por um amigo que organizou uma cerimónia fúnebre privada. Está enterrado no jardim da sua casa em São Petersburgo.

 

 

 

Grão-Duque Nicolau Mikahilovich

 

 

Nascido no dia 26 de Abril de 1859, era neto do Czar Nicolau I pelo seu quarto filho, o Grão-Duque Miguel Nikolaevich. Embora tenha nascido em Czarskoe Selo, passou a maior parte da infância e juventude na Geórgia onde recebeu uma educação rígida por parte dos pais. O facto de ele e os irmãos terem crescido longe da vida luxuosa da capital imperial fez com que se tornassem mais liberais do que os seus familiares.

Durante a sua juventude, o Grão-Duque apaixonou-se várias vezes e esteve perto de se casar com a sua prima directa, Vitória de Baden, no entanto a Igreja Ortodoxa não autorizava casamentos entre primos em primeiro grau e ela acabou por se casar com o Príncipe da Suécia. Mais tarde também se quis casar com Amélia de Orleães, mas ela era católica e os pais não estavam dispostos a deixá-la converter-se. Mais tarde ela seria Rainha de Portugal. No final, Nicolau acabou mesmo por nunca se casar, o que não o impediu de ter vários filhos bastardos.

Nicolau nunca se interessou particularmente na vida militar e não teve um treino intensivo. Desde cedo que as suas verdadeiras paixões eram a História, a Filosofia e a Botânica. Tentou convencer o seu pai a deixá-lo ir para a Universidade, mas ele recusou. Chegou a entrar na Academia Militar, mas odiava-a e acabou mesmo por desistir e, mais tarde, tornar-se-ia doutorado em Paris e Berlim. Durante a sua vida publicou vários livros sobre botanica e caça até se começar a interessar mais por História, particularmente no seu tio-avô, o Czar Alexandre I. Ao contrário de outros historiadores da época, Nicolau tinha acesso ilimitado aos arquivos da família que, por vezes, tinha até o privilégio de receber directamente em casa. Além disso, devido à sua fortuna, podia contratar ajudantes para as suas pesquisas. Os seus trabalhos foram traduzidos para inglês e francês e tornaram-se famosos na Europa. Mesmo durante a era soviética, parte das suas descobertas foi incluida no ensino.

No entanto, os seus douturamentos não o impediam de ser descrito como excentrico e mal-humurado. Passava a maioria do tempo a viajar, principalmente por Paris e pelo Sul de França e era costume perder somas avultadas nos casinos de Monte Carlo. Além disso era também odiado pela Czarina Alexandra que não gostava das suas teorias liberais. De facto, Nicolau costumava entrar em acesas discussões com o Czar devido ao seu governo autocrático e pedia-lhe constantemente para introduzir reformas liberais e conseder uma Constituição ao país.

Durante a Primeira Guerra Mundial, devido à sua falta de preparação militar, teve apenas um posto honorifico no exercito. Ficou com as tropas em Kiev, fortemente ameaçada pelos exercitos austro-húngaros e tinha como principal função visitar hospitais e dar apoio moral aos soldados. Quando Nicolau II decidiu comandar as tropas pessoalmente e deixar a sua esposa encarregue do poder em Petrogrado, o Grão-Duque ficou horrorizado e enviou uma carta ao Czar onde lhe implorava que retirasse Alexandra do poder e a enviasse para Livadia onde não poderia interferir com os assuntos do governo. O Czar rejeitou a proposta e exiliou-o na sua propriedade na Rússia Central onde o Grão-Duque permaneceria até à queda da Monarquia em 1917.

Quando a Revolução de Outubro rebentou, os bolcheviques não o incomodaram a principio. Tal como muitos outros, Nicolau acreditava que o governo de Lenine não duraria muito e recusou instalar-se na Dinamarca onde a sua sobrinha era rainha. Eventualmente os bolcheviques invadiram o seu palácio e exilaram-no para a mesma cidade de Dmitri Constantinovich. Os dois ficaram juntos até à morte.

 

Grão-Duque Jorge Mikhailovich
 
 

Nasceu no dia 23 de Agosto de 1863. Era irmão mais novo do Grão-Duque Nicolau Mikhailovich e irmão mais velho do Grão-Duque Sergei Mikhailovich, morto pelos bolcheviques alguns meses antes de si.

Teve a mesma educação austera dada aos irmãos, mas isso não o impediu de se juntar ao estilo de vida da maioria dos Grão-Duques da sua família que incluía festas, bebida, jogo e mulheres. Apesar disso era um homem calado e pouco expressivo que apenas se abria com os amigos mais próximos. Era conhecido por ter um apetite voraz e por ser o primeiro a chegar para refeições. Devido à sua personalidade recatada, a sua opinião nunca tinha muita importância na família e as suas principais funções prendiam-se com a participação em cerimónias simbólicas como a entrega de medalhas e ordens.

 

Durante toda a sua vida, Jorge fez colecção de moedas que acabou por se tornar na maior da Rússia.

 

Jorge casou-se apenas aos 37 anos de idade com a Princesa Maria da Grécia e Dinamarca, depois de não ter conseguido uma união com a Princesa Nina Chavchavadze nem com a Princesa Maria de Edimburgo. A sua esposa, por seu lado, não gostava dele e apenas aceitou casar-se depois de não ter tido autorização para se casar com um homem comum. Os dois tiveram duas filhas (Nina nascida em 1901 e Xenia nascida em 1903), mas nunca tiveram um casamento feliz. Jorge era um pai dedicado, mas isso não impediu a sua esposa de, em 1914, levar as filhas para Inglaterra com o pretexto de querer viver num lugar mais saudável. Um mês depois de elas chegarem a Inglaterra rebentou a Primeira Guerra Mundial e tornou-se demasiado perigoso regressar ao país, por isso Jorge nunca mais as voltou a ver.

 

Durante a Guerra, Jorge tornou-se assistente de Nicolau II no campo de batalha e tinha como função inspeccionar os trabalhos na frente de combate. Nos seus relatórios revelou muita corrupção entre generais, o que lhe valeu muitos inimigos. Em meados de 1915 foi enviado numa missão ao Japão e apenas regressou à Rússia no ano seguinte onde continuou os seus trabalhos de inspecção em Kiev. Durante as muitas viagens que fez, visitou os prisioneiros de guerra austríacos e alemães.

 

Quando a revolução rebentou em Fevereiro de 1917, ele estava em São Petersburgo onde tinha fundado um hospital. Assim que Nicolau II abdicou do trono, ele também abandonou o exercito e tinha intenções de fugir para a Inglaterra onde estavam a sua esposa e filhas, mas o rei Jorge V tinha proibido a entrada de qualquer Grão-Duque russo no país. Então recebeu autorização do Governo Provisório para ir viver para a Finlândia onde permaneceu escondido até Março de 1918. Nessa altura cometeu o erro de pedir um passaporte novo ao governo com o objectivo de ir visitar as suas filhas que não via há mais de quatro anos. Os bolcheviques localizaram-no e levaram-no para Petrogrado onde, a principio, recebeu apenas ordens para não abandonar a cidade, mas, eventualmente, foi enviado para o exílio em Vologda. Mais tarde seria preso formalmente em Petrogrado e o seu destino encerrado.

 

Jorge tinha 55 anos.

 


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Terça-feira, 9 de Setembro de 2008

Curiosidades - As Vitimas da Família Imperial Russa (1ª parte)

Quando o Czar Nicolau II abdicou do trono no dia 2 de Março de 1917 estavam 53 Romanovs a residir na Rússia. Desses membros da família 18 foram presos. Entre Junho de 1918 e Janeiro de 1919 todos, com excepção do Grão-Duque Nicolau Constantinovich que morreu de causas naturais durante a sua detenção, seriam assassinados por bolcheviques em vários pontos da Rússia. Fica uma lista com dados bibliográficos das vítimas imperiais da revolução russa.

 

Revolução Russa

 

Dia 13 de Junho de 1918:
 

A primeira vítima da onda de assassinatos da família imperial após a revolução é o irmão mais novo do Czar, o Grão-Duque Miguel Alexandrovich, morto a tiro juntamente com o seu secretário perto de Perm, na região Ural. Para ler biografia clique aqui.

 

Miguel Alexandrovich, irmão mais novo do Czar

 

Dia 17 de Julho de 1918:
 

A família imperial principal é assassinada na cave da Casa Ipatiev juntamente com o médico, a dama-de-companhia, o cozinheiro e um criado. No total este dia resultou em 7 vítimas da família.

 

Nicolau II, a esposa e os 5 filhos durante as celebrações de Páscoa em Livadia

 

Dia 18 de Julho de 1918:
 

Um grupo de prisioneiros da família transferidos para Ekaterinburgo duas meses antes é atirado para uma mina com 20 metros de profundidade e, de seguida, são atiradas granadas como golpe final quando os prisioneiros começam a cantar hinos de exaltação russos. A maioria, no entanto, morreria apenas nos dias que se seguiram por ferimentos não tratados ou falta de água. Mais tarde todos foram canonizados pela Igreja Ortodoxa Russa. Os prisioneiros eram:

 

Grã-Duquesa Isabel, irmã da Czarina Alexandra. (Biografia)

 

Grão-Duque Sergei Mikhailovich

 

 

Nascido no dia 7 de Outubro de 1869, Sergei era neto do Czar Nicolau I pelo seu quarto filho, Miguel Nikolaevich. Sempre se sentiu atraído pela vida militar e ingressou em vários regimentos durante a sua adolescência e juventude. Era muito próximo do seu irmão Alexandre com quem fez uma viagem à Índia em 1891. Quando regressaram à Rússia, ambos se apaixonaram pela filha mais velha do Czar Alexandre III, Xenia Alexandrovna, mas ela acabou por escolher Alexandre para casar em 1894. Nesse mesmo ano o irmão velho de Xenia, o futuro Czar Nicolau II, teve de acabar a relação que mantinha com a bailarina Mathilde Kschessinskaya e pediu a Sergei que tomasse conta dela. O Grão-Duque aceitou a proposta e começou uma relação com a bailarina que apenas usufruía da sua posição (Sergei era presidente da associação imperial de teatro) para subir na carreira. Sergei sabia-o, mas mesmo assim continuou a ser um amigo próximo de Mathilde. Em 1900, a bailarina conheceu o Grão-Duque Andrei Vladimirovich, filho do primo de Sergei e começou uma relação com ele que causou uma relação tempestuosa entre os dois primos. Em 1902 ela teve um filho de Andrei, mas deu-lhe o nome de Sergei e foi ele que a ajudou a cuidar da criança.

 

Quando começou a Primeira Guerra Mundial, Sergei estava gravemente doente devido a uma febre reumática que contraiu durante uma viagem e à qual se seguiu uma violenta Pleurisia. Depois de 5 meses preso à cama, Sergei assumiu o seu posto como Chefe do Departamento de Artilharia do Exercito. Essa posição trouxe-lhe inúmeros rumores de corrupção e incompetência e ele teve de se demitir do cargo em 1916 para se tornar apenas Inspector de Artelharia. Durante a guerra o Grão-Duque viveu no mesmo edifício do seu primo Nicolau II e, muitas vezes, tentou convencê-lo a abandonar a guerra, mas ele recusou. As suas constantes tentativas de persuasão de Nicolau fizeram com que fosse odiado pela sua esposa Alexandra. Quando rebentou a Revolução de Fevereiro, Sergei escolheu ficar em Mogilev onde tinha lutado durante a guerra.

 

Sergei regressou a Petrogrado no inicio de Junho de 1918 e, juntamente com os restantes membros masculinos da família que ainda se encontravam na cidade, foi chamado ao posto de comando da Tcheca (policia politica do regime) onde o informaram de que estava proibido de deixar a cidade. Poucas semanas depois foi chamado novamente, desta vez para receber ordens de exílio e partiu juntamente com outros 4 membros da famíliae o secretário para a cidade de Viatka nos Montes Urais. Durante 11 dias os prisioneiros puderam deslocar-se livremente pela cidade, mas tudo acabou quando foram transferidos para Ekaterinburgo no dia 3 de Maio de 1918. Aí juntaram-se à Grã-Duquesa Isabel Feodorovna e ficaram confinados a um hotel na cidade até serem novamente transferidos novamente no dia 18 do mesmo mês para Alapayevsk onde ficaram alojados numa antiga escola. A única liberdade que tinham era passear pelas salas de aula sob a supervisão dos guardas. Sergei partilhou a sala de aula que lhe servia de quarto com o seu secretário e o Príncipe Paley, filho do Grão-Duque Paulo.

 

No dia em que foram encaminhados até à mina, Sergei foi o único que se atreveu a desobedecer e tentou lutar com os guardas que o alvejaram mortalmente e atiraram o seu cadáver para a mina. Morreu aos 48 anos de idade.

 
Príncipe João Constantinovich
 
 

Nasceu no dia 5 de Julho de 1886 e era o filho mais velho do Grão-Duque Constantino Constantinovich, neto do Czar Nicolau I pelo seu segundo filho Constantino Nikolaevich. Era um jovem sensível, gentil e muito religioso. Durante a juventude chegou a considerar tornar-se num monge ortodoxo, mas apaixonou-se pela Princesa Helena da Sérvia com quem se casou no dia 2 de Setembro de 1911. Foram um casal muito feliz e tiveram dois filhos: um rapaz, Vsevolod Ivanovich nascido em 1914, e uma rapariga chamada Catarina Ivanovna nascida em 1915. A filha de João foi o último membro da família imperial a nascer antes da queda da dinastia e viveu até ao dia 13 de Março de 2007.

 

O Principe lutou na Primeira Guerra Mundial onde foi condecorado como herói. Quando rebentou a Revolução Russa de 1917 ele estava a lutar na frente de combate. Em Abril de 1918 foi exilado e morreu com apenas 32 anos de idade.

 

Principe Constantino Constantinovich

 

 

Nasceu no dia 1 de Janeiro de 1891 e era o quarto filho do Grão-Duque Constantino Constantinovich, por isso irmão mais novo do Principe João Constantinovich.

 

O Príncipe era um rapaz calado e tímido que gostava de teatro e foi educado na “Corps dês Pages”, uma academia militar em São Petersburgo. Quando começou a Primeira Guerra Mundial tinha 23 anos e juntou-se a um dos regimentos do Czar e foi descrito como sendo muito modesto e adorado pelos seus companheiros que destacaram a sua valentia. Constantino nunca pediu a protecção a que tinha direito pelo seu título e arriscava a sua vida no campo de batalha tal como os seus companheiros.

 

Depois de ver a felicidade dos seus irmãos mais novos, João e Tatiana, Constantino também quis começar a sua própria família. Gostava da sua prima Olga (filha mais velha do Czar), mas também da Princesa Isabel da Roménia, mas nunca chegou a ter tempo de pedir nenhuma das duas em casamento. Depois de passar três anos na frente de combate foi exilado com dois dos seus irmãos e dois primos e morreu com eles aos 27 anos de idade. O seu corpo foi mais tarde enterrado no cemitério ortodoxo de Pequim que foi destruído durante a Revolução Cultural chinesa.

 

Príncipe Igor Constantinovich

 

 

Nasceu no dia 10 de Junho de 1894 e era irmão mais novo de João e Constantino Constantinovich. Tal como os irmãos, era gentil, simpático e educado que gostava de teatro e adorado por todos que o conheciam. Frequentou a mesma academia militar que os irmãos.

 

Durante a Primeira Guerra Mundial foi capitão do Regimento da Guarda Ismailovsky e foi condecorado como herói, no entanto a sua saúde era bastante frágil. Sofreu de Pleurisia e outras complicações pulmonares em 1915 e quando regressou às trincheiras não conseguia andar muito depressa e tossia sangue frequentemente.

 

Foi exilado com os irmãos e primos e morreu aos 23 anos. O seu corpo foi, mais tarde, enterrado em Pequim juntamente com o dos irmãos, no mesmo cemitério ortodoxo que foi transformado num parque.

 

Principe Vladimir Pavlovich Paley

 

 

Nasceu no dia 9 de Janeiro de 1897 e era um conhecido poeta. O seu pai era o Grão-Duque Paulo que se casou com a sua mãe sem a autorização do Czar depois de a sua primeira esposa, a Princesa Alexandra da Grécia, morrer ao dar à luz o meio-irmão de Vladimir, Dmitri que foi um dos assassinos de Rasputine e, por isso, nasceu sem qualquer título. No entanto, à medida que os pretendentes ao trono iam morrendo, o pai de Vladimir aproximava-se, por isso o Czar Nicolau II elevou-o a Conde em 1904 e, finalmente, a Príncipe em 1915.

 

Vladimir tinha dois meios-irmãos do primeiro casamento do pai (Maria Pavlovna e Dmitri Pavlovich) e três do primeiro casamento da mãe (Alexandre, Olga e Mariana von Pistohlkors). Além dos meios-irmãos tinha duas irmãs biológicas chamadas Irina e Natália Pavlovna.

 

Passou a sua infância em Paris e mais tarde frequentou a mesma academia militar dos primos Constantinovich em São Petersburgo. Lutou pelo lado russo na Primeira Guerra Mundial e foi condecorado com a Ordem de Santa Ana pelos seus esforços.

 

Desde a adolescência, Vladimir mostrou um grande talento para a poesia e publicou dois livros com os seus poemas em 1916 e em 1918 além de várias peças e ensaios. Também foi ele que traduziu a peça do Grão-Duque Constantino Constantinovich, “O Rei dos Judeus” para francês.

 

No Verão de 1917 ele e a sua família foram condenados a prisão domiciliária devido a um poema que ele tinha escrito sobre o chefe do Governo Provisório, Alexandre Kerensky. Em Março de 1918 foi preso pelos bolcheviques e enviado para exílio com os seus primos. O seu pai foi preso em São Petersburgo.

 

Vladimir morreu aos 21 anos.

 

 

 

 

 


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Quinta-feira, 4 de Setembro de 2008

Biografia - Irina Alexandrovna

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A Princesa Irina Alexandrovna, nascida no dia 15 de Julho de 1895 em Peterhof na Rússia, foi a filha mais velha e única rapariga nascida do Grão-Duque Alexandre Mikhailovich (neto do Czar Nicolau I) e da sua esposa Xenia Alexandrovna (irmã mais nova do Czar Nicolau II). Era também a única sobrinha de Nicolau II e casou-se com o Príncipe Félix Yussupov, um dos assassinos de Rasputine, em 1914.

 

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Irina com a sua mãe Xenia

 

Antes do seu casamento no dia 22 de Fevereiro de 1914, Irina, filha mais velha e única rapariga de sete crianças, era considerada a mulher mais elegível da Rússia Imperial. A sua família passou longos períodos a viver no Sul de França depois de 1906 devido ao desacordo político entre o seu pai Alexandre (conhecido na família por “Sandro”) e o seu tio, o Czar Nicolau II. O seu pai mantinha um caso amoroso com uma mulher dessa região e pediu várias vezes o divórcio à sua mãe, mas ela recusou sempre. Xenia, por seu lado, também mantinha vários amantes. Os pais de Irina tentaram esconder o seu casamento infeliz dos seus sete filhos, por isso os irmãos tiveram uma infância feliz.

 

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Irina com o pai Alexandre

 

Em criança, Irina era tímida e muito pouco faladora, com olhos azul-escuros e cabelo negro. Era frequentemente chamada de Iréne, a versão francesa do seu nome, ou Irene, a versão inglesa, enquanto que a sua mãe lhe chamava de “Bebé Rina”. Como passaram a maior parte da infância no estrangeiro, Irina e os seus irmãos falavam melhor Francês e Inglês do que Russo e por isso utilizavam as versões francesas e inglesas dos seus nomes quando falavam entre si.

 

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Irina com o seu irmão Nikita

 

O seu futuro marido, Félix Yussupov, era um homem de muitas contradições. Vinha de uma das famílias mais ricas da Rússia, gostava de se vestir com roupas de mulher e tinha relações sexuais com homens e mulheres que escandalizavam a sociedade, no entanto, ao mesmo tempo, era um homem religioso que gostava de ajudar os outros para além das suas posses. A certa altura, no meio de uma onda de entusiasmo, planeou dar todas a sua fortuna aos pobres para imitar a sua mentora, a Grã-Duquesa Isabel Feodorovna. “As ideias do Félix são absolutamente revolucionárias,” escreveu a Czarina Alexandra Feodorovna com desagrado. Ele foi persuadido a não oferecer todo o seu dinheiro pela mãe, Zenaide, que lhe disse que ele tinha o dever de casar e dar continuidade à linha familiar, uma vez que era filho único. O futuro assassino de Rasputine tinha também um medo obsessivo da violência das guerras.

 

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Irina com o seu marido, Félix Yussupov

 

Félix, com as suas inclinações homossexuais, não era, certamente, “próprio para casar”. Mesmo assim, sentiu-se atraído por Irina quando a conheceu pela primeira vez. “Um dia quando estava a cavalgar conheci uma jovem muito bonita que estava acompanhada por uma senhora mais velha. Os nossos olhos cruzaram-se e ela impressionou-me tanto que eu parei o meu cavalo e fiquei a olhar para ela enquanto a via afastar-se,” escreveu ele nas suas memórias. Um dia, em 1910, ele recebeu uma visita do Grão-Duque Alexandre Mikhailovich e da Grã-Duquesa Xenia Alexandrovna e ficou feliz quando descobriu que a rapariga que tinha visto no seu passeio a cavalo era a única filha do casal, Irina. “Desta vez tive muito tempo para admirar a beleza magnífica da rapariga que, eventualmente, se tornaria na minha mulher e companheira de uma vida. Ela tinha feições bonitas, cabelo encaracolado e parecia-se muito com o pai.”

 

 

Irina (direita) com as primas Olga e Tatiana Nikolaevna

 

Ele voltou a encontrar-se com Irina em 1913 e sentiu-se ainda mais ligado a ela. “Ela era muito tímida e reservada, o que adicionava um certo mistério ao seu charme. Pouco a pouco a Irina tornou-se menos tímida. No princípio os olhos dela eram mais eloquentes do que a conversa, mas, quando ela se tornou mais aberta, aprendi a admirar o entusiasmo da sua inteligência e as suas opiniões. Não lhe escondi nada do meu passado e, longe de ficar perturbada pelo que lhe disse, ela mostrou grande tolerância e compreensão.” Yussupov escreveu também que, talvez devido ao facto de ter crescido com tantos irmãos, Irina não demonstrava qualquer artimanha ou falta de honestidade que o tinham afastado de outras relações com mulheres.

 
 
Félix e Irina em 1914
 

Apesar de Irina ser compreensiva em relação ao passado de Félix, os seus pais não eram. Quando eles e a sua avó materna, a Imperatriz Maria Feodorovna, souberam dos rumores ligados ao passado pouco próprio do Príncipe Yussupov quiseram cancelar o casamento. A maioria dos rumores que lhes tinham chegado aos ouvidos vinham do Grão-Duque Dmitri Pavlovich, primo de Irina, que era um dos amigos mais próximos de Félix e, segundo especulações da época, terá tido um caso amoroso com ele. Dmitri disse a Félix que ele também estava interessado em casar com Irina, mas ela disse preferir Félix. O seu futuro marido também conseguiu persuadir os seus pais relutantes a não cancelar a cerimónia e conseguiu convencê-los.

 

 

O casamento foi o acontecimento social do ano de 1914 e a última grande demonstração do poderio da corte russa. Irina usou um vestido do século XX em vez do tradicional vestido da Corte que outras noivas Romanov tinham usado para os seus casamentos. Ele teve a liberdade de o fazer uma vez que era apenas uma Princesa e não uma Grã-Duquesa.

 

Acompanhou-o com uma tiara de diamante e cristal trabalhado e um véu que pertencera a Maria Antonieta. Os convidados acharam que ambos faziam o casal perfeito e não se cansaram de falar das suas roupas, postura e alegria. Irina foi levada ao altar pelo seu tio, Nicolau II, e o presente de casamento do Czar foi um saco de veludo com 29 diamantes inteiros que variavam entre os três e os sete quilates. Irina e Felix também receberam uma variada colecção de pedras preciosas de outros convidados do casamento. Mais tarde eles conseguiram retirar os diamantes do país após a Revolução Russa de 1917 e venderam-nos para conseguir dinheiro na sua nova vida.

 

Félix e Irina no dia do casamento

 

Os Yussupov estavam em lua-de-mel pela Europa e Médio Oriente quando rebentou a Primeira Guerra Mundial. O casal ficou brevemente detido em Berlim depois do inicio das hostilidades e Irina teve de pedir à sua prima Cecília da Prússia para intervir junto do seu sogro, o Kaiser Guilherme II, para poderem abandonar o país e chegar à Rússia. O Kaiser recusou o pedido, mas deu-lhes a escolha de ficar na Alemanha numa de três propriedades que lhes oferecia. O pai de Félix fez um pedido ao embaixador da Espanha e o casal conseguiu regressar.

 

Félix transformou uma ala do seu Palácio de Moika num hospital militar, mas conseguiu escapar ao serviço militar devido a uma lei que dava a escolha aos filhos únicos de ir para o campo de batalha ou ficar em casa. Mesmo assim ele entrou nos Cadetes onde teve uma formação militar embora nunca fosse sua intenção alistar-se no exército.

 

 

 

 

Tanto Irina como Félix estavam conscientes de que os rumores escândalos que circulavam sobre a associação de Rasputine com a família imperial estavam a agravar a situação política e traziam consigo mais motins, manifestações e violência. Yussupov e os seus amigos conspiradores (que incluíam o Grão-Duque Dmitri Pavlovich) decidiram que Rasputine estava a arruinar o país e, por isso, deveria ser morto. Félix começou a visitar o monge com frequência numa tentativa de ganhar a sua confiança. Diz-se que ele conseguiu um encontro com Rasputine dizendo que necessitava da sua ajuda para ultrapassar os seus impulsos homossexuais e satisfazer Irina no seu casamento.

 

A 16 de Dezembro de 1916, a noite do assassínio, Félix convidou Rasputine para jantar na sua residência. O monge sempre demonstrara interesse em conhecer a bonita Irina de 21 anos, por isso Félix disse que ela estaria presente e o apresentaria à sua esposa. Irina, no entanto, estava a fazer uma visita aos pais e irmãos na Crimeia. A sobrinha do Czar sabia dos planos de Félix para eliminar o monge e pode até, a princípio, ter sido uma das escolhidas para realizar o assassínio. “Também tens de participar,” escreveu-lhe Félix algumas semanas antes, “o Dmitri Pavlovich já sabe de tudo e está a ajudar. Tudo vai acontecer em meados de Dezembro quando ele regressar.”

 

 

 

Em finais de Novembro de 1916, Irina escreveu a Félix: “Obrigada pela tua carta louca. Não entendi metade dela. Vejo que estás a planear fazer algo selvagem. Por favor tem cuidado e não te metas em nenhum negócio sombrio. O pior de tudo é que decidiste fazer tudo sem me consultar. Não vejo como posso participar agora visto que já está tudo planeado… Numa palavra, cuidado. Percebi pela tua carta que estás num estado de entusiasmo selvagem e pronto para trepar paredes. (…) Vou chegar a Petrogrado no dia 12 ou 13, por isso não te atrevas a fazer alguma coisa sem mim ou então nem sequer saio daqui.” 


Félix respondeu no dia 27 de Novembro de 1916: “A tua presença em meados de Dezembro é essencial. O plano sobre o qual te estou a escrever foi elaborado com grande detalhe e está quase pronto, só falta a conclusão, pelo que a tua chegada é esperada. (o assassínio) É a única maneira de salvar a situação que se tornou quase desesperante (…) Tu vais servir de isco (…) Claro que não deves dizer nada a ninguém.”


Irina, assustada com a dimensão dos planos, recuou no dia 3 de Dezembro de 1916. “Eu sei que se voltar vou ficar doente (…). Não sabes como são as coisas. Quero chorar todo o dia. A minha disposição está horrível. Nunca estive assim (…). Nem eu sei o que se passa comigo. Não me arrastes para Petrogrado. Vem tu ter comigo. Perdoa-me, meu querido, por te escrever estas coisas. Mas eu já não consigo continuar, não sei o que se passa comigo. Talvez seja uma crise nervosa. Não te zangues comigo, por favor não te zangues. Amo-te muito. Não posso viver sem ti. Que o Senhor te proteja.”

 

 

 

No dia 9 de Dezembro de 1916, Irina voltou a avisar Félix, contando-lhe sobre uma conversa que tinha tido com a filha de 21 meses: “Algo incompreensível tem-se passado com a Bebé. Há duas noites atrás ela não conseguia dormir e estava sempre a repetir, ‘Guerra, ama, guerra!’ No dia seguinte perguntaram-lhe, ‘Guerra ou Paz?’ e a Bebé respondeu, ‘Guerra!’ No dia seguinte eu disse-lhe para dizer ‘Paz’ e ela olhou para mim e respondeu, ‘Guerra!’ É muito estranho.”

 

Os pedidos de Irina de nada serviram. O seu marido e os seus amigos avançaram com o plano sem ela. Depois do assassínio de Rasputine, o Czar exilou Yussupov e Dmitri Pavlovich. Félix e a sua família foram enviados para Rakitnoe, uma casa de campo remota pertencente aos Yussupov que ficava na Rússia Central. Dmitri foi enviado para a frente de combate na Pérsia com o exército. Dezasseis membros da família assinaram uma carta onde pediam ao Czar para reconsiderar a sua decisão devido à fraca saúde de Dmitri, mas Nicolau II recusou a proposta. “Ninguém tem o direito de matar considerando apenas o seu próprio julgamento,” escreveu Nicolau. “Eu sei que há muitos outros para além do Dmitri Pavlovich cujas consciências não lhes dão descanso por estarem comprometidas. Estou abismado por me pedirem tal coisa.”

 

 Irina com a filha e o pai Sandro

 

O pai de Irina, Sandro, visitou o casal em Rakitnoe em Fevereiro de 1917 e achou o ambiente “animado, mas revolucionário.” Félix ainda esperava que o Czar e o governo russo respondessem à morte de Rasputine tomando passos para controlar a crescente agitação política. Féliz recusou-se a deixar Irina juntar-se à sua mãe em Petrogrado por considerar a cidade demasiado perigosa. O Czar abdicou no inicio de Março e tanto ele como a sua família foram presos e, eventualmente, executados pelos bolcheviques. A decisão do Czar de exilar Félix e Dmitri foi a sua salvação, visto que fizeram parte dos poucos membros da família que conseguiram escapar à onda de execuções dos Romanov que se seguiu à revolução.

 

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Após a Revolução Russa de 1917, Irina, Féliz e a sua pequena filha passaram a residir em Ai Todor, na Crimeia, numa propriedade que pertencia ao pai de Irina. A sobrinha do Czar tinha permissão para se deslocar livremente (ao contrário dos seus parentes) devido ao facto de ter renunciado os seus direitos ao trono quando se casou com Félix. Contudo a família vivia num estado de incerteza constante. Tal como a maioria dos membros da família Romanov que se encontrava na Crimeia, a família Yussupov fugiu da Rússia a bordo de um navio militar britânico enviado pelo rei Jorge V no dia 7 de Abril de 1919.

 

Félix Yussupov gostava de se gabar sobre o assassínio de Rasputine durante a viagem até Inglaterra. Um dos oficiais britânicos reparou que Irina “parecia tímida e recatada a principio, mas bastava falar sobre a sua pequena filha para a fazer esquecer as suas reservas e descobrir que também ela era muito cativante e falava inglês fluentemente.”

 

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Durante o exílio na Inglaterra, Irina e Félix viveram melhor do que a maioria dos emigrantes da revolução russa. Durante algum tempo o casal teve uma boutique chamada “Irfe” (as duas inicias dos seus nomes). A própria Irina serviu de modelo para alguns dos vestidos que tanto o casal como outros estilistas criaram. Mais tarde eles sustentaram-se a partir dos vários processos que ganharam contra editoras e estúdios cinematográficos que, através de livros ou filmes, consideravam estar a denegrir a sua imagem. O mais famoso e rentável foi o processo movido contra a MGM após do lançamento do filme “Rasputin and the Empress” em 1932. No filme, um Rasputine luxurioso seduz a única sobrinha do Czar, chamada de “Princesa Natasha” pelos produtores. O processo foi concluído em 1934 com a vitória dos Yussupov. Outra fonte de rendimento foram as memórias escritas por Félix que continuava a ser famoso por ter assassinado Rasputine.

 

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Félix e Irina a analisar imagens do filme "Rasputin and the Empress"

 

A filha do casal foi maioritariamente criada pelos avós paternos até aos 9 anos de idade e foi muito mimada por eles. A sua educação instável fez com que se tornasse “caprichosa”, de acordo com Félix. Tanto ele como Irina (ambos criados maioritariamente por amas) não se sentiam capazes de criar a filha sozinhos. A única filha do casal adorava o pai, mas tinha uma relação distante com a mãe.

 

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Félix e a filha Irina
 

Félix e Irina eram mais próximos um do outro do que alguma vez foram da filha e tiveram um casamento feliz que durou mais de 50 anos. Quando Félix morreu em 1967, Irina ficou irremediavelmente deprimida e acabou por morrer apenas três anos mais tarde com 75 anos de idade.

 

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Irina no funeral de Félix

 

 

 


publicado por tuga9890 às 10:00
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Terça-feira, 19 de Agosto de 2008

Biografia - Isabel Feodorovna

 

 

A Grã-Duquesa Isabel Feodorovna da Rússia nasceu no dia 1 de Novembro de 1864 em Hesse-Darmstadt, Alemanha e era esposa do Grão-Duque Sergei Alexandrovich, quinto filho do Czar Alexandre II. Era conhecida por “Ella” pela família e amigos e era a irmã 8 anos mais velha da Czarina Alexandra Feodorovna, esposa do Czar Nicolau II. Isabel tornou-se famosa na sociedade russa pela sua beleza, charme e trabalhos de caridade entre os pobres.


Isabel (esquerda) com os pais e a irmã Vitória

 

Em Novembro de 1864, a Princesa Alice de Hesse escreveu uma carta à sua mãe, a rainha Vitória do Reino Unido, onde lhe contava que ela e o seu marido tinham decidido chamar a sua segunda filha, nascida no primeiro dia desse mês, de Isabel em honra da Santa mais amada e venerada no pequeno ducado de Darmstadt. “Esqueci-me de te dizer,” escreveu ela mais tarde numa outra carta, “em resposta à tua carta sobre o nome da Ella que ela deve ser chamada de Isabel. Apenas ‘entre-nous’ a tratamos por Ella.” Nos meses que se seguiram as suas cartas para a mãe enchiam-se de pormenores sobre a doçura da nova bebé, dos seus olhos azuis-escuros, do seu cabelo loiro, da sua alegria, a sua bondade e, ocasionalmente, das suas asneiras.

 

Isabel (esquerda) com as irmãs Vitória e Irene

 

Em Agosto de 1865, a Rainha Vitória foi até Darmstadt, em parte para assistir ao inicio da construção do novo Palácio da Princesa Alice e do seu marido e em parte para conhecer a sua nova neta. Sem se alarmar ou intimidar com o ar majestoso que rodeava a mulher baixa e forte, vestida com um longo vestido negro, a bebé sorriu-lhe e deixou que a sua avó lhe beijasse as bochechas sem qualquer protesto. “Ela é muito boa, a minha avó,” disse ela um pouco mais tarde e a Princesa Alice ficou, sem dúvida, aliviada, uma vez que a sua segunda filha tinha as suas próprias ideias e tinha-se revoltado com a sua outra avó, a Princesa Charles de Hesse lhe tinha tentado tocar. “É muito cansativo,” disse a Princesa Alice sobre o facto de a sua adorável filha não se conseguir comportar com pessoas desconhecidas.

 

Mas quando no Verão de 1865 a sua mãe a levou a visitar Heilligenberg e a sua tia-avó Maria Feodorovna (esposa do Czar Alexandre II)pegou nela ao colo, a pequena criança ficou encantada e colocou os seus braços à volta do seu pescoço, colando a sua cara aquela que era a fria Czarina da Rússia e que encontrou na sua adorável sobrinha-neta um refúgio para os seus dias de solidão no Palácio de Alexandre. Foi durante esta visita que Isabel brincou pela primeira vez com aquele que seria o seu futuro marido, o Grão-Duque Sergei Alexandrovich.

 

Isabel durante a infância

 

Apesar de descender de uma das mais antigas e mais poderosas famílias nobres da Alemanha, Isabel e a sua família tinham uma vida bastante modesta quando comparada com os padrões reais. As crianças varriam o chão e arrumavam os seus próprios quartos enquanto a sua mãe confeccionava as suas roupas e as dos filhos. Durante a Guerra Austro-Prussiana, era frequente a Princesa Alice levar Isabel consigo quando visitava soldados feridos num hospital próximo. No meio deste ambiente relativamente feliz e seguro, Isabel cresceu rodeada de hábitos domésticos ingleses e o Inglês tornou-se na sua língua principal, assim como a dos seus irmãos. As crianças falavam Inglês com a mãe e Alemão com o pai.

 

Ella (sentada com a irmã Mae nos braços) com os seus irmãos Irene, Ernesto, Alice (Alexandra da Rússia) e Vitória

 

No Outono de 1878, quando Isabel tinha 14 anos, a Difteria abalou a casa Hesse matando a sua irmã mais nova, Maria (conhecida na família por Mae) no dia 16 de Novembro desse ano. Isabel foi a única dos irmãos que não apanhou a doença e foi enviada para a casa dos avós paternos para não ser afectada. Enquanto lá estava, no dia 14 de Dezembro, a sua mãe sucumbiu à doença depois de cuidar de todos os filhos durante essas semanas. Quando Isabel foi autorizada a regressar à sua casa, descreveu a reunião como “terrivelmente triste” e disse que tudo parecia “um pesadelo horrível”.

 

Isabel (em pé na direita) com as irmãs puco depois da morte da mãe

 

Durante a sua juventude, Isabel era sedutora e tinha uma personalidade muito aberta. Muitos historiadores consideram-na uma das mulheres mais bonitas da Europa nesta altura. Foi durante esta época que ela chamou a atenção do seu primo mais velho, o futuro kaiser Guilherme II da Alemanha. Ele estudava na Universidade de Bonn e não era raro visitar os seus parentes de Hesse aos fins-de-semana. Durante estas visitas ele apaixonou-se por Isabel e escreveu-lhe numerosos poemas de amor que lhe enviava. Embora se sentisse elogiada pela atenção que recebia por parte do primo, Isabel não se sentia atraída por Guilherme e rejeitou-o educadamente. O futuro kaiser ficou frustrado e decidiu desistir da Universidade para voltar a Berlim.

 

Isabel durante a juventude

 

Além de Guilherme II, Isabel tinha muitos admiradores, entre os quais o Lord Charles Montagu, Segundo filho do 7º Duque de Manchester e Henry Wilson que se tornaria num famoso soldado.

 

Outro dos seus admiradores era o futuro Frederico II, Grão-Duque de Baden e primo de Guilherme. A Rainha Vitória descrevia-o como “tão bom e estável”, com “uma posição tão segura e feliz” e quando Isabel o rejeitou, a Rainha “arrependeu-se de o ter dito.” A avó de Frederico, a Imperatriz Augusta, ficou tão furiosa com a rejeição de Isabel que passou muito tempo sem a conseguir perdoar.

 

 

Ella em 1883

 

Eventualmente foi um Grão-Duque russo que conquistou o coração de Isabel. A tia-avó de Isabel, nascida em Hesse, era uma visita frequente no condado e, durante as suas visitas, era sempre acompanhada pelos seus filhos mais novos, Sergei e Paulo. Isabel conhecia os dois irmãos desde bebé, mas achava-os demasiado arrogantes e reservados. Sergei, particularmente, era um jovem calado, muito religioso e apaixonou-se por Isabel quando a viu pela primeira vez depois de muitos anos. Mais tarde ele pediu-lhe para casar com ele, mas, a principio, Isabel não se sentia apaixonada por ele.

 

A opinião da Princesa mudou quando Sergei perdeu os seus pais no mesmo ano. Maria Feodorovna de Hesse morreu de doença e Alexandre II foi morto num atentado à bomba em São Petersburgo quando se encontrava a caminho de uma reunião que tornaria a Rússia numa monarquia constitucional.

 

Ella com Sergei

 

O Grão-Duque encontrava-se em Roma quando o seu pai foi assassinado e, por isso, foi-lhe poupada a visão do seu corpo mutilado. Sergei admirava o seu pai e a sua morte fez com que se tornasse num selvagem anti-revolucionário que não escondia o ódio que sentia pelas pessoas que tinham ignorado os esforços de Alexandre II em liberalizar o país. A morte da sua mãe foi também difícil uma vez que ambos eram devotos um ao outro. Estes eventos mudaram-no e Isabel passou a vê-lo “com outros olhos”, uma vez que compreendia a dor pela qual ele passava depois de ter perdido a sua própria mãe. Outras parecenças como a arte e a religião aproximaram-nos cada vez mais. Há quem diga que ele gostava particularmente da sua personalidade que o fazia recordar a sua adorada mãe. Por isso, quando Sergei voltou a pedir a mão de Isabel em casamento no casamento da sua irmã com o Principe Louis de Battenberg, ela aceitou e ambos tiveram autorização do pai dela para se casarem. A Rainha Vitória não ficou particularmente encantada com a união.

 

Isabel e Sergei em 1892

 

O noivado da Princesa Isabel foi curto, uma vez que Sergei queria que o casamento se realizasse o mais rapidamente possivel e, apesar do pai dela não aceitar completamente a sua pressa, foi forçado a lidar com ela quando em Junho de 1884 chegou a São Petersburgo com Isabel e as suas duas irmãs mais novas Irene e Alice.

A Rússia, com a sua vastidão, a sua atmosfera estranha e inexplicável, surpreendeu as duas princesas mais velhas que, à excepção da Inglaterra, tinham visto muito pouco do mundo. As enormes praças e largas ruas de São Petersburgo, o Neva, maior do que qualquer rio inglês ou alemão, as cúpulas e espirais douradas das catedrais, a grandeza do Palácio de Inverno e a graciosidade da alta sociedade eram tão únicos e inesperados que elas se sentiram desorientadas e confusas, incapazes de se acostumarem ao ambiente estranho e pouco familiar que as rodeava.Elas sentiam-se intimidadas pelas multidões de criados e damas-de-companhia que as rodeavam sem descanço, pelos conselheiros da Corte que davam diferentes instruções e, acima de tudo, pelo irmão de Sergei, o Czar Alexanre III. O imperador era alto, tinha ombros largos, uma voz alta e mãos que conseguiam endireitar uma ferradura sem grande esforço. Apenas Alice que tinha apenas 12 anos na altura parecia não ter nenhuma apreensão. Ela não via nada de assustador, apenas “os corredores vastos e inspiradores do Palácio de Inverno com os seus quilómetros de chão dourado” e passou a maior parte do tempo a jogar às escondidas entre os pilares com o filho mais velho de Alexandre III que era, normalmente, tímido e indiferente com estranhos, mas achava aquela menina com os seus caracóis loiros uma companhia encantadora e com quem se sentia perfeitamente relaxado.

 

Isabel (2ª da direita) e as irmãs pouco antes do noivado

 

O Grão-Duque de Hesse não tinha permitido que a sua filha mudasse de religião antes do casamento, por isso houve uma cerimónia Luterana e uma Ortodoxa. Quando finalmente ambas as cerimónias acabaram e uma Isabel pálida teve de se despedir do seu pai e das irmãs, sentiu-se que ela estava aterrorizada com a perspectiva de ser forçada a viver uma nova vida num país desconhecido, rodeada de estranhos, novas ligações e com um marido que, no fundo, mal conhecia.

 

"Ella" no dia do casamento

 

Não existe nada que mostre se a nova Grã-Duquesa se sentia infeliz. Se sofria, fazia-o em silêncio, sem se queixar uma única vez. No entanto o sentimento geral na sociedade de São Petersburgo era de simpatia para com aquela jovem ingénua que se tinha casado com um homem conhecido pela sua rudeza e que se dizia esconder uma vida de imoralidade viciosa. Até a Rainha Maria da Roménia que, em criança, adorava o seu tio Sergei, confessou que ele sempre tinha sido um pouco assustador e que os seus olhos eram cinzentos e frios, os lábios finos e tinha sempre uma expressão dura.

Sergei era considerado um homem bonito, sempre vestido no seu uniforme verde-escuro que lhe dava um aspecto de respeito e conservadorismo. As pessoas que o conheciam diziam que sempre que estavam ao pé dele sentiam sempre que, por detrás da sua expressão controlada, havia uma camada secreta de raiva e frustração.Ele adorava a sua mulher, venerava a sua beleza e cobria-a de presentes como as mais caras jóias e peles, mas era frequente ele censurar o comportamento dela em público se ela se esquecesse das suas instruções ou cometesse o que ele considerava ser uma falta nas regras de etiqueta.

 

Sergei e Ella

 

Ninguém que via a Grã-Duquesa Isabel naqueles dias se esquecia dela. “Ela era a criatura mais bela de Deus que eu alguma vez vi”, escreveu um escritor contemporâneo. No entanto, embora se tivessem deixado levar pela sua beleza e apesar de ela ser jovem, alegre e uma pessoa que gostava de desfilar as jóias e roupas que o seu marido lhe oferecia, nunca houve nenhum escândalo ligado ao seu nome.

 

Ella em 1889

 

A Grã-Duquesa Isabel converteu-se à Igreja Ortodoxa apenas dois anos depois do casamento, muito contra a vontade do seu pai. Quando o Grão-Duque de Hesse soube que o Czarevich Nicolau se tinha apaixonado pela sua filha mais nova, a Princesa Alice, ele recusou-se a permitir que outra filha sua abdicasse da sua fé luterana. A Rainha Vitória também não aprovava estas mudanças de religião e não gostava particularmente da ideia de ver a sua neta favorita noiva do herdeiro ao trono russo. Ela tinha-o achado charmoso, simples e natural quando ele visitara Windsor, mas ao mesmo tempo tinha ficado com a sensação de que ele tinha falta de estabilidade e não conseguia tomar decisões por si mesmo. O Imperador e a Imperatriz partilhavam a sua apreenção, mas por razões completamente diferentes, A Princesa Alice não tinha ficado muito bem vista quando visitara São Petersburgo. Alexandre III achou-a uma alemã típica e Maria Feodorovna ficou incomodada com a sua apatia, além disso ela queria ver o seu filho casado com a filha do conde de Paris e não via como aquela pequena Princesa de Hesse com um feitio tímido e quase hostil poderia ser uma boa esposa.

Isabel com o seu sobrinho Nicolau durante uma peça de teatro

 

Tal como o seu avô, Alexandre II, o Czarevich estava determinado a conseguir aquilo que queria. “O meu sonho é casar-me com a Alice de Hesse”, escreveu ele no seu diário no dia 21 de Dezembro de 1889.

 

Isabel teve uma grande responsabilidade para com a relação do seu sobrinho com a sua irmã. Foi ela que incentivou o amor entre ambos e convenceu a Rainha Vitória (que queria casar Alice com o seu neto Alberto) a aceitar uma possível união entre a sua neta favorita e o Czarevich da Rússia.

 

 

Finalmente em Abril de 1894, o Imperador, que já começava a ceder, deu a sua permissão para que houvesse noivado e o seu filho correu até Coburg onde se realizaria o casamento do irmão de Isabel e Alice, Ernesto, com a Princesa Vitória Melita, filha do duque de Edimburgo. Nicolau pediu Alice em casamento, mas como esposa do Czarevich e herdeiro ao trono, a Princesa sabia que teria de mudar de religião e, a principio, não conseguiu decidir-se se aceitaria o pedido ou não. “A pobrezinha chorou muito,” escreveu Nicolau no seu diário onde descreveu a conversa que teve com ela que se prolongou até à meia-noite. No dia 8 de Abril, no entanto, chegou “um dia lindo e inesquecível” quando o jovem casal foi até ao quarto da Rainha Vitória de mão dada para lhe comunicar que tinham chegado a um acordo. “Fiquei bastante surpreendida”, escreveu a Rainha Vitória no seu diário, “Pensava que, por muito que o Nicky quisesse ir em frente com isto, a Alice não se iria decidir.”

 

O casamento realizou-se em Novembro e Alexandra foi coroada Czarina juntamente com Nicolau que passou a ser o Czar de Todas as Rússias.

Isabel (direita) com a irmã Alexandra e o cunhado Nicolau

 

 

Em 1891, Isabel e Sergei que não tinham filhos practicamente adoptaram os seus sobrinhos Maria e Dmitri Pavlovich, filhos do irmão de Sergei, Paulo. A mãe das crianças tinha caído quando tentava saltar para um barco em andamento e estava grávida de Dmitri. O bebé nasceu prematuro e a mãe morreu poucas horas depois. O pai ficou em estado de choque com a morte da esposa e aceitou de bom grado a ajuda do irmão e da cunhada. Muitos não acreditavam que o bebé fosse sobreviver, mas Sergei ajudou-o, dando-lhe os banhos prescritos pelos médicos, cobrindo-o com mantas de algodão e enchendo o seu berço com garrafas de água quente para manter a temperatura do bebé regular. “Estou a gostar muito de tomar conta do Dmitri,” escreveu Sergei no seu diário. Mais tarde Dmitri seria um dos assassinos de Rasputine, juntamente com o Príncipe Felix Yussopov.

Nesse ano Sergei foi também nomeado Governador de Moscovo e a família mudou-se para a nova cidade.

 

Ella com Dmitri ainda criança

 

O Jubilo de Diamante da Rainha Vitória em 1897 reuniu novamente a grande família em Londres. Seria a última vez que muitos dos seus netos e bisnetos veriam a pequena e velha mulher que durante muitos anos tinha sido o centro pelo qual as suas vidas dependiam para todo o tipo de decisões. Todos os convidados trouxeram presentes que incluíram uma corrente de diamantes das suas filhas mais novas, um alfinete de diamante do Príncipe e da Princesa de Gales, um pendente de diamantes e safiras do Grão-Duque Sergei e da Grã-Duquesa Isabel entre outros. A Rainha gostou de ver a sua família e de ser recebida festivamente pelos seus súbditos quando desfilou numa carruagem pelas ruas de Londres, no entanto esteve muito cansada durante os banquetes e cerimónias que se seguiram e começou a sentir-se ansiosa quando não reconheceu algumas das caras dos netos e bisnetos que falavam com ela. A rainha estava também preocupada com os problemas que afectavam a família na altura. O casamento do Grão-Duque de Hesse, Ernesto, com a filha do Duque de Edimburgo não estava a resultar, o Kaiser Guilherme II parecia cada vez mais zangado com a família por se sentir excluído e, quando o Imperador e a Imperatriz da Rússia a tinham visitado em Balmoral no ano anterior com a sua filha, ela achou que a “querida e simples Alicky” estava muito mudada e temia que a sua nova posição a estivesse a tornar demasiado imperial, o que a magoou muito.

 

No dia 28 de Junho, o Grão-Duque Sergei e a esposa despediram-se da Rainha Vitória para regressarem à Rússia. A Grã-Duquesa Isabel não conseguiu evitar as lágrimas, uma vez que sabia que aquela seria uma das últimas vezes que veria a sua avó que tinha mantido a família junta durante muitos anos e tinha sido a sua mãe substituta e, acima de tudo, uma grande amiga.

 

A desastrosa guerra Russo-Japonesa de 1904 trouxe uma tarefa à Grã-Duquesa que ela cumpriu de uma forma que deixaria orgulhosa a sua avó Vitória se ela fosse ainda viva. Como esposa do Governador de Moscovo, Isabel era líder das organizações da Cruz Vermelha da cidade. Ela enviou comboios-ambulância e equipamento para os soldados enquanto organizava salas de trabalho no Palácio do Kremlin e estava lá todos os dias a supervisor e dar motivação as centenas de mulheres de todos os estratos sociais que trabalhavam lá a empacotar material bélico, medicamentos, comida e roupa para os soldados na frente de combate. Vestia-se sempre de forma simples de azul ou cinzento, estava sempre lá de boa-vontade, tinha sempre um sorriso nos lábios ou um elogio para quem trabalhava, nunca perdia a paciência mesmo quando se cometiam erros e estava sempre pronta para executar os trabalhos mais difíceis.

 

Ella durante a Guerra Russo-Japonesa

 

No dia 4 de Fevereiro de 1905 quando Isabel estava a caminho dos seus quartos privados no palácio onde vivia com o marido e os sobrinhos, ouviu uma explosão que partiu todos os vidros da sua casa. Depois de muitos anos ela sabia que aquilo que temia (e o seu marido esperava) tinha acontecido. Durante muitos anos Sergei tinha-a proibido de andar na mesma carruagem dele e justificava-o dizendo que sabia do ódio que os habitantes de Moscovo sentiam por ele.

 

Sem esperar por alguém para perguntar o que tinha acontecido ou sequer vestir um casaco, Isabel desceu as escadas a correr até chegar ao dia frio de Inverno e seguiu um rasto de fumo e cheiro a pólvora que a levaram até à carruagem despedaçada do seu marido da qual apenas restavam os corpos mutilados dos cavalos. Quando chegou os guardas apressavam-se a cobrir o que restava do corpo do marido com os seus casacos.

 

Começaram a cair-lhe lágrimas e ela ajoelhou-se junto da mancha de sangue na neve, com a multidão a começar a reunir-se à sua volta, olhando horrorizada o macabro espectáculo enquanto a polícia e os soldados procuravam o assassino por entre as pessoas que se encontravam perto do palácio. Algumas horas antes ele tinha saído de casa com uma expressão preocupada, mas a assegurar-lhe que não havia nada com que se preocupar. Embora não tivessem um casamento perfeito, ele era o seu marido que sempre a tinha ajudado a adaptar-se à vida na Rússia e a tratava bem. Ele estava consciente do perigo que corria, mas mesmo assim nunca abandonou as suas responsabilidades e deu o seu melhor no cargo que ocupava. Contudo a sua austeridade quase fanática e a sua crueldade vingativa em certas ocasiões tinham feito com que ganhasse muitos inimigos. Ele era um anti-revolucionário e um autocrata quase tirano, mas ela estava casada com ele há vinte anos e era das únicas que conhecia toda a sua personalidade.

 

Quadro de Isabel

 

Nessa tarde, apesar da sua dor pessoal, Isabel visitou o cocheiro da carruagem do marido que estava gravemente ferido. Ele olhou-a nos olhos e perguntou, “Como está o seu marido?” Muito gentilmente a cara dela recompôs-se e respondeu, “Foi ele que me enviou para o ver” e ficou sentada na cama dele até o cocheiro morrer. Ela implorou a Nicolau para que não matasse o assassino, mas a sua petição foi recusada e ela foi visitar o homem à prisão. Ela tratou-a com desprezo e mantinha-se teimosamente cínico. Não se mostrou arrependido pelo que tinha feito e orgulhava-se da sua acção dizendo que tinha destruído um homem que era um inimigo do povo.

 

A partir desse dia, Isabel nunca mais comeu carne nem peixe. Quando chegou a casa dividiu as jóias que o seu marido lhe tinha oferecido em três e deu algumas aos seus sobrinhos Maria e Dmitri Pavlovich, devolveu as jóias da coroa e vendeu o resto. O dinheiro que ganhou das jóias foi para a caridade e para o Convento de Maria e Marta em Moscovo que passou a visitar com muita frequência, sempre de luto.

 

 

A alta sociedade de São Petersburgo nunca mais a voltou a ver. Só muito raramente Isabel visitava a irmã e a família em Czarskoe Selo e, em 1910, decidiu juntar-se definitivamente à Irmandade de Marta e Maria, doando todas as roupas e pedaços de joalharia que ainda lhe restavam. Não ficou nada, nem sequer com a aliança de casamento. “Este véu,” disse o Bispo Triphonius quando ela entrou no Convento, “vai-te esconder do mundo, e o mundo vai estar escondido de ti, mas vai ser uma testemunha dos teus bons trabalhos que irão brilhar perante Deus e glorificar o Senhor.” A sua nova vida era passada nos quartos pequenos do Convento, apenas mobilados com cadeiras brancas. Ela dormia numa cama de madeira sem colchão e com uma almofada dura. Queria sempre as tarefas mais difíceis, chegando a cuidar de 15 doentes na ala hospitalar sozinha e raramente dormia mais de três horas. Quando um paciente morria, ela passava a noite inteira junto dele (de acordo com a fé Ortodoxa) a rezar intermitentemente sobre o corpo morto.

 

Quando ela se tornou freira, a sua sobrinha Maria Pavlovna casou-se e o sobrinho Dmitri passou a viver com o Czar e a sua família.

 

Isabel como freira

 

Apesar de tudo, ela nunca se tornou rígida, severa ou deprimida e até manteve algum do seu divertimento que a tinha tornado encantadora quando jovem. Uma vez quando a sua irmã, a Princesa Vitória, estava no convento de visita com a sua segunda filha, a Princesa Louise, a porta do quarto delas abriu-se de manhã cedo e uma pequena cabeça espreitou a rir-se e a dizer “Olá”. Abismada, Vitória pensou tratar-se de um rapaz mal-educado que tinha conseguido entrar no convento e estava a invadir o seu quarto, mas depressa percebeu aliviada que se tratava da sua irmã mais nova, sem o seu véu e com o cabelo curto.

Depois de entrar no convento, Isabel apenas visitou São Petersburgo em duas ocasiões: quando se celebraram os 300 anos de poder dos Romanov em 1913 e quando rebentou a Primeira Guerra Mundial em 1914 onde ajudou a sua irmã com os planos de ajuda a soldados feridos.

 

"Ella" com a família imperial

Durante muitos anos, as instituições apoiadas por Isabel ajudaram os pobres e os órfãos de Moscovo. Ela e outras freiras da sua irmandade trabalhavam com os pobres todos os dias e foram responsáveis pela abertura de discussão sobre a possibilidade de permitir o acesso de mulheres a posições de maior importância dentro da igreja. A Igreja Ortodoxa recusou esta ideia, mas abençoou e encorajou os esforços de Isabel para com os pobres.

 

Em 1917 rebentou a revolução e, as ligações de Isabel à família imperial causaram-lhe muitos problemas.

 

 

 

Na Primavera de 1918, Lenine ordenou à Cheka que prendesse Isabel. Mais tarde ela seria exilada, primeiro em Perm e depois em Ekaterinburgo onde também se encontrava a sua irmã Alexandra e a sua família, mas nenhuma das duas sabia da presença da outra na cidade. Mais tarde ela iria juntar-se a outros membros da família Romanov como o Grão-Duque Sergei Mikhailovich, o Príncipe João Constantinovich, o Grão-Duque Constantino Constantinovich, o Grão-Duque Igor Constantinovich e Vladimir Pavlovich Paley. Com os membros da família vieram o secretário de Sergei, Feodor Remez e Varvara Yakovlena, uma freira da irmandade de Isabel. Todos eles foram levados para Alapaevsk no dia 20 de Maio de 1918 onde foram presos na antiga Escola Napolnaya nos arredores da cidade.

 

 Isabel com a irmã Vitória em 1916

 

Ao meio-dia do dia 17 de Julho, o Oficial da Checa, Petr Startsev e alguns trabalhadores bolcheviques chegaram à escola. Tiraram aos prisioneiros todo o dinheiro e valores que tinham e anunciaram-lhes que seriam transferidos nessa mesma noite para uma fábrica em Siniachikhensky. Os guardas do Exercito Vermelho receberam ordens para abandonar o local e foram substituídos por homens da Checa. Nessa noite os prisioneiros foram acordados e levados em carros numa estrada para Siniachikha. A cerca de 18 quilómetros de Alapaevsk havia uma mina abandonada com 20 metros de profundidade. Foi aqui que pararam. Os homens da Checa espancaram todos os prisioneiros antes de os atirar para a mina. Ainda antes de ser atirado, o Grão-Duque Sergei Mikhailovich foi morto a tiro por contestar e tentar espancar os guardas. Isabel foi a primeira a ser atirada. Apesar da profundidade apenas Feodor Remez morreu imediatamente.

 

De acordo com o testemunho de um dos assassinos, Isabel e os outros prisioneiros sobreviveram à queda na mina, o que levou o comandante a atirar as granadas. Depois das explosões, ele disse ter ouvido Isabel e os outros cantarem um hino russo do fundo da mina. Enervado, o comandante atirou uma nova rajada de granadas, mas continuou a ouvir-se os prisioneiros cantar. Finalmente foi atirada uma grande quantidade de arbustos para tapar a mina e o comandante deixou um guarda a vigiar o local antes de partir.

 

 

Na manhã de 18 de Julho de 1918, o chefe da Checa de Alapaevsk trocou uma série de telegramas com o chefe do Soviete Regional de Ekaterinburgo que tinha estado envolvido no massacre da família imperial. Estes telegramas tinham sido planeados com antecedência e diziam que a escola tinha sido atacada por um “gang desconhecido”. Pouco tempo depois Alapaevsk caiu nas mãos do Exército Branco.

 

No dia 8 de Outubro de 1918, os Brancos descobriram os restos mortais de Isabel e dos seus companheiros dentro da mina onde tinham sido assassinados. Isabel tinha morrido devido a ferimentos resultantes da sua queda de vinte metros, mas tinha ainda encontrado forças para fazer uma ligadura na cabeça do Príncipe Ioann. Os seus restos mortais foram retirados da mina e levados para Jerusalém onde estariam longe das mãos dos bolcheviques. Até hoje continuam enterrados na Igreja de Maria Madalena.

 

 

Isabel foi canonizada pela Igreja Ortodoxa For a da Rússia em 1981 e pela Igreja Ortodoxa Russa em 1992 como Nova Mártir Isabel. Os principais templos que lhe são dedicados são o Convento de Marfo-Mariinsky que ela fundou em Moscovo e o Convento de Santa Maria Madalena no Monte das Oliveiras, que ela e o marido ajudaram a construir. Era é uma das mártires do século XX que está representada numa das estátuas acima da Grande Porta Oeste na Abadia de Westminster em Londres, Inglaterra.

Outra estátua de Isabel foi construída após a queda do Comunismo no jardim do seu convento em Moscovo. Na inscrição pode ler-se “À Grã-Duquesa Isabel Feodorovna: Com arrependimento.”

 

Estátua de Isabel no Convento de Maria e Marta em Moscovo

 

Isabel Feodorovna foi assassinada por bolcheviques no dia 17 de Julho de 1918 quando tinha 54 anos


publicado por tuga9890 às 14:54
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Sábado, 2 de Agosto de 2008

Biografia - Miguel Alexandrovich

 

O Grão-Duque Miguel Alexandrovich Romanov nasceu em São Petersburgo no dia 9 de Dezembro de 1878, sendo o quarto filho do Czarevich Alexandre Alexandrovich e da sua esposa, a antiga Princesa Dinamarquesa, conhecida na Rússia por Maria Feodorovna. Misha, como era conhecido pela sua família e amigos mais próximos, era, sem dúvida, o filho preferido dos seus pais. O seu pai subiria ao trono em 1881, após o assassinato do seu avô, Alexandre II.

 

Grão-Duque Miguel Alexandrovich durante a sua infância

 

A infância de Miguel foi passada sobretudo no Palácio de Gatchina, localizado nos arredores de São Petersburgo, antiga residência do seu trisavô Paulo I. Neste palácio vivia-se num ambiente relaxado de casa de campo e simplicidade sem grandes luxos. Enquanto Alexandre III era austero e dominador como Czar e com outros membros da família, com os seus filhos era um pai devoto e relaxado, especialmente com Miguel. Nicolau II era conhecido como uma criança tímida e insegura, mas, pelo contrário, Miguel era amistoso e mostrava bem a confiança interior de filho predilecto.

 

Miguel com o seu pai Alexandre III

 

Entre os seus irmãos, Miguel era mais próximo da sua irmã mais nova, Olga Alexandrovna que o tratava por “querido, querido Floppy”. Os dois irmãos viajavam bastante juntos e a primeira paixão de Miguel foi com uma das suas damas-de-companhia chamada Dina. Essa relação não foi considerada própria para um Grão-Duque e terminou graças aos esforços da sua mãe. Misha estava ao lado do seu adorado pai quando este morreu subitamente em 1894.

 

Miguel era muito mais alto que o seu irmão Nicolau e recebera a beleza da sua família, por isso causava muitas paixões por onde quer que passasse.

 

Miguel e Olga

 

Miguel (2º da esquerda) com o pai

 

Em 1899, quando Miguel tinha 20 anos, o seu irmão mais velho, Jorge morreu de tuberculose. Como Nicolau e Alexandra ainda não tinham um filho, Misha recebeu o título de czarevich até a Agosto de 1904 quando o seu sobrinho Alexis Nikolaevich nasceu. Quando Alexandra estava grávida de Anastasia, Nicolau esteve muito próximo da morte quando sofreu de febre tifóide. Foi só durante essa altura que Alexandra soube das leis paulistas que impediam as suas filhas de subir ao trono. Muitos dizem que foi então que começou a sua obsessão em ter um filho. Felizmente para todos, Nicolau sobreviveu e Miguel pôde regressar à sua rotina normal. O papel de um jovem adulto herdeiro ao trono na família Romanov era muito semelhante ao que hoje faz um Vice-Presidente nos Estados Unidos: participava em muitos casamentos e funerais. Miguel representou Nicolau tanto no funeral da Rainha Vitória em 1901 como no do Rei Eduardo VII do Reino Unido em 1909. A relutância do Czar em abandonar a sua jovem família fazia com que as viagens de Miguel aumentassem, tanto no seu país como no estrangeiro.

 

Miguel atrás de Alexandra e Nicolau


Como resultado das suas viagens, Miguel tornou-se numa espécie de cavalheiro britânico. Muitos dos seus gostos e preferências reflectiam os da aristocracia inglesa da altura. Era um brilhante cavaleiro, sabia conduzir na perfeição e adorava animais e estar no campo. Durante estes anos, quando estava na Rússia, vivia no seu palácio de infância, Gatchina.

 

Um dos seus outros deveres levou, indirectamente, ao seu casamento em 1912. Durante muitos anos, Miguel foi o comandante da Guarda Imperial que tinha o seu quartel-general em Gatchina. Foi aí que conheceu a esposa de um dos oficiais, Natalia Wulfert, em 1906. O escândalo causado por esta ligação foi o segundo do tipo na família. Antes o seu tio, o Grão-Duque Paulo, tinha casado com a estranha ex-mulher do adjunto de Vladimir Alexandrovich.

 

Miguel Alexandrovich e esposa em 1915

 

Natalia Wulfert era descrita pelos seus contemporâneos como uma bonita jovem de 18 anos e com um espírito independente quando conheceu Miguel em 1906. Filha de um advogado de Moscovo, casou-se pela primeira vez aos 16 anos com o director musical de Bolshoi Mamontv. Enquanto estava casada com Wulfer, conheceu Misha e, segundo relatos, houve uma atracção imediata de ambos os lados. Pouco tempo depois tornaram-se amantes e o Grão-Duque, seguindo a lei, escreveu ao seu irmão Nicolau para lhe pedir permissão para se casar com ela.


A família real britânica tinha o seu desdém por ver os seus membros casar com pessoas divorciadas, mas os princípios dos Romanov eram ainda mais complexos. De acordo com as leis Paulinas, os membros da Família Imperial estavam proibidos de contrair “matrimónios desiguais.” Assim, os membros da família eram obrigados a unir-se com outras famílias reais ou aristocráticas que fossem aprovadas pelo Czar. Durante o reinado de Nicolau II, a grande maioria dos casamentos “escandalosos” envolveram uniões entre membros da família com cidadãos russos fora da aristocracia. Por exemplo, a sua irmã mais nova, Olga Alexandrovna, casou-se com um coronel muito respeitável, mas sem qualquer ligação à aristocracia. Por isso a oposição da família ao casamento de Miguel com Natalia não se deveu tanto à sua falta de origens aristocráticas, mas sim ao facto de esta ser divorciada.

 

Nataslia e Miguel durante o exilio

 

Nicolau não aceitou o casamento e deixou-o bem claro quando enviou o seu irmão para um posto de comando afastado em Orel. Natalia foi enviada para umas longas “férias” pela Europa. Os amantes trocaram vários telegramas e cartas e, finalmente, não conseguiram manter-se afastados. Viveram juntos sem se casarem durante vários anos. Em 1910, Natalia deu à luz o único filho do casal, Jorge, que recebeu o nome em honra do irmão mais velho de Miguel. Apenas dois eventos interromperam o silêncio entre Nicolau e Miguel: a grave crise de hemofilia de Alexis na Polónia em 1912 e a Primeira Guerra Mundial.

 

Natalia e Miguel com o seu filho Jorge

 

Quando Miguel recebeu a notícia da gravidade do estado de saúde de Alexis na casa de férias da família em Spala, na Polónia, entrou em pânico. Ele e Natalia tinham vivido como vagabundos imperiais, viajando pela Europa com o seu filho bebé. Contudo, se Alexis morresse, Miguel tornar-se-ia novamente herdeiro ao trono e não queria sê-lo sem Natalia a seu lado como esposa legítima. Com a falta de saúde do sobrinho e o fim aparente de gestações de Alexandra, Miguel temia que o facto de ainda não ainda não se ter casado com Natalia fosse utilizado para o atirar para um casamento imperial com outra mulher, por isso, durante a crise, casou-se com a sua companheira em Viena, numa Igreja Ortodoxa Sérvia. Fê-lo para que o seu irmão Nicolau ou a Igreja Ortodoxa Russa não pudessem afastar Natalia que recebera agora o apelido de Romanov.

 

 

A atitude de desafio de Miguel em relação à sua família pode ser comparada ao que o seu primo Eduardo VIII faria anos mais tarde com Wallis Simpson, uma divorciada americana que o levaria a abdicar do trono de Inglaterra. Para os românticos o amor que unia Miguel e Natalia pode ser inspirador, mas para Nicolau II, este acto foi visto como traição que deixou o Czar zangado e devastado, principalmente devido ao facto de o irmão ter escolhido uma altura tão complicada como era a possível morte do herdeiro ao trono. A zanga entre os dois irmãos intensificou-se e não seria resolvida até ao rebentar da I Guerra Mundial dois anos mais tarde.

 

Miguel e Nicolau em 1903

 

Nicolau não pediu a ajuda de Miguel imediatamente após o rebentar do conflito em Agosto de 1914. Foi o melhor amigo de Miguel, o General Ivan Ivanovich, que se colocou entre os dois irmãos e intercedeu por Miguel, sugerindo que ele deveria ser nomeado comandante da “Divisão Selvagem.”

 

A “Divisão Selvagem” era uma unidade composta apenas por soldados voluntários, composta por seis regimentos de Muçulmanos provenientes da região do Cáucaso. Miguel era uma escolha popular entre os combatentes desta unidade onde quase todos guardavam uma fotografia do Grão-Duque no uniforme.

 

Miguel durante a I Guerra Mundial

 

Natalia fundou vários hospitais por toda a cidade de Petogrado (como era chamada São Petersburgo na altura) e até transformou o Palácio de Gatchina num pólo da Cruz Vermelha Dinamarquesa que também serviu de refúgio após a Revolução. Também durante a sua estadia na Rússia recebeu finalmente o título de Condensa Brassova, juntamente com o seu filho que recebeu o título de Conde Brassov.  Apesar de muitos dos membros da família a receberem, incluindo a mãe e irmãs de Miguel, a Condensa nunca foi convidada por Nicolau e Alexandra. Contudo, de acordo com os relatos da época, ela achava suficiente que a tratassem pela “mulher do Grão-Duque” e aceitava o desdém de outros membros dos Romanov com dignidade. Enquanto Misha estivesse vivo, ela estava feliz. Como anfitriã, entretinha frequentemente membros da Duma Imperial.

 

Natalia e Miguel durante a I Guerra Mundial

 

Miguel provou ser um corajoso comandante da sua “Divisão Selvagem”. É interessante que, enquanto grande parte do exército se tenha revoltado e dispersado após a Revolução, esta divisão manteve a sua disciplina e objectivo, sendo que apenas se separou em 1920 depois de ter combatido ao lado do Exercito Branco, altura em que foram evacuados para Constantinopla com o General Wrangel. Alguns dos seus descendentes podem muito bem ser rebeldes combatentes na Chechénia, uma vez que muitos dos membros da unidade provinham dessa região.


Não existem provas de que o Grão-Duque Miguel tenha participado em qualquer conspiração, nomeadamente as dos Grão-Duques entre 1916-1917 e acredita-se que, apesar de tudo, se manteve leal ao seu irmão até ao último momento. Ele foi apanhado de surpresa, tal como o resto do mundo, quando Nicolau abdicou por si e pelo seu filho no dia 3 de Março de 1917. A dinastia Romanov que começara em 1613 com o Czar Miguel, acabaria agora com Miguel Alexandrovich.

 

Miguel Alexandrovich em Gatchina

 

Alguns historiadores consideram Miguel o último Czar da Rússia. O que não deixa qualquer dúvida é que ele foi nomeado oficialmente como sucessor de Nicolau e, se as coisas tivessem sido diferentes, poderia mesmo ter chegado a Czar. Contudo, ele herdou uma situação que, a cada hora que passava, se ia descontrolando cada vez mais, fugindo ao seu controlo ou de alguém. Alexandre Kerensky e outros líderes da Duma deixaram bem claro que não poderiam garantir a sua segurança se ele decidisse assumir o poder. Seria um Czar sem corte nem apoiantes.

 

retrato oficial de Miguel Alexandrovich

 

O manifesto de Miguel, datado do dia 3 de Março de 1917, é um documento de grande importância devido à importância que teve para a família Romanov que, pela primeira vez, escolheu não usar violência para manter o seu poder. Miguel repudiava o uso da força para assegurar a coroa e esse filosofia mantêm-se até hoje entre os descendentes da família nomeadamente quanto a uma possível restauração da monarquis. O seu manifesto dizia:


 

 “Um pesado fardo foi-me entregue pela vontade do meu irmão que, numa altura de luta descontrolada e tumulto popular decidiu transferir-me o trono imperial da Rússia. Partilho com o povo a ideia de que o bem do país se deve elevar acima de qualquer outra coisa e decidi firmemente que apenas aceitarei o poder se essa for a vontade do nosso grande povo, que tem, através do sufrágio universal, de eleger os seus representantes para a Assembleia Constituinte, para assim determinar a forma de governo e as novas leis fundamentais da Rússia. Por isso, pedindo a bênção de Deus, peço a todos os cidadãos da Rússia que obedeçam ao Governo Provisório, que subiu ao poder e tem autoridade plena na iniciativa da Duma Imperial até que chegue a altura certa para uma Assembleia Constituinte, convocada o mais cedo possível e eleita de acordo com os princípios do sufrágio universal, directo, igual e secreto, para que se dê voz ao povo para escolher a sua forma de governo.  

 


Neste documento, Miguel nem aceita, nem rejeita a coroa. Claramente não se trata de uma abdicação, como alguns afirmaram. Em vez disso, Miguel inicia um novo rumo que defendia já antes da queda de Nicolau, para que se formasse um governo representativo. Ele governaria como um monarca constitucional, ou então, se o povo assim o decidisse, nem sequer subiria ao trono. Miguel manteria o contacto com Kerensky até à subida ao poder dos bolcheviques após a Revolução de Outubro de 1917. As eleições que Miguel convocara chegaram a realizar-se, mas a Assembleia Constituinte acabou por ser dissolvida pelos bolcheviques.

Miguel  era uma visita frequente do Palácio de Alexandre depois de regressar à Rússia. A sua última visita ocorreu no dia 31 de Julho de 1917 quando lhe foi dada permissão pelo líder do Governo Provisório, Alexandre Kerensky, para visitar o seu irmão mais velho, Nicolau II, antes de a Família Imperial ser enviada para o exílio em Tobolsk. Essa foi também a última vez que se viram.

 

Miguel Alexandrovich no Palácio de Alexandre em 1917

 

Miguel ajudou Kerensky a sair da Rússia após a Revolução de Outubro, obtendo um passaporte dinamarquês através das suas ligações familiares. Os Dinamarqueses ainda ocupavam Gatchina e ofereceram à família e amigos de Miguel uma pequena sensação de segurança. Kerensky conseguiu chegar ao Ocidente e viveu nos Estados Unidos até à sua morte em 1964.

 

Jorge, o filho de Miguel, também saiu da Rússia graças a um passaporte dinamarquês. Viveu em Paris até à sua morte aos 21 anos devido a um acidente de carro. Não tinha filhos, por isso hoje não existem descendentes directos de Miguel.

 

Natalia, a sua esposa, foi presa durante algum tempo depois da revolução com o seu marido Miguel. Boris Savinkov, o assassino que planeou o assassinato do Grão-Duque Sergei Alexandrovich em 1905, era o responsável pelo casal. Nicolau e Alexandra souberam da detenção de Miguel e Natalia quando estavam exilados em Tobolsk. Todos os preconceitos sobre o casamento impróprio de Misha tinham já desaparecido e Nicolau ficou terrivelmente preocupado com o seu irmão e cunhada.

 

Miguel e Natalia Romanov foram preses pelo governo de Lenine após a revolução de Outubro

 

Miguel, sempre um marido devote, ordenou que a sua mulher abandonasse a Rússia de qualquer forma possível depois de receber a ordem de exílio para os Montes Urais na Primavera de 1918. Assim que foi libertada, Natalia obedeceu ao marido e, tal como o seu filho, abandonou o país com um passaporte dinamarquês que a identificava como enfermeira da Cruz Vermelha. Viveu uma vida tranquila em Londres durante alguns anos. Em 1931 o seu filho Jorge morreu e, apenas em 1932, descobriu o que tinha acontecido ao seu marido em Junho de 1918. Nos seus últimos anos de vida, Natalia tinha perdido grande parte da sua fortuna e recebia ajudas financeiras dos Romanov e outras famílias reais. Curiosamente a única ajuda financeira que realmente a ajudava veio do seu primo por casamento, o Príncipe Felix Yussopov. A filha de Natalia do seu primeiro casamento também conseguiu fugir da Rússia, casou-se, e teve uma filha, Pauline Grey que escreveu o livro “The Grand Duke’s Woman.” Quando morreu, sozinha e esquecida em 1952, era esse o seu título preferido.

 

 

Muitos dos Romanov que permaneceram na Rússia, além dos que se refugiavam na Crimeia, foram enviados para os Montes Urais durante a Primavera de 1918. A todos eles foi assegurada segurança e liberdade pelos bolcheviques. Como a história já nos mostrou, os bolcheviques tinham uma ideia bastante curiosa sobre o que representava “segurança”. A Grã-Duquesa Ella foi dada como desaparecida pelo governo quando eles a tentavam enviar para um “local seguro” e disseram que Alexandra, Alexis e irmãs estavam num local seguro após o assassinato de Nicolau. Todos foram exterminados cruelmente.

 

Miguel gostou da relativa liberdade durante muitas semanas e sentia-se aliviado por Natalia e o filho terem escapado.

 

Miguel Alexandrovich em 1915

 

Na noite de 11 de Junho de 1918, um grupo de bolcheviques entrou de rompante no quarto de hotel de Miguel e ordenaram-lhe que se preparasse para ser transferido para um local seguro. Quando ele protestou e tentou telefonar ao líder do Partido Bolchevique local que lhe tinha prometido a sua liberdade as linhas foram cortadas. Ele vestiu-se, foi puxado pelo colarinho e atirado para dentro de um carro juntamente com o seu secretário, o britânico Brian Johnson.

 

Os dois homens conduziram-no para for a da cidade de Perm, onde tinha permanecido em exilio, até uma área de floresta. Ambos foram mortos a tiro pelo grupo. Um relatório indica que Miguel, depois de estar ferido, correu em direcção ao seu amigo com os braços abertos, apenas para ser morto com um tiro no peito. Um dos assassinos usou o relógio de Johnson durante vários anos como recordação.

 

Os corpos de Miguel Romanov e de Brian Johnson nunca foram encontrados. As suas mortes foram apenas o princípio de uma série de assassinatos de membros da família Romanov que aconteceu entre Junho de 1918 e Janeiro de 1919. Ao todo, 18 membros da família foram mortos durante este período.

 

Miguel foi assassinado com 39 anos de idade

música: Jeff Buckley - Hallelujah

publicado por tuga9890 às 11:38
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